Nestas discussões sobre fogo, há uma simplificação típica dos populistas, como Marcelo Rebelo de Sousa, que consiste em ter dez soluções miraculosamente simples para problemas complexos (o exemplo que me vem sempre à cabeça leva-me à ausência total de jornalistas nos vários passeios do fogo com organizados pela Montis em 2016, com vários das pessoas que mais sabem sobre o tema de cada passeio, e o batalhão de jornalistas que acompanharam Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Ladeira, o actual secretário de estado das florestas, num número totalmente inconsequente e pedagogicamente errado de arrancar eucaliptos no monte da Senhora do Castelo, em Vouzela, depois dos fogos de 2017).
A mais transversal dessas simplificações é a ideia de que o fogo é todo igual e o mato é todo igual, etc..
Um dia destes surgiu uma pergunta, a propósito de uma discussão absurda resultante do facto de alguém insistir que o que estava a arder na serra Amarela era o mesmo que tinha ardido há três anos, recusando a observação de que a intensidade de fogo que era visível ser incompatível com um fogo anterior há três anos (não quer dizer que é impossível arder o que tinha ardido há três, mas era incompatível com as características do fogo que se observavam).
Alguém pergunta então (tenho muita pena que raramente o jornalismo sobre fogos faça perguntas com esta pertinência): "Qual a diferença entre matos com 20 anos e matos com 4 meses? Não é matéria fina semelhante?".
A resposta curta de Paulo Fernandes mostra a distância entre ouvir quem sabe e ouvir quem não sabe: "É a diferença de <1 t/ha para >20 t/ha e além disso o mato novo tem mais água e nenhuma parte morta".
Qual a relevância disto?
É que havendo, dentro de alguns anos, condições favoráveis, em especial, ventos fortes e baixas humidades, durante uns cinco ou seis dias, é muito diferente a frente de fogo percorrer áreas com menos de uma tonelada por hectare de combustíveis secos, mas verdes, ou percorrer áreas com mais de 20 toneladas por hectare com material ainda fino, e parcialmente lenhificado.
Tudo o que se decida fazer até esses dias catastróficos que serão de todos e virão (parafraseando Jorge de Sena) que não responda a esta diferença, é perda de tempo.
Felizmente, como o nosso combate aos fogos tem vindo a degradar-se, acentuando as fragilidades decorrente da doutrina errada que continua a ser a nossa, todos os fogos que forem existindo até esses dias catastróficos vão fazendo, de forma socialmente menos útil, aquilo que não queremos fazer inteligentemente.
Mas a serra Amarela não é um local razoavelmente pastoreado?
ResponderEliminarEu diria que, dada a abundante presença de vacas nessa serra, os matos nela deveriam estar mais ou menos controlados.
Mas certamente que não conheço bem a questão. Quem a conheça melhor que me esclareça.
Eu ouvi-o ontem na radio obsevador, o programa foi interessante. Continuamos com um problema, os debates são bonitos, mas para o ano vamos debater tudo outra vez e lá vai o Henrique às TV's a chover no molhado.
ResponderEliminarDo Adrião:
ResponderEliminar"
Desconhecia que o curso de arquitectura paisagista tinha cadeiras sobre incêndios florestais. Mas como se licenciou em Évora, quem sabe..
ResponderEliminarAssume-se que Grécia, Espanha, Marrocos e Balcãs tenham o mesmo problema de gestão, não é exclusivo lusitano.
ResponderEliminarDe maneira geral, deito fora os comentários deste senhor, este aprovei-o para poder explicar duas coisas.
ResponderEliminarA primeira é que o que sei sobre o fogo resulta, em grande medida, de ter sido posto numa prateleira quando saí de vice-presidente do ICN, tempo em que aproveitei para tentar perceber por que razão nunca havia recursos para fazer gestão de biodiversidade, mas havia sempre recursos para a gestão dos incêndios, que eram uma questão marginal, do ponto de vista de conservação, na área protegida em que trabalhava (Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Ou seja, o que sei sobre fogos resulta do fogo ser um elemento modelador da paisagem, é a paisagem que é o meu Norte, não o fogo, razão pela qual vou sempre recusando a classificação de especialista em fogos.
A segunda é que já fiz o curso em Évora há muitos anos, depois disso passaram décadas, em que fiz e aprendi muitas outras coisas, incluindo fazer um doutoramento sobre a evolução da paisagem rural em Portugal continental ao longo do século XX, em cuja parte curricular até fiz a cadeira de fogos florestais (não sei qual era o nome certo da cadeira, mas era esta a matéria), dada por José Miguel Cardoso Pereira.
Assumo eu e boa parte das pessoas ligadas à ecologia do fogo, a generalidade das pessoas, mesmo as que lidam com a gestão do fogo, falam do minifúndio e do direito sucessório, de não se saber quem são os donos do terreno, da percentagem baixa de terrenos do Estado e outras coisas específicas de Portugal, mas tão, tão importantes, que fazem a Bulgária arder.
ResponderEliminarE o resto da Europa arde porquê?
ResponderEliminarPelas mesmas razões que fazem Portugal arder: abandono ou extensificação da gestão do mundo rural
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ResponderEliminarAnda toda a Europa equivocada. Pensei que fosse fruto do atraso português.
ResponderEliminarQue em Portugal fique tudo na mesma percebe-se porque somos uns atrasados e socialistas, mas o resto da Europa é igual? Ninguém limpa, ninguém gere.
ResponderEliminarNão sei se nós estaremos todos a assistir ao mesmo cenário, aos mesmos acontecimentos e na posse das mesmas informações. É que parece-me que falar de minifúndio e agricultura é abordar alguns dos factores que permitem o avanço e descontrolo dos incêndios rurais mas é muito redutor quanto a causas, que todos nós sabemos serem muitas, diversas e, claro, outras. Tratar destes assuntos ajuda mas decerto não resolve nada. Para tal, é preciso cortar é o mal pela raiz. O resto é pouco mais que conversa.
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