domingo, 2 de junho de 2024

Mimosas por eucaliptos

Um dia destes estava a dar uma volta que passava por várias manchas expressivas de mimosas, numa zona de produtividade razoável, sendo certo que parte do terrenos tinham antigos socalcos, isto é, solos razoáveis.


Quando me perguntava o que fazer a estas áreas de mimosas, admiti que uma das poucas soluções que me parecia possível executar era entregar áreas dessas às celuloses, isto é, a quem teria capacidade económica para investir o suficiente no controlo de longo prazo das mimosas, através de uma produção com viabilidade económica.


Bem sei que o que descrevi é apenas um cenário que teoricamente poderá fazer algum sentido, mas sem qualquer viabilidade prática, em parte porque há questões relevantes na sua execução, em parte porque equacionar sequer esta hipótese, para a poder discutir racionalmente, é considerado inaceitável (ultrajante, até) por gente suficiente e suficientemente vocal para inquinar qualquer discussão do assunto.


Qualquer pessoa que se atreva a dizer que uma das soluções possíveis em algumas áreas, para inverter a progressiva expansão de acácias, poderá ser a sua substituição por produção comercial de eucalipto nos próximos trinta a quarenta anos (o tempo para fazer três cortes, eliminar as mimosas e abrir a oportunidade para a reconversão dos eucaliptais depois, se se entender) será imediatamente acusado de ser um vendido aos eucaliptos, ofuscando qualquer discussão racional sobre a matéria.


Note-se que para a pergunta sobre o que fazer nessas áreas de progressiva expansão de acácias não há respostas fáceis e economicamente sustentáveis, há projectos pontuais, meritórios, de controlo de áreas relativamente restritas, assentes em recursos muito limitados e contingentes.


A solução de usar uma produção economicamente viável que implique o controlo das mimosas é uma possibilidade que seria admitida por muita gente, mas quando se começa a discutir que actividades economicamente viáveis existem realmente que possam desempenhar este papel, a verdade é que não consigo identificar nenhuma que não seja a produção de eucalipto (não estou a dizer que não haja, isso faria parte da discussão, estou a dizer que não consigo ver qualquer alternativa com escala para ter algum impacto).


E isso vai acabar num problema de primeira grandeza: a discussão racional das virtudes e limitações de hipóteses destas é de tal maneira difícil e com implicações tão negativas em quem admita a possibilidade que descrevi, que a inacção sobre o problema da progressiva expansão das áreas de acácia, em algumas regiões do país, é incomparavelmente mais serena como futuro provável de muitas das nossas paisagens.

6 comentários:

  1. Segundo creio ter lido algures, as acácias são uma colonizadora primária de terrenos ardidos, mas passados poucos decénios têm tendência a morrer, dando progressivamente lugar a outras espécies.
    É verdade? Que sabe o Henrique sobre o assunto?

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  2. Há uns anos, quando houve uns grandes incêndios por toda a Sibéria, perguntei a um russo meu colaborador (que, por sinal, tinha vivido boa parte da sua vida na Sibéria) que faziam os russos a propósito desses grandes incêndios. Ele respondeu que não havia nada a fazer, era impossível apagar incêndios naquelas enormes extensões, portanto deixavam arder, somente combatiam os incêndios quando eles começavam a aproximar-se demasiado de cidades ou de qualquer coisa importante.
    Se calhar a nossa atitude perante as acácias tem que ser, nalgumas situações, a mesma. É impossível combatê-las, portanto, deixemo-las medrar, exceto quando se aproximem em demasia de algum terreno importante.

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  3. Basta humidade para as acacías ficarem em qualquer terreno. Como as sementes são muitas e agarram facilmente ao solo e crescem em pouco tempo tens uma floresta delas. Podem crescer 1-2 m em 1 ano.

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  4. crescem em pouco tempo tens uma floresta delas


    Isso sei eu bem e já observei em terrenos meus e de outros.


    A questão que ponho é, será que, com o andar do tempo, essa floresta densa de acácias não se reduzirá progressivamente (daqui a, digamos, 50 a 100 anos) a somente algumas acácias grandes, velhas e com boa madeira, acompanhadas de relativamente poucas acácias mais pequenas?


    E será que, decorrido ainda mais tempo (100 a 200 anos), árvores de outras espécies não começarão, pouco a pouco, a crescer e a suplantar até mesmo as acácias grandes, as quais acabarão por morrer?


    Será que as acácias não passam de um estágio temporário de recuperação da natureza após um incêndio?

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