A diferença entre culpa e responsabilidade é muito estreita, sobretudo no senso comum, mas poder-se-á dizer que a culpa é o incumprimento de um dever e a responsabilidade resulta do reconhecimento de que uma determinada acção provocou um efeito negativo para terceiros.
A culpa não deve morrer solteira, com certeza, mas para isso é preciso, primeiro, identificar a culpa de que se fala.
A responsabilidade pode, ou não, morrer solteira, dependendo do grau de ligação entre a dita acção (ou omissão) e o resultado.
João Miguel Tavares (cito-o mais vezes nestas coisas porque tenho grande respeito por ele, ao contrário de outros que acho que nem vale a pena citar) volta a insistir na tese de que há sempre erro humano quando uma tragédia não resulta de uma fenómeno natural, a propósito do desastre do elevador da Glória.
Sim, há um erro humano inicial com mais de cem anos (um erro de concepção do projecto de substituição da cremalheira por um cabo), que durante mais de cem anos, apesar das inúmeras intervenções de modernização e melhoria do equipamento, e das ainda muito mais numerosas inspecções e acções de manutenção, não foi identificado por ninguém, indiciando que é um erro humano muito longe de ser evidente, até ao momento em que ocorre um desastre.
Sendo isto o que se sabe, qual é a responsabilidade das pessoas envolvidas e que pessoas se consideram envolvidas, portanto, potencialmente responsáveis.
Culpa ninguém tem, aparentemente, nem o projectista inicial, que tem com certeza a responsabilidade pelo erro de concepção mas não tem culpa, terá sido tão diligente quanto possível ao conceber o projecto, de tal maneira que não só o projecto foi aprovado e executado, como o erro de concepção, durante cem anos, não foi identificado.
Responsabilidade sim, como, em teoria, têm responsabilidade todos os que, nesses cem anos, tiveram alguma responsabilidade técnica no funcionamento do elevador (é um bocado idiota exigir responsabilidades aos dirigentes das organizações que operaram o elevador, porque isso pressupõe que é responsabilidade de um gestor estar tecnicamente mais habilitado que os técnicos contratados exactamente por serem tecnicamente mais habilitados).
O que interessa isso para a discussão actual sobre o assunto?
Muito pouco, na medida em que o que aconteceu não está relacionado com nada que tenha sido feito, com a informação que existe (é claro que falta esclarecer por que razão o cabo se soltou, aí sim, pode haver outro erro humano na amarração do cabo, ou uma fadiga de material não detectada numa inspecção, mas manifestamente isso continua a estar fora da responsabilidade directa dos responsáveis pelas organizações).
No entanto, a esquerda e o jornalismo (perdoem-me o pleonasmo), resolveram cometer exactamente o mesmo erro que cometeram com a Spinumviva, cavalgando o justicialismo e procurando liquidar politicamente um adversário através de leituras ultra-moralistas de uma tragédia.
E é um erro político por dois motivos.
Por um lado, ao contrário do jornalismo histérico e da sonsice política, a generalidade das pessoas não fazem leituras moralmente maximalistas do que se passou (quer agora, quer na Spinumviva).
A faixa do eleitorado, ainda relevante, que é sensível a essas leituras hiper moralizantes, não vota maioritariamente nos partidos moderados, vota nos partidos que vivem dessas leituras hiper moralizantes da acção política, sobretudo o Chega, desde que a extrema-esquerda está eleitoralmente tolhida pela sua história, que fez com que os eleitores do ressentimento se passassem, em grande escala, da esquerda radical para a direita radical.
Aos jornalistas o que devia preocupar não é a posição dos políticos nos estudos de opinião que pretendem avaliar a confiança das pessoas em diferentes grupos sociais, em que, desde sempre, os políticos andam pelos lugares que traduzem a habitual desconfiança das pessoas comuns nos políticos.
O que devia preocupar os jornalistas é que já há alguns estudos em que a confiança nos jornalistas aparece abaixo da confiança nos políticos, em grande parte porque se fixou a ideia, no jornalismo, de que o jornalista tem sempre que estar do lado contrário ao do poder, mesmo que o poder tenha, como às vezes tem, razão.
ResponderEliminarNão sou engenheiro mecânico, a minha área é a segurança do trabalho, mas o que me salta à vista é que estes equipamentos são vitimas da sua "simplicidade", da antiguidade e raridade. Os dois primeiros permitiram que tenham funcionado durante 140 anos sem grandes ocorrências, a terceira não permitiu a incidentes suficientes que dessem origem a medidas e verificações preventivas de segurança. A mim parece obvio que não era conhecido o ponto frágil da fixação do cabo, a periodicidade de verificação e da sua substituição, a fadiga dos materiais de acordo com a intensidade da utilização, por exemplo, isso poderia levar a uma limitação da ocupação do elevador (por exemplo, não permitindo viajar em pé).
ResponderEliminarOs jornalistas deveriam era ler o vazio que produzem e dar graças pelo distraído reflexo que faz o pessoal ainda comprar e a publicidade continuar a afluir.
ResponderEliminarMas lá que é um belo vácuozinho não tem como negar
Há casos em que a culpa morre solteira e este parece ser um dos casos. 140 anos sem problemas graves e de repente uma tragédia. Era velho, funcionou 140 anos, não há mesmo quem culpar.
ResponderEliminarSe calhar teve uso excessivo com tanto turista que ai anda, não me admirava.
A propósito de responsabilidade e sobre a recente polémica que envolve uma figura ilustre do PS, ouvir o Arquivo RTP e ler o jornal Público:
ResponderEliminarhttps://arquivos.rtp.pt/conteudos/a-degradacao-da-ponte-que-ligava-entre-os-rios-a-castelo-de-paiva/
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/entrevista-a-paulo-teixeira-3/
https://www.publico.pt/2001/07/04/sociedade/noticia/paulo-teixeira-reafirma-que-alertou-tutela-para-degradacao-da-ponte-de-entreosrios-30230
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/inspeccao-aos-pilares-da-ponte-hintze-ribeiro/
ResponderEliminarConclusão:
A degradação da ponte era do domínio publico e do conhecimento geral das instâncias que tutelavam as obras públicas, como se constata no vídeo (supra).
vários organismos tinham feito prospecções aos pilares da ponte, com recurso a imagens recolhidas por mergulhadores e outros técnicos, pois à época, estava prevista a hipótese de alargamento do tabuleiro.
Porém, depois de feita a inspecção, constataram o mau estado dos pilares e informaram as instâncias que tutelam as obras públicas.
De lembrar que do acidente tinha havido reportagens (RTP) cobrindo as manifestações da população que alertava para a situação, com corte de estradas e fazendo apelos a chamar a atenção para a possibilidade duma iminente tragédia.
A demissão de Jorge Coelho assumindo as responsabilidades foi de uma enorme grandeza e dignidade, mas _ perante tudo os factos que tinham antecedido a tragédia _ era inevitável, uma vez que havia a percepção de uma "certa" negligência do Ministério tutelado por si (custa-me dizê-lo) mas tendo havido alertas, tinha de se ter conhecimento do que se passava. Havia portanto, um nexo de causalidade por omissão indirecta , i.e., por haver informação suficiente e não se ter agido atempadamente.
ResponderEliminarSe calhar teve uso excessivo com tanto turista que aí anda
Sem dúvida que teve.
A circular para cima e para baixo de dez em dez minutos, provavelmente quase sempre cheio. Nenhum autocarro da Carris sofre tais tratos de polé.
ResponderEliminar