sábado, 2 de dezembro de 2017

Outra vez os transportes públicos e a hipocrisia da actual maioria

Durante muitos anos as empresas de transportes públicos do Estado contribuíram magnanimamente para o desequilíbrio das contas públicas, quer por questões internas (tinham prejuízos estratosféricos que depois resolviam com endividamento à altura), quer por questões externas (estavam fora do perímetro do défice e portanto era fácil empurrar para lá despesas que na verdade caberia ao Estado fazer).


Com a troica a situação mudou porque foi imposto um equilíbrio operacional, para depois se ir resolvendo a descapitalização que em grande parte resultava da combinação de défices operacionais enormes com a penúria do accionista.


O equilíbrio operacional das empresas fez-se por aumento de preços dos bilhetes, por redução dos rendimentos dos trabalhadores, por redução de serviços deficitários com pouco ou nenhum ganho social (as exemplares reposições de circulação de comboios, impostas por autarcas que assumiam compromissos financeiros com a CP, que depois não cumpriam, para ter finalmente comboios a circular cheios de ausentes, talvez seja o mais evidente), por aumento de eficiência, enfim, um conjunto muito, muito relevante de medidas duras, que conduziram a uma elevadíssima conflitualidade social (e legal), que dificultou ainda mais o processo, mas permitiriam, a prazo, empresas mais eficientes a prestar efectivo serviço público, a custos razoáveis para os contribuintes.


O equilíbrio financeiro fez-se (mais ou menos) e isso tornou possível começar a concessionar serviços classicamente controlados pelos sindicatos do PC (na verdade as concessões a privados nunca levantaram problemas de maior, por exemplo, no metro do Porto, quando não chocaram de frente com uma das bases de influência social do PC).


O PC (sem surpresa), o BE (sem inteligência), o PS (sem responsabilidade) e a comunicação social (sem vergonha) passaram o tempo todo a boicotar todo este processo essencial para o reequilíbrio financeiro do país (estou mesmo convencido de que um programa de capitalização destes empresas semelhante, nos objectivos, ao que foi feito para a banca teria sido muito útil no memorando de entendimento) com os argumentos, falsos, de que a diminuição de passageiros resultava dos aumentos de preços dos transportes (a tendência para essa diminuição era anterior ao aumento de preços e o seu acentuar no tempo da troica decorria essencialmente do aumento de desemprego) e de que apenas o Estado poderia prestar um bom serviço de transportes públicos a preços razoáveis (negando dezenas de anos de gestão estatal desastrosa e omitindo as centenas de exemplos no mundo em que assim não é).


Por isso o actual governo pagou imediatamente a factura ao PC mal chegou, anulando as concessões (a forma mais inteligente de trazer capital a estas empresas porque em grande parte era investimento externo e não pesava aos ombros de um Estado falido) e falando, falando, falando em amanhãs que iriam cantar na gestão dos transportes públicos.


Aparentemente estamos na altura de descer à realidade:


"José Mendes defende que não se pode ignorar o agravamento da fatura dos operadores, nomeadamente com combustíveis e recursos humanos, que são os dois principais custos do setor.


...


Nos últimos dois anos as empresas públicas de transportes tiveram de suportar os encargos resultantes da reposição dos cortes salariais, mas também dos complementos de reforma que foram cortados pelo anterior Executivo. O secretário de Estado defende ainda a necessidade de libertar recursos para o investimento, destacando a renovação da frota de autocarros com a compra de 510 veículos a gás natural."


Resumindo, as empresas, depois de equilibradas operacionalmente pelo anterior governo, depois de terem começado processos de capitalização através da transformação de dívida em capital, voltam agora à gestão teleguiada pelo Partido Comunista, isto é, tendo como primeira prioridade o rendimento dos trabalhadores e que se lixe o investimento, o serviço público e equilíbrio financeiro.


Para os ricos isto é desagradável, porque terão de pagar mais impostos, para a economia isto é penoso, porque temos uma sociedade menos eficiente e menos equilibrada.


Para os pobres isto é dramático, porque esses têm muito menos hipóteses de se defender das tropelias do Estado: pagam mais em impostos, pagam mais em custos de transporte e são mais mal servidos em mobilidade por falta de dinheiro e investimento público.


E ainda dizem que isto é uma maioria de esquerda.

2 comentários:

  1. Assino por baixo.
    António Cabral

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  2. Mais tarde ou mais cedo vamos ser a venezuela da Europa e vou raciocinar como o Costa: como quando acontecer não vou estar cá para pagar, que se lixe.

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