Esta pergunta é muito mais interessante que a minha resposta: não sou a favor nem contra, nem a minha opinião sobre esse rapto, tem qualquer interesse.
A pergunta foi-me feita por Carlos Aguiar no contexto de uma conversa em que o Carlos dizia que Trump e Putin tinham dado cabo das coisas positivas que foram conseguidas depois da segunda guerra mundial, do ponto de vista da racionalidade e tranquilidade na ordem internacional (o Carlos não escreveu isto, isto é uma interpretação livre minha que traduz mais a maneira como vejo esta família de argumentos que o que pensa o Carlos exactamente).
Já ontem, Luís Aguiar-Conraria me tinha deixado a pensar no assunto quando disse que uma das coisas que o preocupavam era a erosão da credibilidade do sistema judicial americano que ia julgar Maduro, sem que houvesse alguém no mundo que acreditasse que algum tribunal americano poderia decidir pela inocência de Maduro.
Estas duas questões (muito diferentes entre si) são muito boas e talvez valha a pena dar um saltinho de leigo à história para tentar perceber como se pode responder.
No momento em que foi criado um tribunal especial (em teoria, somos todos contra tribunais especiais, não é?), com regras feitas à medida dos vencedores (em teoria, somos todos contra regras jurídicas feitas à medida, não é?), para julgar crimes de guerra definidos no momento (em princípio somos todos contra a aplicação de regras criminais definidas depois dos factos ocorridos, não é?), para levar a cabo os julgamentos de Nuremberga, alguém, no seu perfeito juízo, poderia esperar que os acusados fossem todos inocentados?
Claro que não.
E, no entanto, este é um momento fundacional daquilo que tem sido considerado "o direito internacional" aplicável que estaria a ser destruído por uns homens maus.
A razão fundamental para eu ter dificuldade em alinhar nesta ideia de que o rapto de Maduro é intrinsecamente errado (não discuto a legalidade, não só isso não me estimula intelectualmente, como acho ridícula a existência de um direito aspiracional que não tem um aparelho repressivo a impor as decisões dos tribunais, transformando decisões jurídicas em literatura motivacional) não é uma razão, é uma intuição: Trump, Putin, Xi, seja quem quer que queiram escolher, não moldam sociedades, são as sociedades que dão o poder a quem quer que seja para que consigam emergir estes "homens providenciais" que parecem ter mais poder do que seria saudável.
De resto, se alguém raptasse Putin e Xi para os levar a tribunal no Burkina Fasso, não vejo qual seria o prejuízo geral para a sociedade, da mesma forma que se qualquer dos vários atentados contra Hitler ou Estaline tivessem tido êxito (ou o atentado contra Trostky tivesse falhado), isso não me incomodaria por aí além e duvido que as sociedades tivessem evoluído de forma tão diferente como evoluíram.
O tal do Direito Internacional tem convivido alegremente com as maiores atrocidades (desde logo, na Venezuela, conviveu com um golpe militar, seguido da imposição de uma ditadura que destruiu a economia do país, criou pobreza e oito milhões de migrantes para os países vizinhos, perseguiu, torturou e matou opositores, durante 26 anos em que dezenas de tentativas para mitigar ou parar os efeitos sociais negativos de um regime ilegítimo não tiveram qualquer resultado) porque lhe falta a força para impor a lei e a justiça (que são, manifestamente, coisas muito diferentes, a força é fundamental para aplicar a lei, sem a qual a lei não existe em termos práticos, mas a aplicação da justiça é bastante mais independente da força que a lei, existe independentemente da sua real aplicação).
E é isto, como não acredito em fadas, não tenho qualquer interesse nas discussões sobre o rapto de Maduro, a única coisa que me interessa é perceber se, daqui para a frente, as coisas melhoram para os venezuelanos, nem sequer me interessa saber se os EUA estão apenas a defender os seus interesses pela força, se isso coincidir com a melhoria da vida dos venezuelanos, óptimo, se não coincidir, é preciso criar a força suficiente para voltar a mudar.
Fomos expulsos do Paraíso há muito tempo e não tenho ideia nenhuma que estejamos a voltar para lá, com ou sem Trump.
Ontem ouvi na SICN o Ascenso Simões explicar tim tim por tim tim tudo bem explicado.
ResponderEliminarPor mim fiquei esclarecido
um ascensor sempre a descer.
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ResponderEliminarNem Pilatos escreveria melhor.
Verdade seja dita, muitos gostavam é que viesse cá raptar o Marcelo.
Pode ser que aconteça num futuro próximo, caso aquela ZEE se venha a mostrar interessante. Há que sonhar, ou rezar se forem pessoas disso.
Excente exposição. No fundo o que importa é o futuro da Venezuela, quaisquer que tenham sido ou venham a ser os meios utilizados. Concordo a 100%.
ResponderEliminarBoa tarde
ResponderEliminar2 - E depois dizem que os fins não justificam os meios.
3 - Quem é que decide o que é uma democracia e o que é uma ditadura?
4 - Que cada povo resolva internamente os problemas com o poder que o controla, diz-se por aqui que quem está de fora racha cavacos.
Zé Onofre
Confesso que não esperava de si um comentário criticando o internacionalismo proletário
ResponderEliminarEm Nuremberga, nem todos foram condenados.
ResponderEliminarNão percebi. Pode-me explicar melhor, ou saiu-lhe esta frase que lha dá pesadelos diários? Se for assim, leia o Freud.
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ResponderEliminarExcelente texto, HPdS.
Sublinhe-se: "... Trump, Putin, Xi, seja quem quer que queiram escolher, não moldam sociedades, são as sociedades que dão o poder,,,"...
-"dão", directa ou indirectamente, nos vários tipos de democracias.
-"conseguem retirar" em certos tipos de democracias, noutras nem por isso. "Democracias" ele há muitas.
No caso vertente com boa sorte e, como na canção dos Beatles, talvez "with a little help from my friends".
E sim, sorte pró futuro e uma democracia, mas das eficazes, Venezuela.
Seja de que lado for que se olhe este caso os EUA agiram fora da Lei, torpedearam regras e procedimentos cuja criação lideraram, violaram princípios elementares de boa convivência entre Estados, apoucaram a ONU (sendo um Mistério a reação tímida do seu Responsável Máximo).
ResponderEliminarMaduro pode até ser o bandido que dizem, isso é uma coisa.
Outra é que um Estado, e logo o Estado de Jefferson, Franklin e Washington faça a Lei e a Ética em cacos numa orgia delirante para a "cumprir".
Postura de louvar
ResponderEliminarO Direito Internacional é um conceito marxista, que os estados socialistas europeus defendem porque têm (tinham) apoio militar americano e as ditaduras apoiam de modo a legitimar as suas patifarias
O único Direito é sustentado pela força, quem detém força são USA, Chinave Rússia, portanto são estes que fazem as leis a ser cumpridas. Venezuela foi bem ocupada, tal como serão Ucrânia, Taiwan, Gronelândia, Cuba, e mais quem tiver de ser.
Trump vai colocar a indústria petrolífera venezuelana a bombear no Máximo, e assim enriquecer o país
ResponderEliminarOs Estados Unidos têm um historial de intervenção na área, desde a guerra das bananas até à deposição de Allende, e os países e seus povos ficaram sempre a ganhar
ResponderEliminarBoa noite
ResponderEliminarSer-se internacionalista proletário, não é ser-se intervencionista.
Ser-se internacionalista proletário é estar-se unido na mesma luta proletária contra o capitalismo e a exploração do homem pelo homem.
Ser-se internacionalista proletário é - os trabalhadores de todos os países recusarem-se a participar nas guerras burguesas.
Ser-se internacionalista proletário é, por exemplo, incentivar e apoiar os trabalhadores russos e ucranianos a deporem as armas e deixarem o sr Putin, e quem os apoia, frente a frente com o sr Zelensky, e quem os apoia, matarem-se uns aos outros.
Zé Onofre
Por falar em SicN,aqui alguém viu e ouviu o painel do Komentariado (3 estarolas a embirrar com a operação ordenada pelo Trump) à hora da Conferência de Imprensa no sábado? Surreal e ao mesmo tempo não surpreendente tendo em conta o histórico nos canais noticiosos em geral e na SicN em particular. (Os 3 referidos komentadores eram o identificado como jornalismo Ricardo Alexandre, o komentador Jonet e o ex chefe da Assembleia A S S,a pivot/moderadora daquilo é uma madama que não sabe traduzir mas que fingia traduzir quando lhe convinha deturpar o que era falado,e é isto o "jornalismo" em Portugal )
ResponderEliminarEspecialistas em Direito ( nacional e internacional), conspiracionistas, indignados, intelectuais de salão, caçadores de perdizes e virtuosos em geral,
ResponderEliminarvem aí nova oportunidade de darem largas aos vossos copiosos dotes. Israel vai atacar o Irão (Guardas da Revolução) para dar um boost à revolta em curso no país.
ResponderEliminarPara quem não tem opinião sobre o assunto que versa, até porque a mesma não tem qualquer interesse, fala (escreve) muito. E sempre tão opinativo como falacioso. Para não lhe chamar desonesto. Afinal, estamos no mundo de Trump.
ResponderEliminarConcordo no geral com o post mas vou mais longe e acho ambas as situações - Ucrânia e Venezuela - positivas no geral.
ResponderEliminarNa Ucrânia, a Rússia perdeu
Não era necessário a moderadora estragar.
ResponderEliminarA simples presença do tal ASS azedava tudo, garantidamente
O ASS era o grande democrata, que sugeria uma porta lateral para o André Ventura entrar na AR
Essa de "força" é mais a sua maneira de ver.
ResponderEliminarO N Maduro, aliás seguindo o caminho de Chavez, que por sua vez se inspirava em S Bolívar, apenas fazia o que julgava melhor para defender a Venezuela e os interesses do seu povo.
Isso não faz dele um bandido e tanto quanto sei, ninguém provou nunca que ele o fosse.
A falácia do "direito Internacional", tomem atenção ao video (em castelhano bastante claro)
ResponderEliminarhttps://imagenssem.blogs.sapo.pt/a-falacia-do-direito-internacional-no-176520
Não é dúvida a força, mas elementar bom senso.
ResponderEliminarSó sei de Nícolas Maduro por interposta Comunicação Social.
" Eu estou admirado com a quantidade de democratas que lamentam a sorte de um ditador corrupto".
ResponderEliminarPedro Arroja in "Portugal Contemporâneo" ( passe a "publicidade" )...
A coisa compreende-se se nos lembrarmos de que a colónia alemã soviética se auto-intitulava "República Democrática da Alemanha"...
Juromenha
Estar unido na mesma luta contra o inimigo, sabotar a força de trabalho dos outros, incentivar e apoiar não ser intervencionista? Nem mesmo quando disto resultam brigadas internacionais de armas na mão?
ResponderEliminarMas não tenha problema em chamar desonesto, chame o que quiser, a sua opinião, como a minha, só tem a relevância que lhe derem.
ResponderEliminarO Arroja tá a fazer de tonto.
ResponderEliminarMete o "ditador" para fazer esquecer a invasão de um Estado Soberano, como se uma coisa desculpasse a outra.
É pechisbeque.
Como argumentario, com o devido respeito isso é um bronquice.
ResponderEliminarO direito internacional está sempre subordinado aos interesses dos países, sobretudo das grandes potências. Foi sempre assim desde o fim do Renascimento, não começou quando Trump chegou à Casa Branca.
ResponderEliminar05 jan. 2026, 00:20 no Observador(artigo completo na caixa de comentários do meu post no blog Imagens)
As esquerdas portuguesas são muito curiosas. Passam a vida a combater o “fascismo”, estão sempre preocupadas com as “ameaças à democracia pelo Chega”, mas cai um ditador na Venezuela, e não celebram. Pelo contrário, queixam-se. Fazem, normalmente, uma pequena introdução, do tipo “obviamente, ninguém defende o Maduro”, mas depois usam o tempo todo para enumerar as razões que justificariam a permanência do ditador de Caracas no poder.
Têm sido usados vários argumentos para condenar a ação norte americana e para defender a manutenção de Maduro no poder. O primeiro é o sacrossanto “direito internacional.” Desde sábado, há dois tipos de comentadores: os que evocam o “direito internacional” como se fosse a Constituição portuguesa e não fazem a mínima ideia do que estão a dizer; e há aqueles que conhecem muito bem a precaridade do direito internacional, mas usam esse argumento para atacar Trump.
Em grande medida tem razão.
ResponderEliminarMas mesmo assim existem coisas como as Nações Unidas, Tribunal Penal Internacional, Associações de carácter Humanitário, diversas Ass. de Jornalistas, etc.
É óbvio que quem tem a Força tem o Poder mas os organismos do tipo referido, permitem algum escrutínio e vigilância.
Não é muito, mas é alguma coisa
Boa noite, Henrique
ResponderEliminarA força de trabalho dos outros? Se os trabalhadores estão unidos, e eles são a força de trabalho, que força de trabalho é que eles sabotam?
Exato. Incentivar todos os trabalhadores, de estados em luta, a não usarem armas para se matarem mutuamente.
A mesma luta contra o inimigo, e o inimigo é o capitalismo, na perspectiva de "trabalhadores de todo o mundo uni-vos. Então para que ir fazer guerra aos capitalistas dos outros Estados se os tenho dentro do meu? Adeus brigadas internacionais por inúteis.
E o inimigo não se combate com armas, combate-se com a ideologia e a prática revolucionária de não obedecer ao patronato.
Só pensa em armas quem não é capaz de vencer o inimigo, trabalhadores, com as mesmas armas da persuasão e da razão.
Zé Onofre
Os trabalhadores não são a força de trabalho dos outros? Essa nem Marx subscreveria.
ResponderEliminarE, existindo um tribunal penal internacional, o que impede quem quiser de levar os EUA a esse tribunal, se esta acção é ilegal?
ResponderEliminarOs Estados Unidos não reconhecem o TPI, logo este não tem legiitmidade.
ResponderEliminarIsso das Esquerdas é para intimidar ? E não se trata de um Ditador caído mas da forma como caiu. E caiu porque os EUA descobriram que a Venezuela, para além das maiores reservas de Petróleo do mundo, tem droga, cartéis de droga e o Diabo a quatro. Já o México que não tem cartéis de droga não tem nada a temer.
ResponderEliminarOu seja, é uma espécie de tribunal de schrodinger, existe e não existe ao mesmo tempo
ResponderEliminarAgora tomem atenção (na Sic pois claro) à linha de actuação da activista disfarçada(e esta até vai disfarçando por vezes) de pivot/moderadora Clara ,além da atenção que merece o sr Morgado.
ResponderEliminarhttps://youtu.be/-19YUr9Ccgg?si=ucP5fPAFPlH4elXW
é o que quiser chamar. Nao sei se crê ou não no Direito Internacional, e se defende que se devesse aplicar aos Putins ou Hamas do mundo, eu pessoalmente não acredito num conjunto de leis, aplicadas por um tribunal que não tem reconhecimento internacional
ResponderEliminarE pode sempre questionar o ChatGpt com uma pergunta específica, "por que razao o TPI nao pode prender cidadaos americanos"
ResponderEliminarEstá tudo bem
Ao contrário da Gronelândia ou do Irão, Portugal não tem nada de jeito que valha a pena explorar (se calhar alguns nem se importavam de ter umas botas americanas no chão luso).
Por isso podemos olhar para estes casos com o cinismo ou benevolência do costume.
Se por acaso caírmos no lado errado do Tordesilhas XXI, talvez aí já finjam levar a sério os direitos internacionais e afins.
Boa tarde, Henrique
ResponderEliminarOs trabalhadores são a força de trabalho.
Os capitalistas exploram a força de trabalho.
Simples.
Zé Onofre
Exacto, daí a minha expressão "sabotar a força de trabalho dos outros", que é do mais fino recorte marxista e que não vejo como possa ser contestada, de um ponto de vista marxista, como o seu último comentário demonstra.
ResponderEliminarBoa tarde, Henrique
ResponderEliminar«
Eu uso o carro da locatária para ir a uma acção de luta contra o capital.
ResponderEliminarO patrão, para o evitar, põe uma bomba no carro.
Ou seja, sabotou o meu carro, apesar do carro ser da locatária, para me impedir de à acção de luta contra o capital.
Boa noite, Henrique
ResponderEliminarEntão quem sabotou, a força de trabalho, foi o patronato e não o trabalhador.
Zé Onofre