Um jornal de referência de um País que não quer ter filhos entrega a tarefa de escrever um artigo sobe a natalidade à Fernanda Câncio. Assim, o Diário de Notícias presenteou ontem os seus leitores com "Uma barragem contra o Pacífico" (pretensioso título aproveitado do romance de Marguerite Duras) um longo artigo sobre as escolhas da maternidade e a crise demográfica, exactamente da autoria da conhecida jornalista. É assim a modos que encarregar José Pinto-Coelho, presidente do PNR, para escrever uma peça sobre o 25 de Abril quarenta anos depois.
Como seria de esperar, da questão base, de mais, menos ou nenhum filho, o texto descamba para uma minuciosa contabilidade de deves e haveres relativos à discriminação sobre a mulher e igualdade de género, sem esquecer a opressão da culpa que se abate sobre as cerca de 8% das mulheres que não querem ter filhos. E a crise do governo Passos Coelho, sempre implícita, pois claro.
Ora como é evidente a maternidade constitui em si um atentado à igualdade de género. E como eu já referi por diversas ocasiões sou da opinião que o "inverno demográfico" em Portugal apenas pode ser invertido conjugando uma série de políticas de justiça fiscal que gratifiquem os casais com mais filhos com uma grande campanha comunicacional que ajude a relevar os aspectos positivos da maternidade e os arquétipos culturais que propiciam famílias grandes. Uma perspectiva antagónica aos paradigmas da modernidade que nos trouxeram até aqui.
E depois há a opressão da culpa das mulheres que não querem ter filhos – um bicho-de-sete-cabeças que de facto não abona em nada a natalidade. Uma questão do foro exclusivo do indivíduo: a culpa só se resolve mesmo com o perdão... e os complexos de culpa com um psicólogo.
Mas assim não vamos lá.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Assim não vamos lá
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A pobre ruína do Diário de Notícias ainda é referência de alguma coisa?
ResponderEliminarÉ difícil a escolha do jornal a comprar por estes dias, mais ainda ao Domingo, José.
ResponderEliminarE depois gosto de ler o Alberto Gonçalves.
Abraço
Por estes dias, num jornal da noite, passaram duas reportagens de cantinas escolares que neste período de férias escolares continuam o fornecimento de refeições aos seus alunos de famílias mais carenciadas. Uma reportagem de Matosinhos em que falou o seu vereador da educação, se não erro, e de forma honesta abordou o assunto, depois em Sintra, falou o seu engalanado edil, que só debitou patacoadas políticas que a ninguém interessam. Mas o que me chamou a atenção foi uma situação que vi na reportagem da escola de Matosinhos, onde também fornecem almoços aos pais das crianças mais carenciadas. Um mãe de 6 filhos, que "não trabalha" (um trabalho remunerado, como é óbvio. O seu marido trabalha), uma mulher relativamente nova, com um sorriso verdadeiramente encantador, que (não informaram) certamente acompanhava os seus filhos à mesa. Ela não disse nada, mas aquele sorriso foi para mim uma séria lição por uma mãe que assumindo plenamente a maternidade, tem um trabalho a tempo inteiro e de quem eu, como membro de uma comunidade e da sociedade em geral, sou um assumido devedor. A uma mãe que cuida de uma família numerosa de forma naturalmente competente ser-lhe-ia devido um salário mensal, pela sociedade que ela ajuda a construir, dia a dia, neste tempo, em que as famílias têm cada vez menos filhos. Ser mãe de uma família numerosa é uma arte. Nota: Sou membro de uma família de 6 irmãos, mas só tenho 2 filhos.
ResponderEliminarUm coração grande e oxigenado, o dessa Mãe, Victor Augusto. O pior é quando o “eu” se torna o mais importante na existência, os nossos corações minguam até ao tamanho do umbigo. Podem até cair e perderem-se lá dentro na escuridão para sempre.
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