domingo, 25 de janeiro de 2026

A choldra

Ontem o Público tinha uma notícia sobre uma reunião de dirigentes que ocorreu no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (declaração de interesses, sou funcionário dessa instituição e, já agora, amigo de longa data do seu presidente, com quem mantenho profundas divergências no que à gestão do Instituto diz respeito).


Essa reunião já tinha, aliás, sido referida pela Ministra do Ambiente quando uns dias antes foi ouvida na Assembleia da República, e era uma reunião entre dirigentes do ICNF e a tutela política, no contexto de uma putativa reestruturação do ICNF.


Não é habitual haver notícias sobre reuniões internas de organismos públicos, mas o que se passa neste caso resulta de uma longa tensão entre a vontade do Governo aprovar de forma rápida e eficiente projectos que entende que são importantes para o país e a forma como são tomadas decisões pelos organismos ambientais, em especial o ICNF, tensão essa que não é de agora, é historicamente assim, com os diferentes governos e, convenhamos, será sempre assim, dando origem a inúmeras reestruturações (nalgumas delas participei activamente, não é o caso agora) que, desta vez (como em várias outras anteriores) há quem entenda que significam o fim das políticas de conservação tal como têm existido.


A polémica actual é um bom espelho do estado deplorável em que está a administração pública, a acção política e o jornalismo.


Comecemos pelos jornalismo.


A jornalista faz a peça com base em fontes anónimas, isto é, em princípio, dirigentes do ICNF que estiveram na reunião foram a correr para os braços da jornalista, quebrando as suas obrigações legais, mas sobretudo morais, de lealdade institucional.


Como se vê, eu escrevo o que me passa pela cabeça em relação à gestão do organismo em que trabalho, mas duvido que alguém consiga encontrar um único texto meu a falar de processos em curso sobre os quais eu tenha informação que decorre das minhas obrigações institucionais. Não se faz, em primeiro lugar, é ilegal, em segundo.


E das centenas de vezes que fui contactado por jornalistas a propósito de questões profissionais, não penso que exista um único registo meu a falar sob anonimato: ou não podia responder, e não respondia, ou se respondia, sempre, sempre, sempre, assumi a responsabilidade pelo que dizia, assinando por baixo, apesar das inúmeras ofertas de jornalistas me citarem sob anonimato para eu não ter problemas e poder falar mais livremente (a liberdade, caros jornalistas, não se defende escondendo a mão que atira a pedra).


Portanto, o jornalismo, como vem sendo hábito, prefere a intriga à informação, usando fontes anónimas interessadas para fazer peças que não tem maneira de confirmar.


O que o ministro da agricultura fez, depois de ser acusado de dizer que se a lei não permite a aprovação de qualquer coisa se muda a lei, e enquanto a lei não é mudada, relativiza-se a lei, foi disponibilizar um vídeo com a sua intervenção integral nessa reunião onde não podia estar fisicamente, um vídeo indigente, paternalista, com a esperteza habitual nestas matérias, em que diz coisas formalmente correctas, que se sabe que vão ser interpretadas da maneira incorrecta que pretende, mas não pode dizer.


Sim, é verdade que a peça jornalística não traduz correctamente o que ministro disse (e não sabemos se traduz correctamente o que o ministro pretendia dizer, porque não podemos fazer processos de intenções), mas em vez do senhor ministro se limitar a dizer que a peça, por responsabilidade da jornalista ou da sua fonte (é irrelevante), não traduz correctamente o que diz, desembesta em acusações aos dirigentes do ICNF, partindo do princípio de que a jornalista é impoluta (o Ministro não quer comprar uma guerra com jornalistas, outro dos problemas na choldra) e que os dirigentes a quem se dirigiu (alguns, poucos, tem o cuidado de dizer, sonsamente) são uns mentirosos (é sempre politicamente mais fácil atacar os que dependem de si que contestar lealmente quem escreve nos jornais, não é, senhor ministro?).


O Presidente do ICNF, ou seja, o general que parece não saber que quando se perde uma guerra a responsabilidade é sempre do general, nunca do soldado, resolveu (incompreensivelmente para mim), fazer eco das acusações do ministro.


O ministro tem razão em dizer que quando a lei impede um projecto, é preciso perguntar-se se a lei é a adequada ou se não será melhor mudá-la.


Mas essa responsabilidade é sua, Senhor Ministro, não é do técnico que emite o parecer.


A lei de protecção do sobreiro e da azinheira é absurda e estupidamente castradora, há anos que muita gente diz isso, está directamente sob sua tutela, o que fez para a mudar?


Nada, evidentemente, como os seus antecessores, porque significa comprar uma guerra política séria (as ONG e os jornalistas vão-lhe cair em cima a dizer que está ligado aos interesses e desvaloriza a conservação do património e essas balelas do costume, com um ganho político marginal, porque será sempre criticado pela aprovação de projectos que algumas pessoas acham que não deviam existir).


O senhor ministro tem razão quando diz que, frequentemente, a forma como é aplicada a lei e a sua interpretação é, pelo menos, discutível.


Mas a responsabilidade é sua, Senhor Ministro, é o senhor que nomeia gente sem espinha e sem qualificações para os cargos de direcção, usando uma CRESAP completamente desacreditada com máquina de lavar responsabilidades das suas escolhas de dirigentes, é o senhor que aceita a forma como funciona uma administração pública sem avaliação séria de resultados, é o senhor que varre para debaixo do tapete as responsabilidades que deveria exigir dos serviços que tutela, é o senhor que tem gabinetes de apoio mastodônticos que pretendem substituir a administração pública no apoio à definição de políticas, porque não confia (e bem) numa administração pública em estado miserável.


Tem razão, Senhor Ministro, o seu vídeo não diz o que a jornalista diz que diz, mas diz muito mais e, infelizmente, muito pior, do estado a que se chegou no jornalismo, na administração e na acção política.


Para além de uma choldra, D. Carlos dizia do país que era uma piolheira.


Infelizmente, as suas apreciações, hoje, parecem bem mais suaves que o que realmente caracteriza o país com rigor.

21 comentários:

  1. Adivinha-se que quando HPS entra ou se movimenta no ICNF muitas conversas são interrompidas e muitas cabeças se viram para o lado.

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  2. É bom saber que pode escrever artigos a criticar a entidade patronal. À atenção dos que protestam contra o marxismo, opressão e falta de democracia. Afinal o Estado opressor ainda está uns furos acima do Privado nessa coisas dos direitos fundamentais 

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  3. Coluna vertebral na Admnistração Pública , coisa raríssima de se ver ...
    Cpmis.
    Juromenha

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  4. Mais um optimista que difere do pessimista por estar mal informado. Nada tem a ver com direitos fundamentais e o Estado não está acima do Privado. O Estado está de tal forma degradado, de tal forma inoperante que, muito mais do que actuar mal ou bem, nada faz, seja externa ou internamente. É um exemplo de flacidez do inchaço em que demais resulta em menos.

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  5. Vejo que não entende nada do que é o Estado Liberal que deve ser neutro pois é um Monopólio ao contrário de uma empresa.


    Será que isto o ajudará a ver alguma coisa? 
    https://www.youtube.com/watch?v=wKDdLWAdcbM


    Diga-me... um funcionário publico é hipócrita se mantem o emprego se o governo faz politica com que não concorde? um Juiz deve recusar-se a aplicar uma lei com que não concorde...?


    Já agora, pode ir para o Estado Marxista para ver como elas mordem.


    PS: o Estado Novo tinha funcionários públicos Comunistas?

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  6. Um funcionário público é um empregado do Estado. Não confunda um contrato de trabalho com cidadania. Qualquer empregado privado tem no seu contrato restrições a criticar a entidade patronal publicamente. Foi apenas essa a diferença mencionada, e aqui o patrão Estado é melhor. O resto é a cassete, o lucky devia desligar de vez em quando enquanto finge que lê 

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  7. Como assim?  Nada faz? Pode explicar?

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  8. Não encontra, no que escrevi, uma linha a criticar a minha entidade patronal (o Estado). Não sou empregado de nenhuma das pessoas ou instituições de que falei.

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  9. Mas olhe que está muito bem acompanhado, não tem conta o número de ministros e outros governantes, e dirigentes da administração pública a quem já tive de explicar que não era empregado deles e se entendiam que tinha infringido alguma norma, que me pusessem um processo disciplinar.
    Eles depois bem procuram e chegam à conclusão que a liberdade de expressão é um direito constitucional.

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  10. Quando sabe que pode salpicar  !!

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  11. Por acaso até tinha e até nem era um segredo por aí além 

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  12. Isso revela o elevado nível de bronquice reinante nas esferas da Administração.


    Aliás torna-se logo evidente quando se é obrigado a recorrer ao Estado.   


    Qualquer coisa que tenha uma vírgula desalinhada "com o que está determinado" e começa a Via Sacra


    Mas também é justo reconhecer que já foi muito pior.


    Provavelmente estamos numa fase de transição pelo que com alguma Sorte, dentro de umas décadas isto ainda acaba num paízeco escorreito.

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  13. O mau artífice queixa-se das ferramentas.

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  14. Ainda há jornais, ainda há notícias, os blogs é que estão pela hora da morte. Percebe-se porquê.

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  15. Sendo verdade que Gostos e Cores não se discutem, a percepção que tenho é de os  jornais cada vez valerem menos a pena.


    Enquanto blogs ainda alguns, vão valendo a pena.

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  16. Muitas marés ocorreram em três séculos, desde o pináculo do Império à instauração da monarquia constitucional no século XIX. 

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  17. Precisamente. Estavam a trabalhar para o estado "fascista" mas não podiam falar contra, tal como nos regimes comunistas.
    Já em democracia como qq lado pode ganhar as eleições o estado deve ser neutro por principio. Uma empresa, um clube, um jornal pode ser "parcial", o Avante não tem "jornalistas" que defendem o capitalismo e se algum que lá estiver mudar de opinião para tal é despedido.

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  18. Faça como o Infantino: crie um prémio para o Campeão dos Blogs e entregue-o ao anfitrião. Com fotografia na primeira página do Público.

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  19. Não é preciso


    Contrariamente ao que ocorre em muitas outras áreas, onde se trabalha a troco de dinheiro, cá pelos blogs o pessoal corre por amor á camisola


    Isto não é uma critica ao trabalho remunerado, bem entendido.


    Acontece apenas que editar num blog não dá carcanhol


    Paciência. É a bida










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  20. Falar-se de bajulação e o(a) senhor(a) associar ao dinheiro até faz sentido. Não é preciso ler Freud. 

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