segunda-feira, 30 de março de 2026

A formação política

Passou-me pelos olhos (não fui ler) uma notícia que dizia que José Luís Carneiro tinha ido buscar vários autarcas para o principal órgão político do PS entre congressos.


Dei por mim, talvez também pelas histórias de Isaltino, mas penso que sobretudo pela ala autárquica do actual governo (a que me parece ter uma quantidade desproporcional de maus governantes) a pensar na formação política dos actuais partidos.


Do que me parece vendo de fora, há duas escolas principais de formação de políticos profissionais, as juventudes partidárias (de onde brotam génios políticos como António Costa, sempre considerado um político de primeira água, embora nunca se explique muito bem os critérios para essa apreciação) e as autarquias.


São duas escolas bem diferentes, os primeiros especializam-se na pequena política interna do partido, os segundos precisam de ser eleitos por eleitorados heterogéneos, portanto dependem mais de si que do confuso mundo de alianças entre diferentes linhas políticas internas que coexistem nos partidos.


Isso talvez explique parte das dificuldades do Chega com os seus eleitos autárquicos, mais habituados à independência que ao seguimento de linhas de política definidas centralmente, que no Chega, por enquanto, são mais homogéneas que noutros partidos e acabam por representar uma camisa de forças mais apertada para os eleitos locais.


O que me interessa, no entanto, é que o que define um bom autarca, e um autarca que é sucessivamente eleito (as duas coisas não são a mesma, mas só um autarca cujo eleitorado avalia como bom (ou pelo menos, não mau suficiente para ter muitos anti-corpos) é sucessivamente reeleito) são determinantes para a formação política de muitos autarcas.


Eu sei que muita gente discorda da minha definição de bom autarca - o que tem as sarjetas a funcionar impecavelmente - mas seja qual for a definição de bom autarca que o eleitorado tem, é isso que o autarca aprende a fazer na sua formação para político de carreira, estar atento ao que as pessoas querem, ser suficientemente habilidoso para captar recursos de terceiros em quantidade suficiente, e aplicá-los no que quiser, desde que a parte visível dessa aplicação pareça responder ao que o eleitorado quer.


Para políticos formados nesta escola, abster-se na ONU na votação da absurda proposta do Gana sobre escravatura é normal, no sentido em que essa votação não tem, no imediato qualquer efeito prático e a probabilidade de criar anti-corpos com a votação correcta é incomparavelmente maior que a probabilidade de arranjar confusões por Portugal se abster, tal como quase todas as democracias representadas.


Pouco a pouco, os partidos acabam a ser o que resulta da escola de formação das jotas e da escola de formação autárquica, havendo cada vez menos espaço para quem simplesmente tem da política uma ideia mais ideológica, certa ou errada.


O actual governo é uma boa ilustração do que isso significa para o país: a ala do governo não autárquica, que tenta fazer coisas que pensa que são o que o país precisa (uns melhor, outros pior) e a ala autárquica que faz números de circo, fala de milhões para aqui e para ali e, na verdade, tanto se lhe dá que o exercício do poder seja mais ou menos útil para que o país fique melhor, desde que seja útil para se ganhar as próximas eleições.


Não tenho a certeza de para onde vão os partidos evoluir, mas se o peso autárquico continuar a aumentar, suspeito que não melhoramos grande coisa no que é fundamental, se envolver riscos políticos para a próxima eleição.

14 comentários:

  1. Pode dar como garantido que o "peso" autárquico será, mas de longe, o mais pesado. Aliás, com tendência crescente.


    Talvez se tivéssemos figuras políticas com um estatuto tipo Mário Soares o viés não fosse tão grande.


    Mas não temos

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  2. Nem práctico, nem prático.

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  3. Quanto à proposta do Gana, quanto muito top 5. Mas seria interessante aceitar a proposta, desde que os países africanos reconhecessem publicamente que os seus antepassados participaram activa e voluntariamente no processo.

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  4. abster-se na ONU na votação da absurda proposta do Gana sobre escravatura é normal


    É normal e acertado, isto é, correto.


    Portugal não deve hostilizar, desnecessariamente, a opinião de alguns PALOP que subscreveram essa proposta. Portanto, não deve votar contra. Tal como, obviamente, não deve votar a favor, porque a proposta é, de facto, a modos que absurda.


    Não devendo votar nem contra nem a favor, deve abster-se. Tal como, aliás, fizeram outros países com relevantes passados coloniais, como a França, o Reino Unido e a Espanha.

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  5. Excelente. A formação política do eleitor e a seleção da classe política. Como assinalou o PR da AR, Aguiar Branco, ao que chegamos?. Perdemos 50 anos. Como tentar ir selecionando a melhor classe política?. 
    -Ou entre idealistas (ou não) partidarizados a acotovelarem-se nas jotinhas a caminho do poder político?. 
    -Ou entre fura-vidas, bem ou mal intecionados e com calejada tarimba na administração local?.


    De ambas as origens há e haverá de tudo. Quer agregados em partidos de direita quer de esquerda. Só com tempo e sobretudo adequada depuração eleitoral se irá selecionando uma classe política.
        
    O actual sistema está correto ao promover eleições uninominais para a administração local. Mas a vigente prática de Eleições Legislativas só via partidos, não ajuda.

    Eleições uninominais, em círculos eleitorais correctos, para o poder Legislativo são essenciais. Seria uma AR a escolher o PM e não, como actualmente, o nada democrático inverso. Enfim tributar e assinar os cheques do Tesouro só com indiscutível representatividade, sujeita a um permanente sufrário nominal via respectivo círculo eleitoral.
    Eventualmente será necessária uma segunda Câmara Alta, um Senado, com 2 Senadores por Região devido às diversidade demográfica das regiões em Portugal. Será o indispensável contra-ponto perante a global Assembleia da República.

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  6. o poder autárquico, com raras exceções, não passa dum ''penduricalho''. desbaratam o dinheiro dos contribuintes. Carneiro escolheu uma autarca: a ''Incrível Almadense''.

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  7. A Proposta do Gana na ONU é um contrasenso e uma aberração.


    Abre um precedente que pode facilmente descambar para uma incrível balbúrdia, onde todos, potencialmente, julgariam todos.


    E ainda nem se começou a falar do que os Colonizadores deram, porque a História das Colonizações não foi só tirar;  Há a não esquecer, o muito que também foi dado 


    Aliás o que também não falta são casos de Colonização onde a Colónia só recebeu nunca lhe tendo sido nada pedido em troca.


    Parece-me que ainda o melhor é deixarem-se  de tretas e não mexerem no que está quieto.

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  8. E aqui temos a visão marxo-racista neo colonial..  
    Para esta visão do Luís Lavoura os PALOP não nos hostilizaram ao votarem uma declaração falsa, só a nossa resposta se for verdadeira é que é hostil.


    O "branco" continua a ser o responsável por tudo.
     

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  9. Obrigado, corrigi, é um erro que faço frequentemente

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  10. Obrigado pela pequenina visão paroquial que eu estava a tentar explicar: não se pode votar contra uma opinião pública, qualquer que ela seja, mesmo que essa opinião pública (cuja substância não se sabe como foi definida) esteja completamente errada.

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  11. Faltou mencionar uma grande fonte de recrutamento de pessoal político do "centrão" (incluindo até alguns que passaram do "centrão" para o "Chega"), bem como de pessoal para ocupar cargos públicos (na administração central e autárquica, na tropa, nas polícias e nos tribunais) e em empresas públicas, e da qual se fala tanto nas notícias como do suicídio, da "Marcha pela Vida" e da evolução da economia argentina. 

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  12. não se pode votar contra uma opinião pública


    Eu não mencionei "opinião pública" nenhuma. Falei da "opinião de alguns PALOP". Ou seja, a opinião estatal desses países.


    Claro que se pode votar contra as opiniões dos outros. Mas, se não fôr algo de muito importante, mais vale evitar fazê-lo.

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  13. Melhor, sendo assim, Portugal deve votar erradamente para não contrariar a opinião de ditaduras corruptas.
    Confesso que dificilmente conseguiria ilustrar melhor a estupidez da opção.

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