No que vou escrevendo sobre a guerra de Gaza (não, não escrevo sobre netanyahu, sobre colonatos, sobre a questão palestiniana, sobre a complexidade do médio-oriente, de maneira geral escrevo sobre a guerra de Gaza porque me choca o inacreditável desequilíbrio informativo com que a generalidade do Ocidente retrata a complexa realidade do que ali está a acontecer) há, frequentemente, quem faça a equivalência entre a informação proveniente de um grupo armado (a ONU não o classifica como grupo terrorista) que exerce o poder há quase vinte anos em Gaza, de forma despótica e sem o menor resquício de respeito por opiniões divergentes, e a informação proveniente de uma democracia e Estado de direito, com governos que mudam em função de eleições e que são largamente escrutinados.
Não esqueço que numa guerra, em qualquer guerra, a verdade é a primeira vítima e que é bastante estúpido tomar a informação proveniente de qualquer dos beligerantes como informação válida, sem um cauteloso escrutínio.
Mas reconhecer isso não é o mesmo que reconhecer que a informação vinda do Hamas e vinda das IDF é igual e que as duas organizações são iguais, do ponto de vista da informação que produzem.
Um bom exemplo é o de que aconteceu na famosa explosão que ocorreu no hospital Al-Ahli, em 17 de Outubro de 2023.
Nesse dia, centenas de jornais noticiavam que havia 500 mortos em resultado de um ataque israelita ao hospital, informação que teve eco numa declaração dúbia de António Guterres, que não atribuía qualquer autoria ao ataque, de alguma maneira aceitava os números de mortos divulgados e mostrava-se em choque, como é seu hábito.
O Hamas, desde o primeiro momento, acusou Israel, disse que havia pelo menos 500 mortos e praticamente toda a imprensa ocidental repetiu, estúpida e acriticamente, esta informação, havendo alguns, poucos, que tinham o cuidado de referir a versão, diferente, das IDF.
As IDF dizia que a informação que tinha era de que teria sido um disparo defeituoso da Jihad Islâmica, mas ia investigar o assunto e apresentar, a seu tempo, as suas conclusões.
O que o tempo e as provas demonstraram é que a informação do Hamas era totalmente falsa (nem eram 500 mortos, nem tinha sido um ataque israelita) e que a informação inicial das IDF era bastante credível, foi um disparo defeituoso da Jihad Islâmica, que caiu no espaço do hospital e matou menos de cem pessoas.
Ainda hoje continua a haver fontes de informação ocidental que mantêm a versão original do Hamas, embora, frequentemente, mitigada no seu tremendismo.
O que é evidente neste caso, é o padrão habitual: o Hamas inventa e coloca nos meios internacionais (quer dos jornais, quer das organizações internacionais) literalmente o que quer (incluindo histórias da carocinha como as que são contadas sobre tiro ao alvo a criancinhas feito por militares israelitas a pessoas que se dirigem aos centros de distribuição alimentar da Gaza Humanitarian Foudation) e qualquer informação, mesmo fundamentada e escrutinável, produzida por alguém minimamente relacionado com Israel, é descartada (é extraordinário que seja a própria ONU, nos seus sites, que diga que 90% da ajuda alimentar que faz chegar a Gaza é desviada antes de chegar aos armazéns da ONU em Gaza e, ainda assim, haja a esmagadora percepção de que essa informação é manipulação israelita).
O exemplo mais recente deste evidente desequilíbrio informativo está nesta coisa extraordinária de haver umas quantas pessoas que resolvem meter-se numa Invencível Armada para fazer chegar ajuda humanitária a Gaza, e não haja um jornalista que pergunte aos organizadores e participantes, quantas toneladas de alimentos transportam, com que regularidade pretendem fazer chegar essa ajuda, e como compara isso com a ajuda enviada pelos Emiratos Árabes Unidos, de barco, ou com a ajuda lançada por meios aéreos, ou com o mais de milhão e meio de refeições que todos os dias a GHF distribui em Gaza (e distribui mesmo, não tem um único camião desviado, o que pode ser comparado com os 90% de camiões da ONU desviados no trajecto).
Que a informação do Hamas e de Israel precisa sempre de ser verificada, é um facto, são duas partes interessadas num conflito, mas que não há qualquer comparação entre a informação produzida por um grupo armado que exerce o poder sem qualquer escrutínio e tendo como única legitimidade a força das suas armas e a repressão que exerce sobre o seu povo, com a informação produzida por uma democracia imperfeita e um estado de direito imperfeito.
Pretender que as duas fontes de informação têm igual falta de credibilidade é cegueira voluntária.
falta credibilidade à 'Ò NU'. o 'ócidente' envia uns turistas com o título de enviado 'espacial'. só encontram a versão do Hamas.
ResponderEliminarem breve esquecem a Ucrânia, como não referem o Darfur.
A Wikipedia é mesmo o local perfeito para esclarecer dúvidas...
ResponderEliminarO espantoso sucesso e admirável nível que a comunicação social apresenta na actualidade é, essencialmente, resultado dessa “cegueira voluntária”. Mas claro está; as causas, a ideologia, as vendettas e o servilismo serão sempre mais importantes que a verdade e a honestidade.
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ResponderEliminarRecomendo
https://www.youtube.com/watch?v=kf-bSAnW_E0&t=9s
Sobre História em geral, há um segmento sobre "crimes de guerra" deveras interessante
Não há jornalistas, há é activistas.
ResponderEliminarNenhum jornal e jornalista pediu desculpa aos leitores por colocar em primeira página 500 mortos falsos e falhar todos os procedimentos jornalísticos.
Fake News do jornalismo de "referência".
Não notei, se alguém se lembra de alguma situação em que o jornal ou jornalista tenha pedido desculpa aos leitores por favor referir.
Efectiivamente convém, no que for possível, verificar as informações de ambas as origens.
ResponderEliminarAliás, o post refere exemplos que demonstram a necessária verificação, se bem que são ... de um só lado.
Será que que também não há noticias difundidas pelas IDF cuja necessidade de verificação não ficou já patente?
Ah, claro ... a CS sempre inclinada para um dos lados...
Para seu azar existem inumeros videos que contrariam a propaganda pro-sionista dos meios de comunicacao social.
ResponderEliminarAinda se lembra do massacre dos 15 paramédicos? O seu amado estado genocida negou sempre até que o video veio a público e aí disse que ia investigar.
Não nos faça de parvos
É extraordinário este comentário, exactamente a propósito da falta de rigor de uma entrada da wikipedia.
ResponderEliminarA wikipedia é uma excelente fonte de informação que, como todas as fontes de informação, deve ser escrutinada (o que a wikipedia, ao contrário de outras fontes, facilita muito ao ter as referências do que diz).
É bem possível, quer dar exemplos?
ResponderEliminarVê? Foi exactamente buscar o exemplo que dei no post sobre o facto de não serem fontes de informação parcial.
ResponderEliminarSabe porquê?
Porque é dos raros exemplos em que, num primeiro momento, as IDF deram informação errada (que depois corrigiram, depois de investigaram, e sobre o qual assumiram responsabilidades, ao contrário do que o Hamas faz, que nunca assumiu nenhum erro).
De resto, a partir do seu comentário, não tenho vantagem nenhum em fazer de si parvo, acho que desempenhou muito bem essa tarefa.
ResponderEliminarCuidado, nao caia do barco, que a flotilha pode continuar sem dar por isso
ResponderEliminarExcelente texto.
ResponderEliminarDesacreditar a propaganda Hamas