domingo, 5 de abril de 2026

Cara Irene Pimentel

Não há, nem no meu texto, nem no texto da SIC, qualquer atribuição do argumento "o regime deposto pelo 25 de Abril tinha quase 4.400 prisioneiros políticos, 127 dos quais em Portugal continental e os restantes nas colónias, à data da Revolução" à senhora professora Irene Pimentel, embora eu perceba a sua interpretação, resultante de uma leitura apressada.


O que o texto diz é que este tipo de argumentos (ou o seu, de que se estima entre 30 a 40 mil presos políticos durante todo o Estado Novo, e Ditadura Nacional precedente) não é rebatido por si, exactamente pela sua opção de usar a história para condenar o regime, em vez de entender o passado.


Só por estes dias, o regime cubano terá libertado mais de dois mil presos políticos, e o regime venezuelano, acima de 600 (e estão longe de terem libertado todos os presos políticos dos dois regimes), o que permite ter um contexto útil para avaliar o facto de haver menos de 150 presos políticos no dia 24 de Abril de 1974, ou uma média de cerca de 800 presos políticos por ano, se contarmos 40 mil presos em 48 anos (dependendo das fontes, uma média anual comparável à do PREC, se usarmos entre 1000 a 2000 presos políticos em dois anos).


O Estado Novo era uma ditadura ilegítima, frequentemente sem respeito pelo Estado de Direito, que prendia, torturava, exilava ou matava opositores políticos, mas não é irrelevante uma ditadura que mantinha menos de 150 presos, numa população de dez milhões de pessoas, ou uma ditadura que mantém milhares presos para populações semelhantes.


A sua opção de ignorar completamente esta contextualização, bem como de torcer os factos, como neste caso que comentei há tempos, bem como a recusa total em olhar para os cinquenta anos posteriores ao 25 de Abril de 1974 incluindo também as suas zonas de sombra, é que é o problema sobre o qual acho que poderemos conversar tranquilamente, sem ceder ao modelo de discussã de André Ventura.


Infelizmente, como aliás aconteceu no seu comentário ao post em que a critiquei, não me parece que a Irene Pimentel esteja interessada em discussões racionais, estando, aparentemente, particularmente preocupada com o seu umbigo, razão pela qual diz que percebo a minha inveja por ter sido Irene Pimentel, e não eu, a ser entrevistada a propósito do número retórico de André Ventura.


É um tipo de comentário evidentemente inútil para outra coisa que não seja pretender dar caneladas aos adversários, actividade que me parece um bocado infantil.


Eu não sou historiador, por maioria de razão, não sou historiador do Estado Novo (não é o facto de ter feito uma tese de doutoramente sobre a evolução da paisagem rural portuguesa ao longo do século XX, que abarca todo o Estado Novo, que altera o facto de eu não ser historiador) e não faria o menor sentido alguém me entrevistar sobre essa matéria, da qual sei muito menos que Irene Pimentel, portanto não vejo a que propósito eu teria inveja dos jornalistas entrevistarem quem sabe do assunto, já me incomoda mais entrevistarem apenas uma pessoa, com um ponto de vista mais de conhecido e que jamais seria capaz de fazer um comentério equilibrado sobre o Estado Novo ou sobre as consequências do 25 de Abril.


Tenho a certeza absoluta que, mesmo sendo historiadora dessa época, jamais Irene Pimentel faria notar que se é verdade que o 25 de Abril dá origem à democracia portuguesa, não é menos verdade que, em grande parte, o faz à custa da criação das condições para a ditadura cabo-verdiana (felizmente entretanto evoluída para uma democracia razoável), a ditadura da Guiné (entretanto evoluída para um Estado falhado, não democrático), da ditadura de São Tomé, da ditadura angolana (entretanto sujeita a um processo de abertura, mas que ainda está longe de deixar de ser uma ditadura), da ditadura moçambicana (a que se aplica o comentário feito sobre a ditadura angolana) e da ocupação de Timor pela Indonésia.


Não é por Irene Pimentel não saber que isto é factual, é porque perante a interpretação racional e fundamentada do passado e a afirmação política da maldade absoluta anterior ao 25 de Abril, e bondade imaculada do regime pós 25 de Abril, Irene Pimentel escolhe a segunda opção.


O que mata, evidentemente, qualquer discussão racional sobre o nosso passado e as nossas responsabilidades, incluindo a responsabilidade dos militares de Abril no abandono dos seus camaradas de armas nas antigas colónias, sem protecção, sem opção no que respeita a nacionalidade e, em muitos casos, presos, torturados e executados pelos novos poderes a quem as forças armadas portuguesas entregaram esses países, sem qualquer consideração pela vontade dos povos que lá viviam.

14 comentários:

  1. Assertivo e factual, como habitual.
    Rima, e é verdade.
    Esperemos pelo contraditório, que como em qualquer argumentação anti hps, será baseado em ideologias subjectivas, ao invés de dados concretos e factos.

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  2. «onde há argumentos não há factos». o chamado jornalismo continua a ouvir somente a parte que lhe é favorável.
    no 25 de abril a tropa fandanga do MFA abandonou camaradas doutras etnias. entregou as colónias a ditadores ainda no poder. entregou o continente a uma nova ditadura de sinal contrário à anterior que prendeu e destruiu as empresas rentáveis. o nosso presente e futuro não são famosos a avaliar pelos discursos na AR na comemoração do 50 anos da imutável CRP e do desejo de progresso.

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  3. Reposta de grande nível a uma historiadora (?) militante. Infelizmente, Irene Pimentel, é um exemplo paradigmático do nível de indigência a que chegou a Academia em Portugal. Rigor científico? Procura de conhecimento? Não! Militância! Apenas militância! É de lamentar o dinheiro que se gasta com gente desta.

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  4. A criação de condições para o surgimento das ditaduras africanas era inevitável. Em toda a África surgiram ditaduras no seguimento da descolonização: Portugal não foi uma exceção. Os países descolonizados por Portugal tornaram-se ditaduras tal como os países descolonizados pela França, pela Inglaterra, etc.

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  5. A Irene Pimentel só tem a importância que lhe quiserem dar

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  6. A questão fundamental é que a maior parte das pessoas* que fizeram e contribuíram para o 25 de Abril, não queriam nem Liberdade nem Democracia Liberal . Queriam Ditaduras Populares.  
    Comunismo portanto.
    Por isso de uma Ditadura nasceram 6 e por graças da geografia e logística não foram 7.


    *Estou a incluir os Africanos que na altura eram Portugueses. O 25 de Abril não foi só cá, embora alguns pretendam diferente para não terem de responder ideologicamente pelo que aconteceu lá.


    È comparar onde está Botswana o país Africano que na descolonização rejeitou as ideias da esquerda Marxista e onde está Moçambique ali ao lado.


    Um exercício interessante é imaginar se a Perestroika tivesse sido 10 anos antes qual seria o resultado.

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  7. Caro Henrique.
    Eu sou historiador encartado pala Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, finais dos anos 80, anos 90 e subscrevo a sua resposta, está "post".
    Apanhei muita militância, um João Medina, por exemplo, que defendia que A Vida é Bela, filme de1997 era um branqueamento do nazismo e excelentes professores como Jorge Borges de Macedo ou José Manuel Tengarrinha para citar dois nomes de "extremos" mas que sabiam ensinar (ensinar a pensar, principalmente) cujas opiniões políticas eram conhecidas mas não determinavam a honestidade intelectual.
    Eram, foram professores estimulantes e honestos, infelizmente, nem todas as professoras universitárias são assim.

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  8. "Incapaz de interpretação racional e fundamentada do passado", por ser tendenciosa e facciosa. Ora isso é pura  desonestidade intelectual. Será isto um(a)  historiador(a)?

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  9. Num jornal onde, no espaço de dias, um António Rodrigues escreve "regresso" entre aspas quando se refere à criação do Estado de Israel (da qual se pode discordar, mas não pôr em causa o facto histórico de que se trata do regresso dos Judeus ao território de onde foram expulsos), onde uma Alexandra Lucas Coelho escreve, no Sábado de Aleluia, um artigo com o título "Amanhã, em Jerusalém, enforcamos Cristo" (que não pôs bombas em autocarros, nem metralhou miúdos, seja o que se pensa acerca da bondade dos motivos dos terroristas palestinianos), e onde um Pedro Garcias extrai do facto de haver uma peça onde se insulta e não deixa falar um actor, que a mesma devia ser exibida em todas as escolas em nome da "educação cívica e da democracia" (antes de discorrer sobre o vinho XPTO e a lampreia que degustou enquanto "malhava nos direitolas"), creio que os juízos da Dr.ª Irene Pimentel (que é uma historiador bem mais idónea do que sugerem os seus textos em jornais) são uma preocupação menor (até porque, finalmente, já chegou à conclusão de que a URSS sempre acertou com Hitler a invasão da Polónia).

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  10. Apenas acrescento que o abandono dos camaradas não foi apenas de africanos. Em Timor ficaram 23 militares abandonados, incluindo o capitão que comandou a companhia de Santarém transportada na coluna de Salgueiro Maia, e o alferes Palma Carlos, sobrinho do primeiro-ministro após 25  o de Abril.
    Capturados em 1975 após a fuga para e de Ataúro, só seriam libertados em 1976 por iniciativa particular pois nem governo nem MFA (excepção para o CEMFA general graduado Morais e Silva) por eles se interessaram.

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  11. Uma vulgar licenciada em História , auto-proclamando-se historiadora . Um sub-produto esquerdista, promovido e publicitado " a charanga e pandeireta" por tudo quanto é esgoto televisivo ..
    Juromenha

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  12. E continuam as falsidades. 


    Vá ler sobre o Botswana.

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