quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O que muitos jornalistas gostam é do pugilato

Titula o I, em grandiosa manchete "Costa prefere comprar guerra com BE do que com Marcelo".


Vamos saltar a demonstração da falta de qualidade da escrita de um jornal cuja manchete adopta o vulgar, mas errado, "prefere ... do que" em vez do correcto, e bem mais elegante "prefere ... a".


O Jornal I resume uma discussão complexa sobre PPP na saúde a uma mera escolha das guerras que António Costa e os seus apoios querem ou não querem comprar.


Vantagens e desvantagens, quais as melhores opções de políticas públicas, quais os custos, quais os resultados, tudo isso é irrelevante, o que interessa é o pugilato. Não passa sequer pela cabeça do jornal que o primeiro ministro (este ou outro qualquer) simplesmente avalie a informação existente, pondere prós e contras, e faça as opções que, na sua opinião, melhor defendem o bem comum.


Já foi assim com os contratos de associação no ensino (uma forma de PPP não formal, aliás com resultados bem mais evidentemente bons que na saúde).


Eu sei que com o precedente no ensino é natural que se pense que António Costa se está nas tintas para o bem comum e completamente focado nos precários equilíbrios que lhe garantem o cargo. Essa é, aliás, a minha convicção. Mas a minha convicção, tal como a convicção do jornalista que escreve a peça e a manchete, são irrelevantes, não devem entrar na avaliação profissional que o jornalista faz das opções de política pública em debate.


Razão tem Adolfo Mesquita Nunes: qual é o incentivo que os jornais dão a quem queira simplesmente discutir e propor políticas sérias, certas ou erradas caberá ao eleitorado avaliar, e fundamentadas na melhor informação existente?

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