terça-feira, 5 de outubro de 2021

Memórias do 5 de Outubro de 1910



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"(...) Em 1910 sobreveio a revolução estando nós em Sintra a passar o verão, coisa que me não sucedia havia vários anos e que tão me satisfez gozando daquele lindo sítio e sobre tudo da companhia assídua de amigos são queridos da qual os acontecimentos dos últimos anos da minha vida não me tinham permitido gozar com a frequência acostumada. Foram estes meses da minha estada em Sintra em 1910 os últimos para mim felizes e de uma relativa Tranquilidade. O despertar foi tristíssimo logo que soubemos que a revolução tinha estalado. Encontrei-me com João de Azevedo Coutinho que desejava um automóvel para ir a Mafra ver se conseguia levar consigo a tropa que lá estava e cair sobre a retaguarda dos revoltosos entrincheirados no alto da Avenida. Pensava ele encontrar em Mafra uns 400 homens que de facto não existiam lá. Vem o João Coutinho a casa dos Schindlers, e a Condessa de Carnide prontamente cedeu o seu automóvel. Nesta altura já Coutinho sabia que encontraria lá muito pouca tropa e pensava trazê-la para Sintra a reforçar a Guarda das Rainhas que na verdade era muito fraca. Falei lá com o João Franco que achei muito pouco confiado e pouco entusiasmado também com a defesa das instituições. Como se julgasse naquele momento que a situação em Sintra se poderia tornar perigosa para as rainhas e pessoas do Paço, não acompanhei a Mafra o João Coutinho e preferi ficar no sítio que julguei mais perigoso indo em meu lugar meu filho José, que encontrámos fardado, tendo-se ido apresentar à autoridade militar. O José frequentava então o último ano da escola do exército no curso de Engenharia Civil. Afinal fora encontrar em Mafra El-rei e resolveram lá, irem as rainhas para Mafra com a Guarda que estava em Sintra para todos juntos irem caminhando para o Norte até encontrarem em força suficiente para resistir. Foram estas as notícias que os dois trouxeram à noite, e assim se fez no dia seguinte. Nesta mesma noite falou João Coutinho com o presidente do conselho que achou tudo bem. Fomo-nos deitar satisfeitos porque as últimas notícias que deram do governo para a Pena foram que a revolução estava sufocada. De manhã porém quando me vestia soube que a república estava proclamada em Lisboa e o João Coutinho mandara-me chamar para conversarmos. Isto fez com que não chegasse a tempo para me despedir da Rainha, encontrando no caminho a família Figueiró que vinha refugiar-se para minha casa menos a condessa que tinha seguido com a Rainha. Tinha encontrado antes o ministro de França Saint-René de Taillandier que me disse augurar tão mal para Portugal do advento de semelhante República, tanto ele como a mulher e filhas foram óptimos para nós monárquicos nesta ocasião.





Em minha casa reuniam todos os que ficaram em Sintra e ali passamos dias bem tristes. Foi em minha casa depois de jantar no próprio dia em que El-rei e as rainhas embarcaram e que pela primeira vez se falou em contra-revolução. E eu logo declarei ao João Coutinho que contassem para isso comigo e com os meus dois filhos. O Pedro estava nesta ocasião de perninha [muleta] por causa de uma canelada e não podia sair de casa. Tratei logo que ele desse a sua demissão da escola onde frequentava o curso de cavalaria. Nessa ocasião tive uma conversa muito curiosa com o comandante da Escola, General Morais Sarmento e que foi mais uma prova da fraqueza do ânimo geral e da desorientação de aqueles que mais deviam dar o exemplo.(...)"

 



Excerto do manuscrito de meu bisavô João Maria da Piedade de Lancastre e Távora "Apontamentos sobre minha saída do Partido Miguelista" de 1917

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