terça-feira, 1 de julho de 2025

Porque sobem os preços das casas?

Genericamente, os preços sobem porque a procura cresce mais depressa que a oferta.


A oferta cresce devagar porque o licenciamento é lento e incerto, porque a regulamentação de construção encarece as casas e porque o negócio de construção de casas a baixo custo é deficitário (entre outras razões, porque a regulamentação obriga a construir caro e a fazer desaparecer os terrenos que podem ser urbanizados).


A procura cresce porque há aumento da procura de novas habitações, incluindo a imigração de todo o tipo e porque as pessoas querem morar em circunstâncias melhores que os seus pais, para além do afunilamento do emprego em poucas cidades.


A que se soma uma indução da procura por parte de um sector do turismo pujante.


É muito frequente ler-se que os preços estão tão altos, que ninguém consegue comprar ou arrendar casas, um disparate monumental, porque para os preços subirem é preciso que haja compradores e inquilinos.


Talvez valha a pena, por isso, perder algum tempo a discutir esta procura, pondo de lado a tolice de que os preços sobem porque os donos das casas fazem o que querem (outro disparate, o dono de uma empresa é um escravo do mercado, não consegue fazer nada que implique não ter clientes).


Um dos problemas centrais na escassez de oferta e, sobretudo, numa oferta muito pouco transparente, é o problema da confiança: se eu não tiver a certeza de que ponho o inquilino fora se precisar da casa e que ele vai cumprir o contrato, perfiro não correr esse risco e mantenho a casa fora do mercado.


Ou, o que é mais vulgar, procuro um inquilino que me dê garantias que o Estado e o sistema de justiça não consegue dar.


Se tenho uma extensa lista de contactos e conhecimentos em meios com algum poder de compra e, frequentemente, com algumas casas, pode ser que esse conhecimento pessoal resolva o assunto, criando uma gritante diferença em relação aos mais pobres e, sobretudo, aos estrangeiros mais pobres, sem redes sociais de apoio (ou eventualmente, cujas redes de sociais de apoio são as máfias que os trouxeram e exploram).


Se sou muito rico, posso dar garantias materiais, mesmo que sejam informais por não cumprir a lei, e pagar rendas mais altas, criando uma gritante diferença para os que não são ricos.


Portanto, em primeiro lugar, um sistema opaco, com justiça lenta e poucas garantias para o dono da casa, tem como  consequência partir o mercado entre os segmentos altos e baixos, pressionando os preços para cima e levando ao desinteresse pelo mercado de segmentos mais baixos.


Do lado da aquisição, e passando por cima do problema dos terrenos em que se pode construir, a regulamentação de áreas, isolamento, infraestruturação, materiais e etc., que existe, tende a fazer com que as casas sejam caras, razão pela qual, se eu tiver os trocos para investir em construção de casas, vou apontar para os segmentos altos, esquecendo os outros segmentos do mercado.


Por fim, e não menos relevante, razão pela qual há muitos anos eu defendo a transferência da capital de Portugal para Castelo Branco, a macrocefalia do país, com forte concentração económica em Lisboa, Porto e Algarve, cria uma pressão desmesurada nessas áreas, porque as pessoas estão onde está o emprego (e investir em transportes, casas de renda acessível, serviços públicos, etc., para resolver esta questão, acentua o problema, não o resolve).


Mesmo situações relativamente simples (sublinho o relativamente) de pessoas que se reformam, poderiam vender a sua casa em zonas pressionadas e ir viver para zonas com melhor qualidade de vida, beneficiando da diferença de preço das casas (o que permitia a disponibilidade de um pé de meia muito catita), acabam por ter uma expressão mínima, dada a rigidez do mercado (os exemplos que conheço são de pessoas que sempre se sentiram exiladas nas grandes cidades ou pessoas que, perante a dificuldade dos filhos arranjarem uma casa, acabam por levar a sério a hipótese de ir viver para uma casa secundária, entregando a casa principal à família).


Uma das principais razões para não se controlarem preços de casas nas grandes cidades é mesmo pressionar as empresas a investir em escritórios e fábricas noutras zonas do país, o que lhes permite ter trabalhadores com muito melhor qualidade de vida com os mesmos ordenados, já que o preço das casas é substancialmente mais baixo.


O preço das casas tem subido muito, isso é bom porque nos torna, à maioria, muito mais ricos, mas tem um problema sério para o acesso à primeira habitação, só que impedir administrativamente a subida das rendas e das casas é a pior maneira de lidar com o problema.


Levar empregos para fora das zonas mais pressionadas, aumentar a oferta, diminuir a regulamentação que encarece as casas (incluindo a fiscalidade associada, mas não é esse o problema central) é incomparavelmente melhor como resposta ao problema que se pretende resolver.

13 comentários:

  1. Boa análise. O problema da habitação começa por ser um problema de ordenamento do território. Fora do litoral e 3 ou 4 cidades mais interiores, Portugal é como um grande deserto, abandonado, sem gente. Em muitas dessas zonas ainda existem casas "baratas", sobretudo para compra/remodelação, mas falta emprego, educação, boas vias de comunicação, acesso a cuidados médicos. Mas a resolução necessita medidas estruturais, não compatíveis com calendários eleitorais. E assim andamos nisto, em medidas de cuidados paliativos. 

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  2. Concordo totalmente com o post.
    A razão porque nos últimos anos o preço das casas tem subido muito rapidamente é que a "imigração de todo o tipo" também subiu muito rapidamente (as outras razões para a subida do preço mantiveram-se mais ou menos invariantes), fazendo aumentar a população total. Realço que a "imigração de todo o tipo" abrange tanto pessoas vindas de países pobres (tipo Bangladeche) como pessoas vindas de países ricos (tipo França), e abrange tanto pessoas sem nacionalidade portuguesa como também pessoas com nacionalidade portuguesa mas que até agora viviam no estrangeiro.

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  3. Com a crise financeira de 2010-2014 perdemos uma série de pequenos promotores imobiliários que construíam, essencialmente na periferia de Lisboa, vendendo a preços competitivos porque havia oferta e o credito era acessível. Juntou-se ainda a entrada em vigor a regulamentação sobre a certificação energética de edifícios que trouxe um aumento dos custos de construção.
    Presentemente quem constrói habitação são grandes empresas de construção, DST, Casais e por aí adiante... mesmo a habitação pública a "custos controlados" é adjudicada a estes empreiteiros. 

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  4. F. A. HAYEK in LA FATAL ARROGANCIA Los errores del socialismo

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  5. Um dos problemas portugueses é o da dispers~ao demográfica, a que se junta uma rede de transportes sofrível. Há pouco tempo andei pela Alemanha e fiquei abismado como qualquer buraco tinha uma Autoestrada (grátis) a meia dúzia de metros. Mesmo os centros urbanos, com excepção de Braga, têm perdido população. Um passo poderia ser descentralizar os serviços, mas é relembrar o que disseram quando o Santana o propôs (ou quando se teve a ideia de pôr o Constitucional em Coimbra).
    Faz-me impressão como por exemplo o Algarve não é um centro industrial. Milhares de camones nórdicos matavam-se para vir trabalhar para a borda da praia, com bom tempo o ano todo. Infelizmente o lobbying empresarial resume-se a Lisboa e Porto.
    Quanto a preços não sei causas certas. Materiais mais caros, inflação, mas não explica tudo. Procura?  Quiçá em Lisboa (que leva com imigrantes, migrantes, estudantes, turistas, e pessoas sem residência no concelho mas que trabalham lá), mas e em Coimbra, Leiria ou Viseu? As pessoas saem, e mesmo assim os preços sobem. Comprei nos arrabaldes de Coimbra (que já há 15 anos no centro ou parecido nem cheirava), hoje valeria nova o dobro... posso entretanto vender por 50% ou 50% mais, faço lucro... mas também fico sem onde morar. A não ser que vá para uma das terreolas bem longe.

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  6. Fora do litoral e 3 ou 4 cidades mais interiores, Portugal é como um grande deserto, abandonado, sem gente.


    Não é só Portugal, Espanha é a mesma coisa.


    Em Espanha há um movimento político, España vaciada, que protesta contra este estado de coisas.


    Das 10 maiores cidades de Espanha, 8 ficam no litoral (incluindo uma, Sevilha, que não é bem no litoral mas a 50 km por barco dele). Uma das que não ficam no litoral é Madrid, que no entanto é uma cidade com uma localização artificial.

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  7. Excelente análise! limpinha...

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  8. Analise fraca e errada aqui do corta xuxas.
    Na merdosa zona arrebaldes Lx onde moro e nas proximidades há cerca de 7 anos uma moradia em mau estado custava cerca de 130 mil euros , agora pedem 650 mil . isto nem sequer é especulação imobiliaria , é  palhaçada gananciosa asquerosa ! Quem arruinou a terreola foram os migrantes , antes deles a terreola lá ia funcionando...curiosamente,muitos dos agentes imobiliarios são imigrantes brasileiros e africanos e nao se importam de alinhar neste absurdo. Tambem,grande parte dos agentes imobiliarios são mulheres , os seus maridos sustentam a casa e elas andam nisto porque o investimento è zero , umas fotos nuns sites imobiliarios de listagem gratis e um deposito de gasoleo por mês e tá feito...dá cá 650 mil marmitas.

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  9. Não esquecer a inflação. 4% de inflação durante 10 anos é mais 50% no preço.

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  10. Um problema de que não se fala na construção é o aumento do custo do trabalho e a disponibilidade de trabalhadores, junto com a sua regulação.

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  11. Comprei casa há 20 anos, agora vale o triplo, é normal, a inflação em 20 anos assim oblige.


    A casa é grande, vivo sozinho, mas a casa é minha. Há tempos um comuna queria meter-me em tribunal porque eu não precisava de uma casa tão grande. Maldita esquerda, só cobiçam o alheio.

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  12. Se uma casa custa isso, é porque alguém está disposto a pagar esse valor pela casa.

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