sábado, 20 de junho de 2020

Flores de estufa

As cidades do Ocidente, as urbes dos privilegiados do #ficaremcasa e do consequente #queselixemospobres, as cidadelas dos ativistas de classe média-alta que exploram economicamente o negro pobre para depois fazerem manifs contra o racismo que aliviam a má consciência de classe (os privilégios são de classe, não de raça), enfim, a elite urbanita é alegadamente ecologista. Esta é, porém, uma ecologia postiça.


A elite “ambientalista” não sabe lidar com a natureza, não sabe articular a história humana com a história natural; não defende a natureza tal como ela é, defende uma romantização da natureza feita por pessoas que só sabem viver na bolha protegida da cidade. Sim, o ambientalismo chique e urbanista é a maior negação da natureza e da história natural. Este paradoxo é visível no animalismo e na diabolização da dieta com carne. Caçar faz parte da natureza. Para enorme surpresa de muitas pessoas, os cães e gatos não podem ser vegetarianos. E um bebé humano alimentado de forma vegetariana corre sérios riscos. A dieta vegan é em si mesmo a negação do ciclo da vida, é uma ficção humana só possível nas cidades abastecidas pelo capitalismo. Este desrespeito pela lógica da natureza ficou de novo visível no embate com a covid-19. É absolutamente chocante o conjunto de pessoas que acha que é mesmo possível #vencerovírus. Ou seja, milhões e milhões de ocidentais acreditam que o #ficaremcasa mata o vírus, como se ele pudesse desaparecer, como se fosse possível transformar a curva numa reta, como se fosse possível colocar a história humana (isto é, as cidades) numa bolha a-histórica sem contacto com a história natural. É por isso que estas pessoas, que dizem que são científicas porque seguem a ciência do aquecimento global, diabolizam os virologistas e outros cientistas que contestam o radicalismo do #ficaremcasa e a onda de pânico irracional e desproporcionado em relação a um vírus historicamente bonzinho. Se esta for mesmo a nossa epidemia, então somos mesmo uma geração afortunada.


O respeito pela ciência não existe nas nossas cidades avançadas e modernas. Estes “modernos” só seguem a ciência quando ela confirma os seus preconceitos, medos e modas. Este viés é de novo evidente na questão dos fogos. Reparem nas semelhanças entre a narrativa “vencer o vírus” e a narrativa “zero incêndios”. Como dizem os especialistas, o fogo faz parte da natureza, tal como os vírus. Um fogo na cidade é uma ameaça existencial ao universo humano, mas um fogo na natureza é muitas vezes um reinício desejado pela própria natureza. Da mesma forma que é impossível travarmos o vírus até termos imunidade de grupo, é impossível reduzirmos os fogos a zero, porque o fogo faz parte da natureza. Se a prioridade exequível perante o vírus só pode ser a proteção do grupo de risco e não a anulação bélica do vírus, a prioridade perante o fogo é a proteção das populações e não a fantasia sem fogos. O #portugalsemfogos é tão anticientífico como o #vencerovírus. Se os políticos do centro não conseguem assumir isto com medo dos fogos das redes sociais, então podem entregar já as chaves aos populistas que prosperam neste fogo da emoção fácil.

 

Henrique Raposo, hoje no Expresso

3 comentários:

  1. Caro Senhor
    Não leio o expresso ( para informação só leio este, e mais meia d´´uzia de blogs, o Economist, e Spectator), e perdi esse excelente artigo de H Raposo.
    Fez-me lembrar um trecho de "diário de um pároco de Aldeia - G Bernanos), em que é reconhecida a inutilidade de exterminar o mal( ali representado pela sujidade): basta combatê-lo.


    Cumprimentos


    Vasco Silveira

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  2. Henrique Raposo escreveu um bom texto. Coisa que não é habitual no seu dia-a-dia. Creio que se enganou em algo.
    Mas é um bom texto. E de «alerta».

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  3. Texto miserável. Tristeza.

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