
É tempo da política e hoje é por aí que vou, considerando que Rui Rio esteve bem em todos os debates que vi até agora. Tenho, no entanto, a sensação de que estou sozinho no mundo, já que politicamente me abasteço quase exclusivamente de informação e opinião no jornal Observador, rádio Observador e canais televisivos. Que me lembre, fora Manuela Ferreira Leite, nestes meios não há um único comentador ou cronista que não aproveite o seu espaço para zurzir no candidato do PSD, o único cuja vitória pode tirar os socialistas do poder.
Até compreendo que fosse essa a atitude dos comentadores e analistas não socialistas quando havia hipótese do candidato do PSD ser outro, mas a questão ficou arrumada com as eleições internas em que Paulo Rangel foi derrotado. Porém, Rui Rio continua a ser criticado por tudo e por nada por estes comentadores, pelo que diz e pelo o que não diz, por não ser “claro” mesmo quando afirma a mesma coisa 350 vezes (da coligação com o Chega à prisão perpétua, passando pelo Bloco Central), por não conseguir impor os seus temas nos debates, mesmo quando é interrompido constantemente pelos moderadores com ríspidos “responda à minha pergunta” - tratamento a que, aliás, geralmente são poupados os candidatos de esquerda (sobretudo António Costa) - , por não ter ideias, por ter ideias, mas não as prioritárias, por não gostar de jornalistas (como se algum dirigente do PSD alguma vez tenha verdadeiramente gostado), por querer mandar ditatorialmente na Justiça (como se isso fosse possível numa democracia europeia) etc etc. O absurdo chega ao ponto de ouvir comentadores a sublinhar gravemente a importância de fazer reformas de fundo na Justiça, na Segurança Social, no sistema político e mais não sei aonde e em simultâneo criticarem Rio por as querer fazer.
Só consigo perceber esta má vontade contra Rui Rio, que muitas vezes roça o ódio cego, por duas razões. Uma, bem portuguesa, é a incapacidade de reconhecer que se errou quando durante anos se disse e escreveu que ele “não tinha hipóteses”, que queria apenas ser “vice-primeiro-ministro” de António Costa, que não sabia fazer oposição, que o PSD estava condenado a se tornar irrelevante e por aí fora. Deve custar admitir que afinal ele chega às eleições com grandes possibilidades, sem nunca abdicar do seu estilo tão criticado. A segunda, é dos que pensam que uma derrota de Rio trará à liderança do PSD alguma reencarnação de Sá Carneiro ou um Passos Coelho a desembarcar no Terreiro do Paço numa manhã de nevoeiro (não será por acaso que ele sensatamente parece querer distância destes sebastianistas “liberais”) ou um Carlos Moedas que mande à fava o mandato que acabou de conquistar ou, enfim, alguém que ninguém percebe quem é, mas que fará “tábua rasa” à direita e iniciará um ciclo glorioso de transformações na sociedade portuguesa, não deixando pedra sobre pedra, à boa maneira do que fascina a esquerda revolucionária e a extrema-direita.
Era bom que estes adeptos do quanto pior para Rui Rio melhor para os amanhãs que cantam, se lembrassem do que aconteceu quando se fez o mesmo com Manuela Ferreira Leite quando ela enfrentou José Sócrates em 2009. É verdade que se conseguiu que ela fosse derrotada e que depois viesse o desejado Passos Coelho. Só que, apesar de ter sido um bom primeiro-ministro, a verdade é que ele teve apenas oportunidade de apanhar os cacos deixados pela governação socialista de então. É isto que querem que se repita daqui a uns anos? Não se perdeu já tempo suficiente?
Uma comunicação social dependente dos poderes instituidos. Agem como ramificações, nada subreptícias, do orgão de propaganda do PS, a Acção Socialista.
ResponderEliminarLamento, mas Rui Rio começou por dar tiros nos próprios pés Quando propôs que se acabassem os debates quinzenais para que os cidadãos seguissem a actuação do governo. Deu tempo a Costa para se pavonear nas TVs de manhã à noite.
ResponderEliminarAinda ontem para segregar o Chega disse que faria coligação só com IL e CDS. Erro fatal quando o CHEGA tem o dobro dos votos destes partidos.
Inteiramente de acordo, mas cheira-me que alguns seus parceiros aqui do blog (um em particular...), deverá estar com as orelhas a arder.
ResponderEliminarHá erros e erros.
ResponderEliminar1º Acabou com os debates quinzenais o que favoreceu Costa.
2º Concertou com Costa a miserável partilha das CCDR.
3º Não fez o acordo pré-eleitoral com o CDS (bem sei que foi uma decisão maioritária do Conselho Nacional mas não o vi muito empenhado) isto é:
a) Recusou as vantagens matemáticas do método de Hondt;
b) Recusou a dinâmica política que uma reedição da AD poderia ter no eleitorado indeciso ou mesmo abstencionista.
c) Não fazendo o acordo à direita, reforçou a ideia de que está preparado para um acordo à esquerda.
Tudo pormenores do erro crucial de julgamento: tratar o PS como um partido democrático quando o PS é um projecto de poder.
A Comunicação Social deste país é um dos grandes problemas da nossa democracia. Corrompida, não isenta, cheia de entorses à verdade, omitindo ou favorecendo o retrato dos seus próceres. A CS tem inquinado o espaço público com desinformação tendenciosa e com isso tem prestado um mau serviço público e principalmente à democracia.
ResponderEliminarAs redacções, os comentadores, e outros que tais são, no fundo, gente muito prosaica que se julga fazer parte de uma clique, mas não passa de uma pandilha _ para sermos exactos, uma matilha _ que obedece à voz do dono que lhes assegura o sustento e as prebendas. Fazem-no de forma ostensiva, diria, descarada. Aos outros dá-se-lhes tratos de polé. Foi, é e será sempre assim. Lembre-se de Cavaco Silva. Ou de Passos Coelho. Já o estão a ensaiar com Rui Rio. Todos têm "má imprensa" façam o que fizerem.
Concordo com a generalidade do post e concordo também com os dois primeiros erros que enumera. Quanto ao terceiro erro, discordo, vem no seguimento da estratégia da capitalização ao centro esquerda cuja a parceria com CDS causaria mais desvantagem que beneficio. Concorde ou não com Rui Rio hoje é quase impossível liga-lo ao legado da PAF porque conseguiu criar uma nova imagem para o PSD (e nela não cabe o CDS).
ResponderEliminarHá um pragmatismo que da parte de Rui Rio que é difícil de admitir, até para mim, mas para aspirar uma vitória o seu será os reformados e os funcionários públicos, por isso não hostiliza o PS.
Rui Rio meteu as fichas todas nesta postura responsável de abertura a negociar com o PS pela estabilidade deixando António Costa com uma única saída, a maioria absoluta.
Não resido nem vivo em Portugal há varios anos. Sou de direita. Full stop.
ResponderEliminarNa minha opinião existe em Portugal uma enorme cobardia politica. As pessoas tem receio de se assumirem para não cairem em "desgraça".
Queremos mudanças, mas só de conversa de café.
Bela liberdade democrática. A Comunicação Social manipula a mente dos leitores a seu belo prazer. Viva a liberdade democrática.
Muito obrigado pela sua resposta. Estou pouco habituado a que me respondam e ainda menos que o façam educadamente e discutindo ideias.
ResponderEliminarA chave do meu "post" é o final, que não vou desenvolver aqui. Prefiro arriscar uma futurologia.
1º O PS tem mais votos do que o PSD. Costa é nomeado, Rui Rio viabiliza o governo, o PS continua a sua política de ocupação da sociedade pelo Estado e do Estado pelo PS. Admitindo que Rio tem limites, acaba por ter de retirar o apoio ao governo e iremos novamente a votos antes de 2023.
2º O PS tem menos votos do que o PSD o que abre duas possiblidades;
a) A esquerda soma mais votos do que o PSD e a direita. Aí Costa vai para Bruxelas e há uma nova geringonça com Pedro Nuno Santos.
b) A esquerda soma menos votos do que PSD e direita. Se Rio conseguir formar governo, Costa vai na mesma para Bruxelas e o conjunto dos "apparatchiks" socialistas no aparelho de Estado, dos sindicatos organizados verticalmente e da comunicação social engajada, tornam o país ingovernável. Aí o cenário mais provável é uma intervenção externa, desta vez com uma "troika" musculada.