sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Um partido como os outros

Nada me liga ao Chega, nem o seu programa, nem as suas propostas (que podem não ter nenhuma relação com o seu programa), nem a sua prática política (que pode não ter nada com as suas propostas), nem a qualidade dos seus membros mais presentes no espaço público (independentemente de eu não alinhar na ideia de que o Chega é um partido unipessoal).


E, note-se, não é por valorizar grandemente a coerência política, uma qualidade que é publicamente sobrevalorizada e que eu acho, frequentemente, uma enorme deficiência política porque a política é a arte do possível, e o possível tende a variar muito como varia permanentemente a realidade e o contexto da acção política.


Dito isto, diria que o que escrevi no primeiro parágrafo é aplicável à generalidade dos partidos (aqueles a que é mais difícil aplicar, como ao Partido Comunista Português, decorre apenas de serem partidos que cristalizaram e ignoram a realidade, na sua acção política, porque quando tomarem o poder, na opinião deles, vão criar um mundo novo, o que lhes permite evitar terem de se preocupar com a realidade concreta que os rodeia hoje).


A propaganda do Chega tem sido extremamente eficaz a passar a ideia de que o Chega é um partido diferente dos outros, que deve ser tratado de forma diferente, de tal forma eficaz que a generalidade da esquerda, e boa parte da direita que não é o Chega, repete exaustivamente este mantra central da propaganda do Chega.


O Chega tem sabido catalizar o ressentimento social, por isso rouba tantos votos à esquerda, a habitual exploradora política do ressentimento social.


Não por especial competência política, mas porque tem cavalgado preocupações reais e legítimas das pessoas, adaptando-as a cada momento (por exemplo, praticamente deixou de falar de ciganos, questão que preocupa um nicho do eleitorado relativamente limitado, para passar a falar de migrações, questão social bem mais vasta, quer no eleitorado português, quer nas suas ligações com movimentos sociais de grande dimensão em toda a Europa), em vez de se meter num barquito para Gaza, sem objectivos claros, sem calendário, sem ligação às preocupações quotidianas das pessoas, como fez Mariana Mortágua, outra das campeãs da exploração política do ressentimento social.


Quem, como eu, não tem grande simpatia pela performance política histriónica do Chega, nem pela ideia de que a exploração política do ressentimento social é uma boa ideia, a prazo, talvez devesse prestar mais atenção ao facto da política ser a arte do possível.


Numa democracia, o poder decorre de eleições e, ou há, ou não há, poder de representação política para aceder ao poder.


Não havendo, é preciso contar com as outras representações políticas para exercer o poder, com o mínimo de eficácia.


A opção de António Costa foi bastante racional, do ponto de vista pessoal: prescindiu do exercício do poder para executar uma política, qualquer que ela fosse, e limitou-se a ocupar o poder com as pessoas que estavam disponíveis para ocupar cargos, desde que não os exercessem.


O resultado final é um país a cair aos pedaços, um Partido Socialista nas vascas da agonia, a perder votos para o Chega e António Costa numa posição pessoal vantajosa, num cargo irrelevante cuja principal preocupação consiste em não ferir ninguém, uma remake de António Guterres, pesem embora algumas diferenças de estilo e percurso.


Se se pretender exercer mesmo o poder, para aplicar políticas que as pessoas reconheçam como vantajosas para si (é disso que se trata, os governos não governam para o bem comum, que é uma abstracção, governam para que as pessoas sintam que a sua vida pode melhorar), vai ser preciso tomar decisões que afectam alguns (ou todos) e que geram reacções, mais fortes ou menos fortes, de oposição ao governo.


Ter partidos que cavalgam essas oposições, mesmo que num dia isso implique defender a chuva, e no dia seguinte defender o Sol, é um dado do problema sem grande relevância.


Transformar esses partidos no centro da acção política, em vez de os tratar como que são, partidos iguais aos outros que os eleitores julgam periodicamente, é um erro político de que o Chega tem beneficiado longamente.


Esperemos que agora o Chega vai eleger um monte de gente para exercer o poder localmente, com o inevitável cortejo de decisões erradas, de decisões incompreensíveis, de decisões venais que são inerentes ao exercício do poder, comece a ser mais claro o erro de considerar o Chega um partido diferente dos outros, em vez de o considerar como um clássico partido como os outros que, no caso, assenta a sua acção política na exploração do ressentimento social como caminho para chegar ao poder.

17 comentários:

  1. Não é um partido como os outros, tem é pessoas como as outras.
    Claro que isso não bate certo com as superiores virtudes morais (tal como o Bloco), mas nisso só acredita quem quer

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  2. No essencial é isso.


    Mesmo considerando a extraordinária capacidade de A Ventura de falar o português que toda a gente entende, o Chega é sobretudo uma obra do PS e do Bloco. 


    O mais difícil de entender é a espécie de nojo escandalizado que tanta gente fina faz questão de exibir em relação ao Chega.


    O partido está legalizado. As pessoas pelos vistos cada mais votam nele e isso é  só a Democracia a funcionar.


    Mas pelos vistos há uma série de gente para quem a Democracia só o é com vento a favor.


    Porque não se coçam?

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  3. one man show ou o Faz Tudo.

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  4. Um Partido que fala em português dos problemas que afectam os Portugueses.
    E que "põe o nome aos bois" quanto aos  responsáveis desses mesmos problemas...
    Juromenha

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  5. Este é o tipo de argumento que o Chega adora: a ideia de que eles são os únicos que percebem o que o povo quer, enquanto a esquerda anda a meter-se em barcos sem rumo. É a tal propaganda eficaz. A diferença é que a esquerda se foca em minorias e o Chega em maiorias.

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  6. O Chega é a conversa de café e de taxista tornada realidade. Atenção que a conversa não é de desprezar, é o que o povo sente.


    Ventura foi inteligente, mexeu onde as pessoas queriam que houvesse mudança, foi de encontro ao que as pessoas pensam e não ao piliticamente correcto.


    Eu aceito o Chega como Partido, quem quiser que vote, qual o problema?

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  7. Quais minorias? A classe média e baixa? É que supostamente esse é o grupo em que a esquerda se foca. 

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  8. Sim? Então e qual é o grupo do Chega?

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  9. Meu caro o grupo do Chega são todos os outros e não diga a ninguém, mas  suspeito que na hora do voto não é só á direita que se vota Chega. 


    Percebe ?! é como dizia o outro; quem vê caras não vê corações 

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  10. Estaria na mesma posição de HPS em relação ao Chega, não fossem a educação e a justiça. Da última não falo, mas o governo da AD, além de ter promovido a Balseiro Lopes desiludiu-me totalmente com Fernando Alexandre, focado nas questões operacionais, nem substituiu chefias que se sabe de onde veem desde o "numerus clausus" nem saneou a ideologia que infecta o ensino público desde que António Costa cedeu o sector à extrema esquerda no negócio da geringonça. E aí o Chega tem propostas sólidas e um ideólogo de primeira água, Mithá Ribeiro.

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  11. Os fachos e os ricos. São assim tantos que valham 50 deputados?

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  12. Está a esquecer-se dos estúpidos. 

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  13. Exacto. Nem todos podem ser inteligentes,  camarada. Nem se percebe como os deixam votar.

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  14. Pois é camarada, infelizmente a tua opinião, por mais inteligente que seja, tem o mesmo peso da de um gajo que acha que a Terra é plana. Só que no fim sofremos todos, tal como na segunda guerra. 

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  15. Seja como fôr tem-se a sensação de um país abafado por uma imparável vaga de indianos, supostamente mão de obra.


    Oxalá seja só isso e tudo bata certo.

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