Para preencher tempo, vi o filme "os três da vida airada", na RTP Memória.
É o que se espera de um filme de 1952, de Perdigão Queiroga, manifestamente apologético para o regime, com uma evidente opção por mostrar a Lisboa que estava a nascer pela mão do Estado Novo, incluindo cenas no Parque Eduardo VII e entrada da Estufa Fria, Belém, Alvalade, muito Saldanha (em grande parte, passa-se no Monumental, que tinha sido inaugurado no ano anterior, sendo um dos actores principais Vasco Morgado, que o tinha alugado, parecendo-me que parte da intenção do filme era mesmo fazer propaganda das revistas que Vasco Morgado produzia para o Monumental) e o aeroporto de Lisboa (que tinha então dez anos e para onde os actores principais se dirigem de autocarro, para ir à esplanada que havia sobre a pista de aviação, sendo a coisa mais divertida do filme, para mim, o pedido que fazem ao criado de mesa: dois copos de ovomaltime com chantilly).
Nada disto me faria escrever um post, mas reparei que Manuel da Fonseca era um dos co-autores do guião, para além de ter escrito dos diálogos do filme.
Tive dúvidas de que fosse mesmo "o" Manuel da Fonseca, um dos grandes escritores neo-realistas portugueses e membro do Partido Comunista, de maneira que fui verificar e é mesmo.
Nada disto diminui o facto de Manuel da Fonseca ter estado preso (uns bons anos mais tarde), nem de existir censura (um dos maiores efeitos da existência de censura não é o impedimento a que se leiam coisas já escritas, é mesmo o efeito que tem naquilo que se escreve, é evidente que Manuel da Fonseca, pensasse o que pensasse do regime, e com certeza não pensava nada de favorável, poderia até pôr um dos actores a dizer que "isto está cada vez pior", mas fá-lo-ia sempre com a ambiguidade que a frase tem no filme, ninguém escreve para se opôr a uma censura, escreve-se para tornear a censura), mas o facto é que Manuel da Fonseca é co-autor do guião e escreve os diálogos do filme, e que o regime não viu nisso risco maior (com certeza que terá andado de lupa a ler os diálogos, antes do filme ser aprovado pela censura).
O que me interessa é mesmo fazer notar que o mundo não é a preto e branco.
Conheci Vasco Morgado, Laura Alves e o filho ( Vasquinho) da minha idade. Vi-o já há muitos anos o filho Vasco disse-me casado com uma inglesa.
ResponderEliminarFrequentei muito o Monumental. Tinha teatro, cinema e artistas famosos à época.
É um excelente exercício comparar o que se escrevia (livros, jornais, revistas) antes da censura, com a censura e no pós censura.
ResponderEliminarE o resultado é surpreendente
A propósito de coisas a preto e branco, alguém pode fazer o favor de explicar, tanto quanto possível em alto-contraste preto-branco o seguinte;
ResponderEliminarTendo a GNR sido criada para defender a República, não sei se dos Monárquicos ou dos Republicanos, não havendo desde há muito, ameaças sérias á integridade das Instituições, porque é que a dita não é simplesmente extinta, deixando de haver duplicações com a PSP ??
Obrigado antecipado se alguém souber a resposta e quiser partilhar
o mundo atual tem mais cores: vermelho, verde, cinzento ...
ResponderEliminartenho estado a seguir a campanha de 'marketing' político do PR.
ResponderEliminaro facto de Manuel da Fonseca ter estado preso (uns bons anos mais tarde)
Se calhar à época em que o filme foi feito a PIDE não fazia ideia que Manuel da Fonseca tivesse ideias subversivas. Só uns bons anos mais tarde se terá apercebido disso.
Deve ser isso, o regime não sabia da existência de Cerromaior, apesar de ter sido publicado quase dez anos antes do filme de que fala o post
ResponderEliminarA este respeito, há um verdadeiro clássico: a colecção de crónicas de Vera Lagoa, "Revolucionários que eu conheci", acerca de várias figuras da vanguarda cultural do Portugal a caminho do socialismo que já eram figuras da vanguarda cultural do Portugal da longa noite fascista. Vera Lagoa essa que, por causa dessas e de outras raramente figura nas homenagens às "mulheres empoderadas" que Públicos e Expressos regularmente publicam, apesar de ser, provavelmente, a mulher mais "empoderada" do último século português.
ResponderEliminarEssencial haver duas policias para ser mais difícil haver golpes de estado.
ResponderEliminarEste saber deveria ser corrente desde a Guarda Pretoriana há quase 2 milénios.
Em 1974 viram-se tramados para encontrar "fascistas" para "sanear" da comunicação social, tiveram de arranjar meia dúzia de pessoas honestas para servir de exemplo que isso não compensava. O resto era tudo "do contra".
ResponderEliminarSe a razão é essa e partindo do princípio que falamos de gente de bem, não se vê porque os homens dessas corporações não se demitem em bloco.
ResponderEliminarAinda gostaria de saber que segredos guardarão os ficheiros da PIDE que foram convenientemente enviados para Moscovo e ainda lá estão.
ResponderEliminarUma das críticas que se fazem habitualmente ao Estado Novo dizem respeito à forma como, nos meios rurais, as crianças eram sujeitas a tarefas domésticas e agrícolas duríssimas, logo pela manhã, antes da ida para a escola.
ResponderEliminarÉ indesmentível que isso acontecia, mas ninguém tem a coragem de dizer que o mesmo se passava em todas as famílias das zonas rurais, nas décadas de 50-60, em França. Transcrevo uma passagem dum livro que estou a ler da Valérie Perrin, onde se descrve o quotidiano de uma miúda de 10-11 anos:
«Collette só teme uma coisa: que Georgette, a mãe de ambos, esteja novamente grávida. Vigia-lhe o ventre como se fosse leite ao lume. Até porque ela já falta muito à escola por ter de ajudar na quinta; com um terceiro rebento, então, acabariam por retirá-la de lá definitivamente."Uma criada, uma besta de carga, não passo disso".
(...)
«...a mãe encolhe os ombros e responde: "Não tens outra coisa para fazer? Não é com as tuas perguntas que os animais e nós todos vamos comer".
O feno no Verão, as sacas de batatas para levar para a cave antes do Inverno, ajudar o pai a empurrar a charrua puxada pelo cavalo, o Bijou. Fica-se com uma dor nas costas dos diabos. Pôr os feijões nos frascos, regar as alfaces, binar, plantar, mondar, revolver, ir uscar os animais, umas cinco dezenas de cordeiros e ovelhas, ajudar à ordenha. E tudo isso antes e depois das aulas. à noite, como a mãe está cansada, é preciso "ir deitar o gaiato". Por isso é Collette que leva jean à cama, que o vela até ele adormecer»
(in "Querida Tia")
(cont.) Para concluir:
ResponderEliminarEscusado será dizer que aquilo que Collette mais temia, aconteceu quando ela andava pelos seus 12-13 anos de idade. E assim teve de ir trabalhar para aprender uma profissão. O seu magro salário de aprendiz, quase simbólico, era imediatamente "confiscado" pela mãe,uma vez que havia mais uma boca em casa.
Tudo isto para dizer que a realidade era idêntica em ambos os países.
. Assim como noutros aspectos do quotidiano no que respeita à vida escolar em França (e noutros países da Europa), nomeadamente na separação por género, quer das salas de aula, quer do recreio dividido por um muro ou gradeamento nos estabelecimentos de ensino. E espanto dos espantos! quer das matérias diferenciadas para rapazes e raparigas, (embora houvesse um tronco comum para ambos). Por exemplo, as meninas tinham de aprender a gestão doméstica, a costurar, cozinhar, puericultura,etc.
Impõem-se uma pergunta: Será que os franceses tinham em mente _ como à boa maneira salazarista! _ fazer das meninas futuras «boas esposas, mães e donas de casa submissas»? :)
ResponderEliminarEntão tem todos tem de se demitir - até os deputados- afinal os regimes mais liberais são desenhados com separação de poderes. Afinal separação de poderes pode ser um entrave a fazer o bem. Porque será?
Voce não desenha instituições para "pessoas de bem" voce desenha instituições até onde pessoas más têm interesse em fazer bem.
As grandes matanças foram feitas em instituições desenhadas para pessoas de bem. A URSS, a Alemanha Nazi desenharam os seus Estados para terem enorme poder para pessoas de bem não terem entraves a fazerem o bem.
Desde o início da História que é assim.
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