

Os dois bonecos acima trouxe-os da página do Paulo Fernandes e resultam de perguntas que o Paulo fez ao chatGPT.
O que me interessa fazer notar é a distância que vai disto aos inúmeros comentadores que se entretêm a explicar, à posteriori, o que deveria ter sido feito antes (ainda estou para perceber como estes comentadores, que tinham perfeita consciência do que ia suceder, dormiram sossegados nessa noite) e depois do que aconteceu.
Uns dizem que as cidades não podem ter árvores de grande porte, outros acham que o fundamental era fazer uma requisição civil (ainda não percebi como um papel, a requisição civil, desimpede estradas juncadas de troncos, mas é limitação minha, claro), outros acham que é o ordenamento do território (não sei se defendem que se devem planear cidades, vilas e aldeias em cima de plataformas com rodas para as desviar rapidamente de um fenómeno meteorológico cuja natureza e localização é impossível de prever com poucas horas de antecedência), de maneira geral concluindo que o governo teve uma gestão calamitosa (ainda não percebi se usam intencionalmente esta palavra como um trocadilho para serem mais interessantes) e que o fundamental é trocar de ministra da administração interna e correr com o primeiro ministro.
Nuno Palma passa a vida a repetir, com razão, que o país é tão, mas tão iliberal, que até o partido liberal que existe adopta práticas iliberais na sua gestão interna (e nem falo da campanha cesarista de Cotrim Figueiredo para a presidência da república, que parte do princípio manifestamente iliberal de que o fundamental é escolher as pessoas certas e não as regras institucionais que limitam o poder discricionário e não fundamentado dos indivíduos, por melhores que eles sejam).
O chatGPT, aparentemente, é menos iliberal e portanto não diz que um governo melhor (que está presente, que manifesta empatia, que não desvaloriza a situação, enfim, esses narizes de cera que por estes dias são triviais no espaço mediático) teria feito melhor, apenas diz que o acontecimento em causa não é inteiramente imprevisível (é verdade, mas não é menos verdade que as previsões sobre a natureza do fenómeno e da sua localização concreta só podem ser feitas com muito pouca antecedência, é ouvir Carlos Câmara, que ouvir-me a mim sobre isto é perder tempo) e que, sendo assim, há aqui alguma componente de falha humana.
Com certeza que há aqui falhas humanas, na previsão (a previsão do IPMA era de ventos de 140 km/h e o vento teve rajadas substacialmente mais fortes, porque o IPMA não previu o tal fenómeno de ciclogénese explosiva, e dificilmente o poderia prever), na avaliação imediata, na capacidade das infraestruturas críticas resistirem a condições especialmente adversas, nos mecanismos de redundância em situações críticas (alguém lembrava que o normal é as autarquias gastarem mais dinheiro nas festas municipais que a garantir o funcionamento por geradores de postos de combustível, estações elevatórias, lares de velhinhos, etc., mas convém acrescentar, que todos os sistemas de redundância representam ineficiência no uso de recursos e se se perseguir o risco zero, sem consideração pelo que significa economicamente, provavelmente acaberemos todos mais pobres e vulneráveis porque não há recursos para isso), etc..
É por isso que o país deveria aprender com a AGIF e fazer um relatório de lições aprendidas de cada vez que há problemas com alguma dimensão social.
Só que para criar essa cultura, implica que a opinião pública, como notava uma das minhas irmãs, se deixe de tanto resmungo, de tanta exigência, de tanta fé no Estado que nos faz andar sistematicamente à procura das falhas para crucificar alguém da "casta" (a minha irmã não disse nada disto, limitou-se a contrapor a cultura que temos em relação ao socorro com a cultura que diz que existe no Reino Unido), e passe a valorizar o que é feito, a solidariedade e reconheça o esforço que é feito no momento de acudir a quem precisa.
Talvez uma imprensa menos preocupada com as emoções e mais centrada na racionalidade de avaliação da realidade ajudasse bastante, o problema que voltamos ao problema do ovo e da galinha: a imprensa é como é e por isso influencia uma sociedade profundamente iliberal, cesarista e que espera que o Estado seja perfeito, ou é uma sociedade que tem esta cultura que gera a imprensa miseravelmente emocional e irracional que temos?
"É por isso que o país deveria aprender com a AGIF e fazer um relatório de lições aprendidas de cada vez que há problemas com alguma dimensão social."
ResponderEliminarEnquanto isso anda meio mundo do burgo a ver se se livra dessa AGIF porque isto de fazer relatórios a apontar as coisas como elas são, é um aborrecimento... (e depois questiono: "alguém" os lê? Suspeito que não... pérolas a porcos)
O que anda a ser sinalizado para os incêndios vale da mesma forma para todo o resto.
Excelente partilha
ResponderEliminarO chatGPt é uma fonte de informação isenta e factual, desde que qustionado sem amarras ideológicas.
O Estado nem devia intervir. Proprietários, arrendatários, seguradoras e empresas resolvem o que têm de resolver
Pode ser que ninguém leia os relatórios em questão, mas deviam pensar melhor no assunto.
ResponderEliminarHoje é mais seguro, em probabilidade de acidentes com óbito, fazer Berlim Nova York, do que ir comprar carcaças, á esquina da rua.
Tal conseguiu-se instituindo a regra do inquérito exaustivo ás causas dos acidentes, e levando as recomendações resultantes muito, mas mesmo muito a sério.
Os Operadores compreenderam desde cedo, que esconder e escamotear causas é a pior das táticas e que a verdade acaba por beneficiar a todos no longo prazo.
Um exemplo a ser seguido, ensinado em todos os níveis e aperfeiçoado.
ResponderEliminarEu sou de Pombal, e pelo vou conseguindo saber, no dia a seguir ao Kristin já andava a malta das aldeias limpar estradas e a tentar reparar os danos. Ninguém ficou de mão estendida à espera do governo.
Falta electricidade e água canalizada, mas está a ser reposta na medida do possível. Postes de alta tensão não se reparam em 1/2 duzia de horas.
A ideia que me fica (mas isto é só de falar com várias pessoas, os jornais dão tudo menos informação) é que o governo falhou na reacção, em parte porque os procedimentos na proteçcão civil são excelentes no papel mas na práctica morosos. O SIRESP para variar só existe para justificar despesa, não se activaram os satélites do Galileu e o resultado final foi um governo às escuras enquanto a população se desunhava para arranjar telhas e lonas.
A ver se ao menos aprendemos algo com o que se passou. Mas duvido.