Pequeno passeio por um texto com quase 180 anos cuja leitura é muito proveitosa para entender os movimentos milenaristas associados a Greta Thundberg, Climáximo e, de forma mais suave, a muitos outros que vão dizendo que enfim, não se reconhecem em tudo, mas a vozearia milenarista destes extremistas até é útil e se justifica, mesmo que contenha partes que seria melhor dizer de outra maneira e assente em práticas que talvez fosse melhor rever.
A razão pela qual é útil reler este texto integralmente (aqui estão apenas bocados sem contexto), não se prende com a ligação entre as actuais tendências milenaristas assentes nas questões climáticas e este texto (duvido que quer Greta, quer a generalidade das pessoas da Climáximo tenham perdido tempo a lê-lo) mas sim com as semelhanças estruturais deste discurso milenarista, o nós contra eles, a razoabilidade de alguns diagnósticos face ao desvario das soluções propostas (incluindo o que hoje sabemos do que resultou das tentativas de aplicação prática), o gosto por teorias de conspiração, etc..
Tirando esta pequena introdução em itálico, o resto vem tudo directamente de um texto que facilmente se encontra procurando no Google qualquer dos bocadinhos citados, começando pela sua primeira frase que usei no título do post.
os mercados continuavam a crescer, a procura continuava a subir. Também a manufactura já não chegava mais. Então o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. Para o lugar da manufactura entrou a grande indústria moderna; para o lugar do estado médio industrial entraram os milionários industriais, os chefes de exércitos industriais inteiros, os burgueses modernos.
O mercado mundial deu ao comércio, à navegação, às comunicações por terra, um desenvolvimento imensurável. Este, por sua vez, reagiu sobre a extensão da indústria, e na mesma medida em que a indústria, o comércio, a navegação, os caminhos-de-ferro se estenderam, desenvolveu-se a burguesia, multiplicou os seus capitais, empurrou todas as classes transmitidas da Idade Média para segundo plano.
O moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa.
A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela.
A necessidade de um escoamento sempre mais extenso para os seus produtos persegue a burguesia por todo o globo terrestre. Tem de se implantar em toda a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer contactos em toda a parte.
As antiquíssimas indústrias nacionais foram aniquiladas, e são ainda diariamente aniquiladas. São desalojadas por novas indústrias cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas, por indústrias que já não laboram matérias-primas nativas, mas matérias-primas oriundas das zonas mais afastadas, e cujos fabricos são consumidos não só no próprio país como simultaneamente em todas as partes do mundo. Para o lugar das velhas necessidades, satisfeitas por artigos do país, entram [necessidades] novas que exigem para a sua satisfação os produtos dos países e dos climas mais longínquos. Para o lugar da velha auto--suficiência e do velho isolamento locais e nacionais, entram um intercâmbio omnilateral, uma dependência das nações umas das outras.
A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio dos bárbaros ao estrangeiro. Compele todas as nações a apropriarem o modo de produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se burguesas. Numa palavra, ela cria para si um mundo à sua própria imagem.
A burguesia submeteu o campo à dominação da cidade. Criou cidades enormes, aumentou num grau elevado o número da população urbana face à rural, e deste modo arrancou uma parte significativa da população à idiotia [Idiotismus] da vida rural. Assim como tornou dependente o campo da cidade, [tornou dependentes] os países bárbaros e semibárbaros dos civilizados, os povos agrícolas dos povos burgueses, o Oriente do Ocidente.
A burguesia suprime cada vez mais a dispersão dos meios de produção, da propriedade e da população. Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A consequência necessária disto foi a centralização política. Províncias independentes, quase somente aliadas, com interesses, leis, governos e direitos alfandegários diversos, foram comprimidas numa nação, num governo, numa lei, num interesse nacional de classe, numa linha aduaneira.
A burguesia, na sua dominação de classe de um escasso século, criou forças de produção mais massivas e mais colossais do que todas as gerações passadas juntas. Subjugação das forças da Natureza, maquinaria, aplicação da química à indústria e à lavoura, navegação a vapor, caminhos-de-ferro, telégrafos eléctricos, arroteamento de continentes inteiros, navegabilidade dos rios, populações inteiras feitas saltar do chão — que século anterior teve ao menos um pressentimento de que estas forças de produção estavam adormecidas no seio do trabalho social?
A condição essencial para a existência e para a dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de privados, a formação e multiplicação do capital
na vossa sociedade existente, a propriedade privada está suprimida para nove décimos dos seus membros; ela existe precisamente pelo facto de não existir para nove décimos. Censurais-nos, portanto, por querermos suprimir uma propriedade que pressupõe como condição necessária que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade.
Em sentido próprio, o poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de uma outra.
quando o ser humano tende para zero na sociedade urbana e industrial.
ResponderEliminardesapareceram o 'chumeco', o ferrador, o albardeiro, etc.
citadino que fica desempregado passa fome, tem dificuldade em pagar a casa. acaba sem abrigo e na sopa dos pobres.
ainda termino meus dias a tratar da horta.
Os senhores feudais é que eram bons....
ResponderEliminarEsse excelente texto demonstra que o diagnóstico do autor era acertado (e não se desactualizou, bem pelo contrário), a terapia sugerida é que era péssima. É daqueles casos em que a cura se mostrou pior que a suposta doença - que, na realidade, será antes uma característica inata do suposto paciente.
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