sábado, 19 de fevereiro de 2011

Sem a casa que pusemos no lugar da noite

 


O meu menino resiste ao sono, como se fora um cálice de morte; tem medo do escuro. Daquele momento em que se lhe silencia a alma entre a última brincadeira e o sono profundo. Conheço bem esse território de ninguém, que de tão silencioso se nos ouvem as entranhas, num ritmo batido pelo coração. Onde mora um ensurdecedor silêncio que amplifica o medo de não se voltar do fundo do fundo, onde se estabeleceram demónios dançantes, auroras boreais, aterradores animais: como num infindável castigo de existir, solto no frio do eterno espaço.


O meu menino tem medo da noite e implora-me mais uma história, mais uma canção. Agarra-me a mão com a sua mãozinha sôfrega, para que eu o ampare na descida à profundeza do vazio sem memórias, risos nem afagos, como um quarto escuro sem frestas, onde do nada se desenham os monstros pavorosos, de não ter colo nem pertença.


Estremunhado a meio da noite escura, qual heróico cavaleiro do apocalipse, o meu menino salta da cama, e com a bravura dos insanos atravessa os corredores das sombras, e as portas dos murmúrios. Num salto aninha-se ao meu lado de olhos esbugalhados, exausto da demente batalha, como quem privou com a morte, nos rumores do vazio. A salvo de volta a casa, o meu amor.

3 comentários:

  1. Belíssima descrição dos nossos filhos e de nós próprios.

    ResponderEliminar
  2. Obrigado pelas tuas simpáticas palavras, Rui. Reconheço o risco desta escrita intimista num blogue como o Corta-fitas, mas parece-me que continua a fazer sentido. 
    Bom Domingo.

    ResponderEliminar
  3. Gostei imenso, João. Ainda hoje, adulta, e já sem medo do escuro, sinto, por vezes, muita falta dessa inexpugnável fortaleza que era a cama dos meus Pais. :-)

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...