Há pouco mais de um mês propuz a um jornal que publicasse este texto. Não o tendo feito, publico-o eu aqui:
Excelentíssimo Senhor Primeiro Ministro,
Dizem-me que terá ficado espantado por ter feito a reforma da protecção civil que permitia a reforma da floresta e, afinal, essa reforma da floresta não foi feita.
Esqueçamos toda a discussão envolvente para nos concentrarmos num ponto:
a ideia do Portugal sem fogos, seguramente uma ideia em que tem responsabilidades e que foi a base da tal reforma da protecção civil, uma ideia apoiada por todos os governos, independentemente dos partidos que os constituem ou os apoiam.
O país está confrontado com uma escolha:
a) mantém a doutrina de que o fogo é um inimigo que se pode vencer, investe na supressão do fogo, adopta a ideia de que todos os grandes fogos começam por ser pequenos, devendo o dispositivo de combate ser todo desenhado para matar à nascença qualquer fogo;
b) decide finalmente abandonar esta doutrina, que está na base da tal reforma que fez e dos resultados que conhecemos.
O que lhe peço é que esqueça por favor a sua reforma da protecção civil e estude o paradoxo do fogo, a ideia na base da qual Francisco Rego coordenou um grande projecto de investigação sobre fogos, com financiamento comunitário e envolvendo muitos países e investigadores.
Em traços largos, o paradoxo do fogo consiste no facto de que a supressão do fogo, por favorecer a acumulação de combustíveis, e de forma tanto mais extensa quanto mais eficaz for, conduzir uma tragédia brutal no dia em que um fogo fugir do controlo.
E haverá sempre um dia em que um fogo foge do controlo.
A evolução da paisagem que hoje temos favorece a acumulação de combustíveis. Esse é ponto em que o que sei se cruza com o fogo, é a razão pela qual escrevo sobre o assunto.
O essencial da opção que tem na mão é, portanto, simples de enunciar: ou mantém o modelo de supressão do fogo, e será responsável pelas tragédias provocadas pelos fogos selvagens ou, finalmente, tem a coragem de mudar a doutrina de gestão do fogo, encarando-o como um elemento natural com que temos de contar, como a chuva, o vento ou a terra.
Os homens de Estado que valem a pena são os que sabem reconhecer os seus erros e fazer melhor da segunda vez.
Por favor, não deixe passar esta segunda oportunidade que a vida lhe dá para contribuir positivamente para acabar com a ideia estúpida, por impossível e por ineficaz, do Portugal sem fogos e reconheça agora que ao fogo também se poderia aplicar a metáfora de Brecht sobre os rios, falando da sua violência, sim, mas reconhecendo a violência das margens que os oprimem.
Ou construímos paisagens em que sabemos gerir o fogo como queremos, quando queremos, da forma que queremos, ou teimosamente perseguimos a quimera da supressão do fogo que temos mantido, com o resultado recorrente que todos conhecemos: é o fogo, e não nós, quem decide por onde anda, quando anda e da forma que anda.
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