sábado, 24 de julho de 2021

Casamento



"As crianças que crescem num casamento sólido são cada vez mais uma minoria — a minoria privilegiada. Seja ela negra, hispânica, asiática ou branca, uma criança faz parte da minoria privilegia­da se viver numa casa sem divórcio. É esta a grande clivagem, meus amigos: o casamento. Não é o género, não é a raça, não é a orientação sexual, nem sequer é a classe social. É o casamento. Quando se analisam as possibilidades de sucesso de uma criança, é claro que o fator fundamental é a classe social, e não o género ou raça. No entanto, se crescer numa família sólida, a criança pobre tem mais hipóteses de ascender pelo estudo. Tudo se torna mais difícil no contexto do divórcio e sobretudo no contexto de uma marca social do Ocidente do século XXI: a fuga do pai. Os homens, sobretudo negros, brancos e hispânicos, tendem a fugir das suas responsabilidades — o exato oposto do homem asiático (indiano, coreano, chinês), que permanece ancorado à família e à paternidade. Não por acaso, as crianças asiáticas estão a superar em todos os níveis as crianças negras e também as brancas pobres.


Para mais informação comparativa, leiam, por favor, na “Spectator”, uma peça de Edward Davies, “Forget race or class, marriage is the big social divide”. Aqui quero apenas salientar que este assunto, apesar de ser vital, é um tabu. Não se pode falar de casamento, porque é visto como um assunto ‘reacio­nário’. Não se pode falar de casamento, porque a agenda cool exige que se fale apenas de questões identitárias e de racismo e de machismo. Esses pontos são legítimos, sim, mas não são o nó górdio. Antes de ter a tez escura e de ser do sexo feminino, uma rapariga negra é, antes de tudo, pobre. E a sua pobreza é reforçada porque vive apenas com a mãe. Cerca de 70% das crianças negras nos EUA crescem sem o pai. É o inverso da miú­da asiática que tem de lidar com o mesmo contexto social: também é de uma minoria étnica, também é pobre. Só que esta rapariga asiática tem algo que a rapariga negra não tem: uma cultura familiar e, sim, conservadora, que mantém o pai preso ao casamento e à estabilidade que permite a ascensão social dos filhos.


O colapso da família é pior do que o desemprego. O emprego vai e vem. A família é a estrutura que suporta uma pessoa nos momentos de desemprego, dando-lhe uma sensação de segurança e, por arrasto, uma mente mais racional e calma. Portanto, tenhamos coragem para ver a evidência: antes de qualquer outro fator, o que atrasa a vida de uma rapariga negra não é o racismo ou o machismo, é o colapso do casamento, o divórcio, a fuga do pai às suas responsabilidades. E — repito — encontramos o mesmo fenómeno nos brancos pobres. A este respeito, sugiro que vejam um filme que retrata sem adjetivar a cultura de pobreza que se desenvolve nas mães solteiras brancas e pobres. Chama-se “The Florida Project”. É muito fácil criticar aquela mãe intempestiva, imoral ou amoral, sem noções básicas de educação. Mas ela e outras raparigas estão sozinhas com os filhos. Eles fugiram. A eterna adolescência dos homens é o grande problema da sociedade ocidental, é a causa da nossa decadência. “É só meninos”, como diz o meu velho."


Henrique Raposo aqui no Expresso




10 comentários:

  1. sem dúvida. curioso é ver que ninguém liga a baixa taxa de natalidade à alta taxa de divorcialidade porque não lhes interessa ver a ligação.

    ResponderEliminar
  2. valores cristãos
    kaputt

    ResponderEliminar

  3. Muito giro, mas isto é falar do contexto social americano.
    Não seria interessante termos dados sobre este assunto (e outros) em Portugal, e falarmos sobre esses dados, em vez de estarmos a falar sobre americanices?

    ResponderEliminar
  4. Por "casamento" não se deve entender casamento mesmo. Há muitas pessoas que vivem maritalmente com os seus filhos sem serem oficialmente casadas (nem pela Igreja nem pelo civil).

    ResponderEliminar

  5. ninguém liga a baixa taxa de natalidade à alta taxa de divorcialidade


    O nascimento de filhos é uma das principais causas de divórcio. Muitos jovens casais separam-se pouco depois de o primeiro filho nascer.

    ResponderEliminar

  6. "É o inverso da miúda asiática que tem de lidar com o mesmo contexto social: também é de uma minoria étnica, também é pobre."


    Falso. A minoria Asiática é o grupo racial* mais rico nos EUA.
    Mas não admira que aquele que marinam na desinformaçam do jornalismo Marxista como o Expresso não o saibam. Nunca é falado porque estraga a narrativa.

    Mesmo desalinhados como o Henrique Raposo não conseguem escapar.


    * já não se fala de altos e baixos, gordos e magros, quem nasce no primeiros meses do ano e quem nasce no últimos meses do ano e a influencia que a escola e desporto anualizado tem.

    ResponderEliminar
  7. Concordo em absoluto com o valor da família para o desenvolvimento dos futuros adultos. Discordo da fuga dos pais -- em geral são proibidos de ver os filhos sobretudo nos tribunais anglo saxonicos completados pela promoção de famílias de mães solteiras.

    ResponderEliminar
  8. lá está -: ) divorciam-se ao primeiro filho , ora , não se podendo divorciar  , teriam de fazer um esforço para se entenderem , como fizeram os meus avós , e acabariam por ter uns 3 ou 4.  além disso , dado a existência de divórcio , o casamento como projecto de vida deixou de fazer sentido , não vale a pena casar  , não acha?  e nenhuma mulher com 3 dedos de testa tem mais filhos do que aqueles que poderá  educar sozinha , normalmente , unzinho.

    ResponderEliminar
  9. Perdão, valores universais.

    ResponderEliminar
  10. Casamento é um sacramento extremamente complexo devido ao seu grau de dificuldade. Casamentos infelizes não são de agora. 
    Pergunto-me se será melhor assim com divórcio fácil ou se continuar como antes infelizes mas casados?
    Os filhos servem de armas de arremesso e privados de uma felicidade que lhes é retirada pelos próprios pais quer pelos pais casados e infelizes, quer pelos pais separados e fragilizados.
    Dá pano para mangas....

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...