O título deste post é a resposta a uma pergunta que me interessa, embora, aparentemente, interesse a muito pouca gente: quantas ignições são precisas para que exista um fogo como o que durou uma semana na Serra Amarela (também conhecido por fogo de Ponte da Barca ou fogo em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês).
Por que razão essa pergunta me interessa, quando a resposta é tão óbvia (mesmo descontando o facto do óbvio ser uma coisa muito subjectiva)?
Porque essa ignição é igualzinha às milhares que ocorrem todos os dias (sim, as ignições que ocorrem todos os dias são aos milhares, as que são registadas no sistema de gestão do fogo são apenas a pequena fracção que encontra condições de progressão do fogo suficientes para que cresçam ao ponto de ser registadas no sistema) sem que dêem origem a qualquer fogacho suficientemente grande para ser detectado e registado no sistema, e igual às dezenas que dão origem aos registos do sistema, mas sem que queimem mais de 100 metros quadrados.
Daí que a ideia de reduzir as ignições até ao ponto de não terem um efeito de dispersão de meios ou, mais amalucado ainda, ao ponto de não darem origem a fogos, seja uma ideia tão irrealista como contratar um exército de unicórneos com superpoderes para resolver os problemas de gestão do fogo.

Várias pessoas, e percebe-se porquê, mandaram-me este boneco acima, a generalidade das pessoas a rir-se da situação, todas a condenar a falta de noção dos organizadores das festas de Marinhais.
Percebo a reacção, mas deixem-me que vos diga que tenho uma certa simpatia por esta capacidade das comunidades reagirem ao poder arbitrário do Estado.
Antes de ser crucificado por escrever isto, leiam o que vou escrever sobre vacinas.
A esmagadora maioria das pessoas reconhecem os benefícios da vacinação, não apenas para os que são vacinados, mas igualmente para os que, por alguma razão, não se vacinam mas ficam protegidos pelo facto da progressão das doenças infecto-contagiosas ser muito dificultada por haver muita gente vacinada (já agora, a vacinação é uma analogia clássica para difundir a ideia de que para evitar fogos catastróficos, a solução é ter muitos pequenos e médios fogos que vacinam a paisagem contra as epidemias de fogos, mas não é esta a analogia que me interessa neste momento).
Apesar dos milhões e milhões gastos no combate às doenças infecto-contagiosas, há dezenas de anos, apenas uma doença, até hoje, foi erradicada, quanto às outras, o mais que conseguimos, é torná-las menos proecupantes e com erupções de focos controláveis, por serem bastante limitados, dado que a vacinação limita a sua capacidade de progressão, quando alguma coisa corre mal (por exemplo, uma variante do agente patogénico que consegue fugir ao controlo pela vacina, a gripe é um bom exemplo disto).
Há, e sempre houve, uma grande discussão sobre se a vacinação, dados os seus benefícios sociais, deve ser um processo coercivo ou voluntário.
Tenho uma notícia a dar sobre Portugal: em Portugal, a vacinação não é coerciva (apenas recentemente, com a COVID, foram adoptados procedimentos nesse sentido, contra toda a boa prática tradicional de Portugal no campo da vacinação) e Portugal é dos países com maior cobertura vacinal do mundo.
O Estado tem um plano de vacinação que não é obrigatório, tem campanhas de vacinação, disponibiliza gratuitamente vacinas e os meios de vacinação para as vacinas que estão no plano nacional, faz pedagogia pela vacinação, mas ninguém é obrigado a vacinar-se.
Portugal é uma confirmação das conclusões mais frequentes nos estudos sobre a vantagem da obrigatoriedade de vacinação, face ao carácter voluntário, que apontam no sentido de que a vacinação voluntária dê melhores resultados que os sistemas de vacinação obrigatória.
Volto então ao boneco das festas de Marinhais, ao contrário do que Portugal faz na vacinação, a opção pelo controlo das ignições, em Portugal, tem sido a da imposição de comportamentos, fiscalizados e reprimidos pelo Estado, daí a minha simpatia pelos organizadores das festas de Marinhais.
Eu acho absurdo que numa situação de risco elevado de progressão do fogo alguém se entretenha a mandar foguetes para o ar, mas o facto do Estado achar que é coercivamente que se conseguem evitar este tipo de comportamentos insensatos (como acontece esporadicamente na vacinação, há sempre alguém que não se quer vacinar, sendo certo que alguns não podem mesmo, por razões médicas), tem efeitos secundários que me parecem graves.
No caso de Portugal, por exemplo, o uso de um método errado para definir o risco de incêndio tem como consequência termos muito mais dias de interdições várias e extensas, que prejudicam a vida de milhares de pessoas e criam ineficiência económica, com base nas tolices marcelistas de que mais vale prevenir que remediar.
E há muitas outras razões para que o facto do Estado usar um poder discricionário para condicionar a liberdade das pessoas, com o argumento de evitar ignições é um bem colectivo de primeira grandeza (não, não é, a liberdade das pessoas é um direito constitucionalmente garantido, a necessidade de evitar ignições não tem cobertura constitucional, que eu saiba), tenha um efeito social global negativo, que me incomoda especialmente porque, para além de teorias e modelos, ninguém, em lado nenhum do mundo, conseguiu, até hoje, demonstrar empiricamente que a diminuição de ignições tem efeitos reais na diminuição da área ardida ou, mais genericamente, um efeito relevante positivo na gestão do fogo.
Voltando ao princípio, um fogo ter vinte mil hectares ou vinte metros quadrados não depende do número de ignições, quer num caso, quer no outro, uma, basta uma ignição para os começar.
A vacinação pode não ser obrigatória, mas para se inscrever os filhos na escola tem que se mostrar o boletim de vacinas deles, e não sei o que acontece se não se tiver as vacinas em dia.
ResponderEliminarA diminuição do número de ignições não impede que haja grandes incêndios, mas pelo menos dá aos bombeiros mais disponibilidade para apagar os incêndios que surjam, impedindo talvez que eles se tornem grandes.
ResponderEliminar(É o mesmo argumento que na epidemia de covid: não se pretende evitar que haja mais casos de covid, mas sim garantir que estes surjam em número suficientemente reduzido para que os hospitais não colapsem.)
Exactamente o que diz o post, que também diz que esses argumentos não têm base empírica nenhuma
ResponderEliminarNão confunda vacinação com injecção covid. Vá lá perguntar às inúmeras pessoas que ficaram com sequelas se ficaram melhores depois da "vacinação ".
ResponderEliminarGostei de ler. Vivo em Marinhais, fora da vila e numa área florestal, quando às 11H30 começou o barulho desenfreado que acordou uma das minhas netas bebé e nos complicou o serão, desejei cobras e lagartos aos organizadores da festa.
ResponderEliminarPelo que sei o fogo, um dos maiores se não o maior em muitos anos causou cinco ignições, apagadas de imediato pelos bombeiros de prevenção presentes.
Com todos os inconvenientes - o barulho dos morteiros é mesmo excessivo - acho muito bem que a liberdade prevaleça sobre a proibição.
E, evidentemente, não deixo de fazer o meu passeio pelos trilhos, apesar da proibição de acesso e permanência em áreas florestais, um absurdo anticonstitucional e contra a lógica porque posso detectar precocemente alguma ignição como, há anos, uma vez aconteceu.
Mas não deixa de ser engraçado - no mau sentido - o governo proibir-me de me deslocar à volta da minha residência e dentro da minha propriedade.
E no caso das vacinações, se a "objecção de consciência " (baseada na ciência, claro) chegar a níveis elevados, não deve o Estado fazer a tal coacção?
ResponderEliminar
ResponderEliminarAté onde deve ir o comportamento repressivo do Estado?
ResponderEliminarLembro-me (não havia redes...) de como foi recebida a imposição do uso de cinto de segurança. Hoje seria viral a restrição à liberdade individual, até porque o carro é propriedade privada.
Desconheço se impedir fogos e churrascadas tem ou não impacto, mas é usual o Poder impor regras, que se quebradas tem consequência, naquilo que se chama o bem comum. Por exemplo o trânsito está cheio de regras, multas, etc...
ResponderEliminar"dá aos bombeiros mais disponibilidade para apagar os incêndios que surjam, impedindo talvez que eles se tornem grandes"
Se não estou em erro, o sucesso dos bombeiros em apagar o 1o fogacho anda nos 95%. Ou seja, a imensa maioria dos fogos florestais são apagados logo no início. A não ser que você pense ser possível aos bombeiros terem consecutivamente taxas de sucesso de 100% ao longo de vários anos, vão sempre existir grandes fogos.
Mas supunhamos que sim, e que durante 10 anos todos (TODOS) os incêndios eram apagados logo na 1a hora. O único resultado seria tornar Portugal num barril de pólvora porque o combustível para os fogos foi acumulando sem ser nem consumido nem retirado. Bastaria uma desatenção para o país se tornar um churrasco à beira-mar plantado.
Caro HPS, ignições "às milhares" não.
ResponderEliminarTem razão, já corrigi
ResponderEliminarSegundo julgo saber, a proibição de circular em áreas florestais abrange as áreas que estão devidamente identificadas como tal no Plano Municipal da Defesa da Floresta contra Incêndios.
ResponderEliminarVamos ser objectivo: o risco era igualmente elevado antes e depois da meia-noite.
ResponderEliminarA única diferença é que a partir da meia-noite entrava em vigor uma proibição, imposta administrativamente. Portanto do ponto de vista legal não houve qualquer ilícito. Mas o risco que justificava essa proibição já lá estava antes, daí que tanta gente tenha ficado revoltada.
É verdade que basta uma ignição para haver um grande incêndio.
ResponderEliminarE também é verdade que a causa da ignição (fogo posto, queimada, beata, pirotecnia, trovoada seca) é irrelevante para a dimensão do incêndio que se segue, pelo menos não é conhecida nenhuma relação de causalidade entre uma coisa e outra.
Dito isto, decorre da lei das probabilidades que quanto mais ignições houver, maior a probabilidade de haver um ou mais grandes incêndios e por isso não parece lá muito avisado estar a realizar actividades susceptíveis de causar ignoições adicionais que podem, qualquer uma delas, dar a origem a um grande incêndio descontrolado.
Curiosamente todos os dias são dias de caça à multa.
ResponderEliminarQual a razão para os dias de caça não serem iguais para tudo?
Quintas-feiras e domingos, proibição de caçar multas em dias de eleições.
Fica a sugestão.
Ou seja, em todas as áreas florestais que confinam com áreas urbanas ou seja, em três dos quatro lados da mancha florestal que circunda a minha residência. Mais pequenas manchas florestais que ficaram isoladas ou quase, tipo península, entre fazendas vendidas aos sucessores dos que as desbravaram nos finais do séc. XIX e inícios de XX..
ResponderEliminarO que o senhor tanto julga saber, o Plano Municipal de Defesa da Floresta contra Incêndios, deveria chamar-se Plano Municipal de Defesa de Habitações contra Incêndios Florestais. Pelo menos no meu e municípios adjacentes.
Nem todos os dias. Fazem pausa no Verão. A bem da economia de mercado. Como se quer.
ResponderEliminarNove em cada dez vezes, essa repressão é espúria. O caso dos cintos de segurança é exemplar.
ResponderEliminarVivendo numa área rural tenho de percorrer 400, 600 ou 800 metros de estrada de terra, com pó, para chegar a casa. Não sendo barato lavar semanalmente o interior do carro quando tenho de usar camisa e gravata, é quase certo que o cinto de segurança me deixa marcas na roupa. Além disso a pressão do cinto - não tenho dinheiro para carros de luxo - incomoda-me e irrita-me e, assim pode mesmo contribuir para erros de condução causados por irritação ou por tirar uma mão do volante para aliviar o cinto que muitas vezes prende.
O Estado tem o direito e o dever de garantir que eu tenho os pneus com rasto, a direcção alinhada, os travões eficazes, os limpa para brisas a funcionar, etc., etc., porque isso pode afectar a segurança de terceiros. Não é o caso do cinto de segurança, que apenas me afectará a mim.
Nem é válido o argumento de que ao por o cinto o condutor, mentaliza-se e presta mais atenção à condução. No meu caso é precisamente o contrário. No máximo dos máximos o Estado poder-me-ia exigir um seguro adicional que cobrisse gastos públicos - ambulâncias, hospitalização - que seriam evitáveis pelo uso do cinto. Seria o máximo e mesmo assim, injusto, pois o Estado não acautela esse risco a, entre outros, todos os que praticam desportos extremos.
O cinto de segurança - há outros exemplos - foi um resultado de pressões de interesses ligados à indústria automóvel. Mesmo aceitando que a estatística esteja a favor da obrigatoriedade dos veículos terem cintos de segurança (e é apenas estatística pois há inúmeros casos de acidentes, sobretudo em autoestradas, em que os cintos atrasam ou mesmo impedem os sinistrado de abandonar ou serem removidos da viatura antes desta pegar fogo ou ser novamente abalroada) não há nenhum motivo racional, pensando em termos de liberdade individual, para o Estado me obrigar a usar o cinto.
Como liberal, discordo do meu Porsche ser obrigado a andar a 120 só porque os outros não chegam lá. Cada um conduz onde e como quer, em caso de acidente resolve-se entre os intervenientes.
ResponderEliminarO senhor deve brilhar em conversas de café a falar do que desconhece. Marinhais está a meia dúzia de quilómetros da Glória do Ribatejo e ambas têm um despique de mais de 50 anos com o fogo de artifício.
ResponderEliminarRecordo uma vez, miúdo e a fazer-me de forte mas algo assustado, após uma peça invulgarmente forte, de que senti a deslocação de ar, ter um velhinho ao meu lado, barrete ao ombro, calças de cotim de coz alto, que abriu a boca desdentada para comentar: isto é só fogo para mulheres.
Era esse o espírito e, neste anos todos, nenhum incêndio teve origem nos fogos das festas. Ignições, imensas mas logo dominadas, quer pelos bombeiros de prevenção presentes (gratificados) quer pelos muitos rapazolas que competiam no apanho das canas dos foguetes e, batendo com um simples arbusto, apagavam qualquer chama iniciada.
De acordo. Mas agora ponha-se no lugar da comissão de festas: pagou licenças, avisou bombeiros, pagou a pirotecnia. Ou seja fez tudo segundo a lei.
ResponderEliminarA ministra acagaçou-se, e azarinha. A lei é para cumprir, até ao momento em que já não dá jeito porque os jornalistas são chatos, e fica mal as tv's abrirem com fogos.
Se, eu estou de acordo, a pirotecnia é um risco enorme, então porque é que o governo não proibe, ponto final? Era mais simples, e evitava este tipo de tiranias
A "Defesa de Habitações contra Incêndios Florestais" como lhe chama, já existe na lei, nomeadamente através da obrigação, imposta a todos os proprietários, de limparem a vegetação em redor das suas habitações até à distância de 50 metros, de modo a criar uma faixa de segurança. Não é necessário qualquer plano municipal para isso.
ResponderEliminarImagino que tenha feito a sua parte.
Claro, ainda hoje comentei com uma pessoa próxima que faria mais sentido proibir o uso de pirotecnia durante o período crítico (Julho - Agosto - Setembro). Não faz para mim sentido proibir-se uma data de coisas durante o Verão e depois permitir-se uma actividade que, quer queiramos quer não, representa um risco acrescido de incêndio.
ResponderEliminarQuanto a esta parte "pagou licenças, avisou bombeiros, pagou a pirotecnia." - Entendo o raciocínio mas não altera nada daquilo que escrevi. Imagine - agora apenas para ajudar ao raciocínio - que o espectáculo estava marcado para esta terça-feira e que o alerta se mantinha mais 15 dias. O gasto tinha sido feito, o problema dos custos era exactamente o mesmo, com a diferença que agora já havia uma proibição em vigor. O que seria melhor fazer neste caso?
Caro anónimo liberal,
ResponderEliminarÚltima jornada do campeonato, tive a infeliz ideia de ir com o miúdo ao Pavilhão do Conhecimento.
Despachámos a coisa da parte da manhã e ala para casa para dar almoço à criança.
Segunda circular por volta do meio-dia já impraticável (por causa do futebol). Desviei caminho para a zona agora, pomposamente, chamada Alta de Lisboa. Uns radares no meio do deserto fizeram o resto do trabalho. Eu perdi 120 euros, o Moedas perdeu dois votos.
Caça à multa, devidamente, programada.
Mais conversa de mesa de café. Imagine uma estrada com lotes (resultado de divisões familiares ilegais mas toleradas pelos serviços) com áreas que podem ir de 300 a 800 m2. Na frente para a estrada, os proprietários capricham num muro com gradeamento, na divisão com os vizinhos os muros são mais raros, apenas valas ou muretes. Nas traseiras, muros são raríssimos e, quando existem são baixos, apenas para marcar limites. Todas essas traseiras extremam com uma área florestal da antiga propriedade mãe. E são essas áreas que são definidas no
ResponderEliminarClaro até hoje apagaram todas e ainda bem. Aos poucos vai-se consolidando a ideia de que conseguem extinguir os fogos todos. Um dia a coisa corre mal.
ResponderEliminarO despique entre localidades é normal em muitas regiões do país. É contudo um tipo de postura na qual não me revejo.
Quanto às considerações de ordem pessoal, nem vou responder, ainda para mais a alguém que escreve sob a capa do anonimato.
Caro Cumpridor da Lei
ResponderEliminarNão me diga que o radar o apanhou abaixo do limite. Devia reclamar. Eu tive sorte, só fui multado porque ia (conscientemente) em excesso de velocidade ou porque estacionei onde era proibido. Pronto, passei um vermelho... nao prejudiquei ninguém e tive o meu direito de não respeitar luz lampiã quebrado, mas lá paguei à mesma.
O resto é a Lei ao serviço da economia.
Também já andei em autocarros a fazer meia hora de manobras para fazer uma rotunda, tanto era o carro estacionado. Felizmente não havia caça à multa nessas noites, não fosse a malta da bola ficar mal disposta
Mas claro que o plano é para defender áreas urbanas e não para defender a floresta, pensei que isso estivesse claro. Porque o objectivo não é, nunca foi, evitar incêndios e sim evitar mortos (e danos patrimoniais, já agora).
ResponderEliminarA ver se percebi: acha que as autoridades não devem multar quem circula em excesso de velocidade, é isso?
ResponderEliminarRelativamente a esta parte "
ResponderEliminarNuma estrada com duas vias, sem casas, escolas ou barracas por perto, sem perigo de atropelamentos, com visão desimpedida, circular a 72 km/h não me parece excesso de velocidade.
ResponderEliminarRecordo que estamos a falar de um domingo às 12H15 sem, repito, sem trânsito.
Lá está, com estacionamentos abusivos, a impedirem a circulação de carros de bebé, cadeiras de rodas, acessos a garagens, etc, etc, etc devia haver não pesada e multas a doer, só que não é possível passar multas de estacionamento por radar, talvez com drones, fica a sugestão.
ResponderEliminarSim eu conheço a zona.
ResponderEliminarAdmitindo que essa velocidade que refere não é considerada excessiva, então a questão que realmente importa é esta: a partir de que velocidade é que se deve multar?
Claro que podemos deixar ao critério do agente autuante, o que obviamente abre espaço para todo o tipo de abusos, arbitrariedades e dualidades de critérios.
Gonçalo, a ideia de que porque está na lei se acabam os abusos, arbitrariedades e dualidades de critérios é uma ideia por demonstrar, como aliás o caso descrito ilustra, porque ninguém foi chatear os infractores do futebol
ResponderEliminarNão, não decorre, Gonçalo, porque em fenómenos em que se verificam relações de Pareto (20% das origens dão 80% dos efeitos e, neste caso, 1% das ignições dão origem a 90% da área ardida), a lei das probabilidades diz-te que a relação entre a diminuição das origens e a diminuição dos efeitos não tem a linearidade que descreves.
ResponderEliminarSim 1% das ignições dão origem a 90% da área ardida.
ResponderEliminarVamos pôr a coisa desta forma: em cada 100 ignições, 99 são apagadas rapidamente e 1 dá origem a um incêndio considerável (é uma formulação alternativa daquilo que escreveste).
Se houver 1000 ignições terás 10 incêndios de dimensão considerável e se tiveres 10000 ignições terás 100 incêndios.
A proporção mantém-se, não altera a relação de Pareto, mas quanto mais ignições houver, mais incêndios haverá.
O que não faz sentido é permitir-se actividades com elevado risco de incêndio com base no argumento de que 99 por cento das ignições não vão dar origem a nenhum incêndio. O problema, como bem sabes, não são essas 99, e sim a centésima.
Certo, não é por estar na lei que se acabam os abusos e as arbitrariedades. A própria lei é, muitas vezes, ambígua e propícia a interpretações variadas.
ResponderEliminarO que eu quis dizer é que se não houver qualquer limitação imposta pós lei, a margem para arbitrariedade é total, ao passo que se houver um referencial legal essa margem é menor. Por outras palavras, se não houver referencial nenhum, o agente aplica o critério que entender, mas se houver o dito referencial o agente fica mais condicionado. Pelo menos em teoria.
Sim, em teoria, o problema é que essa teoria tem uma implicação prática muito grande, que é do condicionamento da liberdade das pessoas completamente desproporcional para os benefícios obtidos, porque passas a pretender que a lei seja tão específica, tão específica, que inclui nela uma quantidade enorme de inutilidades, para não deixar escapar nada
ResponderEliminarAinda agora li um comentário do Paulo Fernandes a dizer que há uns anos fez uma análise sobre qual seria a redução de área ardida, tendo apenas metade das ignições. 10%.
ResponderEliminarMas o melhor é que Portugal reduziu as ignições em dois terços, reduziu mesmo, é a realidade, mas não tem qualquer efeito relevante na área ardida.
Ou seja, o teu raciocínio é lógico, mas não é verdadeiro (tem a premissa errada de que a redução de ignições se reflecte na redução de área ardida, quando a área ardida depende da disponibilidade de combustível e das condições meteorológicas e não da quantidade de ignições).
Repara que o conceito de estado de direito visa precisamente garantir que há leis iguais para todos.
ResponderEliminarO oposto disto é a "terra sem lei", situação que me parece indesejável.
Nota quem em lado nenhum defendi "que a lei seja tão específica, tão específica, que inclui nela uma quantidade enorme de inutilidades".
Uma das condições básicas para o reforço do Estado de Direito é a da sensatez na definição da lei.
ResponderEliminarEu estou de acordo, mas convém não esquecermos que a sensatez, tal como o bom senso, é algo de extremamente subjectivo.
ResponderEliminarNum país onde aquilo que os cidadãos esperam das autoridades é "tolerância", resulta que o conceito de sensatez é muito fluido, consoante dá jeito...
Se o Estado precisa das multas, por que não carrega no Verão (ou em altura de festa), em que o estacionamento é a la carte e os veraneantes desconhecem significado da sinalização? É o contrário, a polícia fecha os olhos por indicações superiores. A bem da economia. Do mesmo modo que o Moedas perdeu uns votos, muita
ResponderEliminarterrinha perdia turistas se o chaço ficasse com as rodas bloqueadas.
Apelos ao "bom senso" é o que faz o político quando um dos seus é caçado a infringir uma qualquer lei (que por ironia redigiu e aprovou). Isso e o "desconhecimento ". Ah, e o espírito em detrimento da letra.
ResponderEliminarNesses casos o tipico proletário abespinha-se porque dura lex sed lex, ou devia ser. Já quando lhe toca...
Eu não costumo usar a expressão "bom senso" para defender seja que posição for, e por uma razão muito simples: o conceito é demasiadamente subjectivo e cada um tem o seu referencial sobre o que é o bom senso.
ResponderEliminarHenrique, não li esse comentário do Paulo mas pensa lá comigo: se basta uma ignição para causar um grande incêndio, daqueles mesmo devastadores, então a redução das ignições para metade poderá ou não ter um impacto grande na redução da área ardida, dependendo se a ignição em concreto que causou o tal incêndio devastador faz parte do lote que desapareceu ou não. Isto vendo a questão na perspectiva probabilística (eu sei que isto tem uma grande componente determinística).
ResponderEliminarQuanto a esta parte "Mas o melhor é que Portugal reduziu as ignições em dois terços, reduziu mesmo, é a realidade, mas não tem qualquer efeito relevante na área ardida. Ou seja, o teu raciocínio é lógico, mas não é verdadeiro (tem a premissa errada de que a redução de ignições se reflecte na redução de área ardida,"
Entendo o raciocínio mas até que ponto é que essa redução de dois terços leva em conta a alteração da estrutura de combustíveis ao longo do período considerado?
Gonçalo, mas são exactamente esses os meus argumentos para dizer que o que é preciso é gerir combustíveis, tudo o resto, ignições incluídas, só servem para perturbar esse objectivo
ResponderEliminarEu sei, e concordo totalmente com a necessidade de se gerir combustíveis para evitar a propagação de incêndios. Subscrevo totalmente a visão que defendes acerca desse assunto.
ResponderEliminarTal não significa, porém, que devamos facilitar actividades potencialmente causadoras de incêndios numa altura em que se sabe que as condições são especialmente propícias à propagação e sabendo, como sabemos, que a gestão de combustíveis continua a ser um grande problema na maior parte do país.
A questão não é facilitar ou não as ignições, a questão está em saber se se obtêm melhores resultados coercivamente a partir de decisões de uma dúzia de pessoas que são executadas manu militarii, ou contando com a discernimento e adapatação às circunstâncias das pessoas.
ResponderEliminarQuando um paisagista chama combustivel a habitats da rede natura 2000!!!! Bem o mundo está perdido. Combustivel!!!! Combustivel sao estas palavras. Nao é porque sao ditas com um tom provocativo que passam ser validas. Precisamos todos de bom senso e nao de sensacionalistas.
ResponderEliminarCaro anónimo, bom senso é assinar o que se escreve e economizar nos pontos de exclamação.
ResponderEliminarA sua casa pode ser o combustível de um fogo, não deixa de ser a sua casa, nem deixa de ser combustível, é as duas coisas ao mesmo tempo.