"Ninguém pode fugir às suas responsabilidades", é como termina a crónina de João Miguel Tavares hoje, no Público.
"Concorrência continua sem conseguir cobrar 675 milhões de euros ao retalho alimentar", titulava, em letras gordas na primeira página, o Público de Domingo, 31 de Agosto".
O que une estas duas citações?
O facto de, nos dois casos, os jornais terem certezas sobre o que são "as suas" responsabilidades.
No segundo caso, o que está implícito, é que a concorrência cobrar 675 milhões de erros é uma prerrogativa do Estado, indiscutível, e pagar esses 675 milhões de euros é uma evidente responsabilidade do retalho alimentar.
Como se a responsabilidade do Estado não fosse demonstrar que as circunstâncias justificam o pagamento dessa multa e as prerrogativas do retalho alimentar não fossem as de se defender do que considerarem abusos do Estado.
No primeiro caso fala-se da impossibilidade de fugir às "suas" responsabilidades, antes sequer de se saber que responsabilidades são essas.
Imaginemos que ganho umas eleições para uma câmara. Imaginemos que passado algum tempo, uma árvore cai em cima de dez pessoas. Quais são as responsabilidades que me cabem nesse acidente?
Não sei, é preciso averiguar se alguém identificou o risco de forma clara, quem tinha a responsabilidade de o fazer, quem tinha a responsabilidade de, depois de identificado o risco, definir que medidas se deveriam adoptar para o eliminar ou mitigar, depois de definidas as medidas, saber quem tinha a responsabilidade de as financiar e executar, se as dez pessoas estavam debaixo da árvore, apesar dos avisos de que essa era uma opção perigosa, etc., etc., etc..
O risco zero não existe (João Miguel Tavares acha que sim, a julgar pelo que escreve, mas note-se que usei a crónica de João Miguel Tavares como mero exemplo de uma orientação justicialista muito presente na comunicação social nestes dias, sempre com a ideia de que o risco zero existe).
A gestão de risco é uma questão muito complexa que é facilmente sequestrada pelos populismos deste mundo.
É facilmente sequestrada porque a prevenção de risco custa muito dinheiro, custa tanto mais dinheiro quanto mais se tem o risco zero como objectivo e, consequentemente, depois do risco se materializar numa tragédia, é muito fácil acusar terceiros de terem feito opções erradas, mesmo que ninguém tenha identificado esses riscos antes.
As missões Apollo tiveram duas explosões graves, a primeira provocou a morte de três astronautas ainda no solo, a segunda foi no ar e permitiu o salvamento da tripulação. Claro que mais gente morreu antes, em variadas circunstâncias que provocaram acidentes nos vôos que foram sendo feitos até chegar ao programa Apollo.
Teria feito algum sentido pedir a demissão do Presidente dos Estados Unidos por causa dessas falhas?
Claro que não, o que foi feito, e bem, foi avaliar cada um desses acidentes com um objectivo clarinho, clarinho: evitar um acidente pelas mesmas razões, no futuro.
Se, nesse processo se identificam as "suas" responsabilidades, seja de quem for, susceptíveis de cair na categoria de negligência, incompetência, má gestão, com certeza isso pode ter consequências, inclusivamente judiciais, para esses responsáveis.
Quando se perde uma guerra, a responsabilidade é dos generais, não é dos soldados, mas o general não pode ser responsabilizado por uma manobra concreta mal executada por um subordinado, a menos que ela resulte de um padrão geral de impreparação do seu exército, ou de uma ordem directa do general.
O que manifestamente me parece pouco útil é esta pulsão, esta vontade de cortar a cabeça ao rei para resolver os problemas do reino.
Esta solução tem sido usada frequentemente ao longo da história, mas não me parece que os resultados verificáveis demonstrem que cortar a cabeça ao rei, de cada vez que alguma coisa falha, seja uma boa solução.
Uma coisa é certa, João Miguel Tavares, com toda a ingenuidade que o caracteriza não se faz de sonso, tem uma opinião (errada) mas assume o que escreve. Outros com outras responsabilidades e pagos com o dinheiro dos contribuintes, tentam ser mais inteligentes:
ResponderEliminarhttps://duas-ou-tres.blogspot.com/2025/09/a-culpa.html?m=1
em vez de dizerem o que pensam sobre o assunto.
Enfim, dizer que Moedas se devia demitir por causa do acidente no elevador é tão estúpido como dizer que a culpa da morte de Diogo Jota foi de Stephan Winkelmann.
(António Costa demitiu-se depois da catástrofe, dos mortos por incúria em Pedrógão?)
Excelente texto.
ResponderEliminarObrigado por mais um texto assertivo e factual
ResponderEliminarCada vez mais difícil encontrar verdade no meio de tanta propaganda debitada sabe-se lá por indicação de quem.
Analogia ao programa espacial americano, na mouche.
Excelente comentário
ResponderEliminarComo habitualmente HPD tem alguma razão e enorme bom senso mas, neste caso, acho que não avaliou a distorção do cenário.
ResponderEliminarEm 2001 Jorge Coelho, há sete meses no cargo, demitiu-se após a tragédia de Entre-os-Rios. Se o fez porque aproveitou a oportunidade para um bom lugar de administração é irrelevante. O facto é que, se não criou uma regra, criou um precedente e, nesta iminência de eleições, o PS que nunca se recompôs de perder Lisboa, vai explorar esse precedente.