segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Depois do fogo

Há já bastantes anos, Paulo Fernandes mandou-me um estudo que avaliava (uma actividade em que os americanos são muito bons e nós muito maus) o efeito das medidas de emergência pós fogo nos Estados Unidos.


Não me lembro bem do estudo (e não o vou procurar agora), e muito menos do contexto em que o Paulo me mandou o estudo, talvez estivesse relacionado com a minha antiga desconfiança sobre a necessidade de medidas pós fogo, já que a recuperação dos sistemas naturais, em ecossistemas adaptados ao fogo, é bastante boa, na maioria das vezes.


O essencial da conclusão era que, em algumas circunstâncias havia algum efeito positivo (uma pequena parte dos casos avaliados), em algumas circunstâncias os efeitos tinham sido negativos (uma pequena parte dos casos avaliados e esses efeitos negativos relacionavam-se com o trânsito de máquinas pesadas nas operações de emergência pós fogo) e, na esmagadora maioria dos casos, tinha sido dinheiro deitado à rua visto que a recuperação ocorria com ou sem intervenções.


Sempre que existem fogos de alguma dimensão, o discurso política e a prática consiste em desenhar um conjunto de acções de emergência, sobretudo com justificações relacionadas com a suposta erosão dos solos pós fogo, esquecendo que as intervenções de emergência, para se justificarem, devem ser executadas em prazos muito curtos, ou são inúteis (a tradição portuguesa ignora olimpicamente os prazos curtos).


As acções são sempre mais ou menos as mesmas, cheias de "já agora", a coisa mais corrosiva para o orçamento e o prazo de execução de uma obra, seja que obra for.


O extraordinário em Portugal é que ninguém avalia os efeitos e a eficiência dessas intervenções, de maneira que vamos sempre fazendo as mesmas coisas, sem aprender nada com a experiência.


Comecemos por lembrar que um fogo, mesmo que tenha sido destrutivo para a matéria orgânica na camada superficial do solo (como acontece nos fogos de elevada intensidade que ocorrem em condições de secura do solo elevada), consiste numa reacção química que decompõe cadeias químicas complexas, disponibilizando nutrientes em formas elementares que permitem o uso pelas plantas, ou seja, são um grandioso processo de fertilização.


A resposta a este lembrete é que com a chuva, há uma grande erosão do solo, só que isso não é bem assim, à escala de uma parcela isso é parcialmente (já lá vamos) verdade, mas à escala da paisagem, se há zonas de erosão, há também zonas de acreção que beneficiam enormemente dessa deslocação de solos e nutrientes, a existir.


O parcialmente do parágrafo anterior refere-se à enorme confusão entre a lavagem de cinzas e carvões, que ocorre, mas não é erosão do solo, é a lavagem de nutrientes que estavam presos na vegetação e que o fogo dispobiliza através da quebra das cadeias químicas complexas. Daí que medir os materiais lavados pelas chuvas pós fogo, sem distinção de carvões, cinza e solo, seja uma aproximação grosseira que inclui uma estimativa de erosão do solo francamente exagerada.


Sim, é verdade que, sobretudo se as primeiras chuvas forem muito fortes, há alguma erosão nalgumas parcelas, mas também há acreção noutras.


Se se pretender potenciar as zonas de acreção, nomeadamente com o uso de técnicas de engenharia natural que permitam alguma retenção de sedimentos (sejam eles solo, carvões ou cinzas), óptimo, nada contra, desde que o custo seja razoável.


Agora andar a espalhar propágulos, sobretudo sob a forma de sementes, em áreas que estão saturadas de propágulos de vegetação adaptada ao fogo, "É sempre um esforço inútil,/ Um voo cego a nada".


Por mim, os programas de intervenção pós fogo deveriam esquecer esta cisma das estabilizações de emergência para se focar em três pontos:


1) controlo de invasoras;


2) na medida do razoável, engenharia natural que permita potenciar a acreção;


3) aproveitar a facilidade de acesso, de identificação de caminhos, muros e outros elementos da paisagem que resultam da limpeza feita pelo fogo, para desenhar um conjunto de linhas de ancoragem de fogos controlados de dimensão relevante, o que os torna muito mais baratos, com execução a iniciar-se ao quarto ano pós fogo (a execução do fogo, preparar as linhas de ancoragem pode começar no dia seguinte ao fogo).


É barato, é fácil e tem efeitos imediatos nos fogos futuros, incluindo a possibilidade de protecção de alguns núcleos em que se pretenda excluir o fogo durante uns anos, protegidos por envolventes com fogos controlados preparados no imediato pós fogo.


E, por favor, esqueçam a mania das plantações de árvores cujo objectivo não se sabe muito bem qual seja e que não tenham um programa de gestão a médio prazo.

2 comentários:

  1. Excelente lição. A turma leu, aprendeu e até à hora em que escrevo. nem se atreveu a comentar.

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  2. desenhar um conjunto de linhas de ancoragem de fogos controlados


    O que são "linhas de ancoragem"? Para que são necessárias, no contexto de fogos controlados? Quem as desenha?

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