A esquerda, por razões que eu não entendo, resolveu investir contra a construção de mais casas como forma de reequilibrar a oferta e a procura de habitação (enfim, abre uma excepção para a habitação estatal, sem perder tempo a explicar por que razão acha que o Estado é mais eficiente a fazer casas que os privados).
O argumento base é o de que o país tem casas vazias e portanto não precisa de casas novas (Tiago Mota Saraiva, um dos vocais apóstolos desta ideia, diz que é imoral ter casas vazias, a esquerda radical acaba sempre assim, a justificar moralmente o controlo que pretende fazer da vida dos outros, naturalmente contestando a moral burguesa, a única moral válida é a que os iluminados defendem em cada momento).
Sim, o país tem casas vazias e, se fosse possível pô-las todas no mercado, isso seria bom para aumentar rapidamente a oferta numa altura de pressão da procura.
Olhando para as casas vazias (vamos esquecer as subtilezas de saber da sua localização, da sua habitabilidade e do capital necessário para as adequar à procura e à regulamentação que existe), há duas grandes opções.
A opção moral da esquerda, favorável ao planeamento central e, portanto, cega à informação do sistema de preços, que diz que se há casas vazias, não são necessárias novas casas, os iluminados decidem que casas as pessoas querem e está o assunto resolvido.
É a opção habitual da esquerda que se recusa a aceitar que a propriedade é um direito humano fundamental (que inclui o direito da dispor da sua propriedade para os fins que entender), e que a segurança jurídica na defesa dos direitos de propriedade é uma condição sine qua non para garantir a eficiência dos mercados.
A opção pragmática dos liberais, mais atentos à informação que resulta dos sistemas de preços, que conclui que estando as rendas e os preços de venda elevados e, mesmo assim, muitos proprietários preferem ter casas vazias, então há riscos muito fortes que levam os proprietários a preferir perder rendimentos relevantes a pôr essas casas no mercado ou essas casas não satisfazem a procura que existe.
Aparentemente, do que se sabe, há dois problemas essenciais para que muitas dessas casas se mantenham vazias e os proprietários prefiram ter dinheiro debaixo do colchão a fazê-lo render (é isso que é uma casa vazia, dinheiro debaixo do colchão, com a vantagem dos riscos da inflação o desvalorizar serem mais baixos).
O primeiro é a inadequação da casa à procura existente (ter uma casa em Alcaravelas não responde à procura em Faro, ter uma casa grande sem elevador num terceiro andar não responde a grande parte da procura, ter uma casa que não tem possibilidade de responder à regulamentação sobre habitabilidade não responde a grande parte da procura, ter uma casa que para se tornar habitável exige investimentos que não conseguem ser remunerados com a renda possível, não responde à procura, etc.).
O segundo é o elemento central do capitalismo: confiança no mercado e no papel do Estado na defesa dos direitos de propriedade.
É a lei de bases da habitação que diz que mesmo que o meu inquilino não cumpra o contrato, eu não o posso despejar rapidamente e, nalguns casos, nem rápida nem lentamente, tenho mesmo de fazer de Santa Casa da Misercórdia, ser uma espécie de bombeiro voluntário, quer queira, quer não queira.
É a legislação geral do arrendamento que me impede (ou dificulta imenso) de fazer contratos de três meses de arrendamento, com a segurança de que, ao quarto mês, tenho a casa de volta de assim quiser, em menos de dois dias (ninguém confia que o sistema de justiça e policial esteja do lado do proprietário se o inquilino resolver não cumprir o acordado, ao ponto de garantir que a casa é despejada à força, se for caso disso, e o inquilino responsabilizado pelos prejuízos decorrentes do seu incumprimento contratual).
É a prática política que tem demonstrado que os governos de turno não têm o menos problema em não alterar a lei se isso for eleitoralmente favorável, como fez o governo de António Costa quando, perante um surto inflacionista, decidiu que, afinal, a legislação que regulava o arrendamento não ia ser cumprida para proteger os inquilinos (muitos eleitores, com apoio sistemático da comunicação social) contra os proprietários (pouco eleitores que a comunicação social trata sempre como especuladores sem escrúpulos).
Haverá sempre casas vazias, mais se os direitos de propriedade não forem sólidos, incentivando os donos a uma atitude de prudência que vai ao ponto de prescindir do rendimento para preservar a disponibilidade do capital, menos se os direitos de propriedade forem sólidos e o Estado não insistir na política demencial de pôr às costas dos proprietários a responsabilidade social de proteger os mais frágeis, no que à habitação diz respeito.
Os populistas de esquerda, esses continuarão a falar dos amanhãs que cantam, com base na ideia de que os direitos de propriedade são uma questão contingente e moralmente duvidosa.
Há outro ponto importante: quantas e quantas casas (e terrenos) estão encravados em disputas e imbróglios de heranças e afins? Especialmente nos centros das cidades, onde moravam os avós, e agora que os avós faleceram, e não se consegue um consenso entre os 8 filhos mais os 15 primos relativamente ao que fazer à casa?
ResponderEliminarJá que a novela das casas prossegue e o autor tenta convencer quem não partilha da sua crença pela exaustão, vou deixar um comentário, mais um.
ResponderEliminarEnquanto o autor continua na sua cruzada contra a esquerda, por essa Europa, em países que nem sabem o que é esquerda tomam-se medidas que o autor excomunga só por as ouvir. O flagelo de quem conduz em contramão nas autoestradas levou os especialistas do assunto a dar mais atenção ao mesmo.
Nunca dei para o peditório de esquerda e direita porque em ambas as correntes tenho concordâncias e discordâncias.
Assim sendo, continuo com algumas duvidas que a construção "livre", e ainda mais desejadamente "livre" pelos apoiantes, resolva o problema da habitação no que toca a compatiblizar o mercado com o nível salarial da população. Falo obviamente na maior parte e não na franja com rendimentos superiores. Até porque já referi num outro comentário a um post anterior, pessoas que são proprietárias porque o conseguiram no passado, hoje não o conseguiriam ser.
A exceção será a construção de habitação social, mas lá está, essa não será livre, mesmo que seja construída por privados, nada contra.
Aliás, sempre dependi e dependo do meu salário e não sei, nem vou saber, o que é trabalhar para o Estado, pelo que para que fique claro, o sector privado não me causa nenhuma comichão.
«A PROPRIEDADE É UM ROUBO»
ResponderEliminarJoseph Pierre Proudhon in TEORIA DA PROPRIEDADE
num prédio vizinho alugaram a casa da porteira e o inquilino não pagou 1 ano de renda
"... em não alterar a lei se isso for eleitoralmente favorável, como fez o governo de António Costa...".
ResponderEliminarSim, mas aparentemente ainda há quem pense que o pessoal se mete nos partidos políticos para resolver o problema da habitação ... dos outros.
Num país "profundamente" comunista como a Suécia, o estado é responsável por cerca de 40% da construção, e noutro país "perigosamente" comunista como a Áustria acontece o mesmo, só para dar dois exemplos. O resto do seu texto é de um anti-esquerda primário.
ResponderEliminarO Anonimo a quem nem faltam penas insinua que a habitação é diferente das bananas, como dizia o outro tolo? Sim, o proprietário fica mesmo com imóvel parado à espera que o preço seja o que pretende... mais um que tirou 19 a economia na Univ de Verão do Bloco.
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ResponderEliminarHá ainda outro ponto importante: muitas casas que parecem vazias são de facto casas de segunda habitação, isto é, casas que são utilizadas pelos seus proprietários mas somente ocasionalmente.
Podem nem ser casas de férias, podem situar-se no centro de cidades, e mesmo assim serem casas de segunda (ou até terceira ou quarta) habitação.
O grande problema é que não há um problema, há vários. Assim sendo, não há "a" solução.
ResponderEliminarNeste e noutros pontos de discussão, ou se ouve que o culpado é este, ou que este jamais será o culpado. Está tudo tão entranhado na sua bolha ideológica e verdades absolutas, que qualquer dissonância é tolice, utopia, ou pior, socialismo ou neoliberalismo.
A especulação imobiliária existe. É um problema. Único? Não. Prendendo os especuladores havia casa, pão e habitação, claro que não. Mas fazem parte do problema. Temos a questão da distribuição geográfica, praticamente metade da população em 2 zonas urbanas, mais migrantes (estudantes, trabalhadores registados noutros concelhos) e turistas.
Custo dos terrenos, custo de construção, taxas e impostos, dificuldades várias de financiamento e burocracia( conheço n empreendimentos parados ou porque falta dinheiro, ou porque falta licença, ou porque houve aldrabice) a nível de fiscalização.
Agora o problema é a gama baixa... bem, um casal que ponha em casa 2000 mês em teoria deve gastar 33% num empréstimo ou renda... há assim tanta oferta nessa faixa? Que não parece a baixa.
Há muita coisa a considerar, nem eu, ao contrário do escriba e comentadores, tenho aptidões técnicas para expor aqui a solução, mas tenho dúvidas que seja deixar o Estado pôr a mão, ou deixar trabalhar a mão invisivel.
Prometo ir olhar para a Áustria com mais atenção, mas quanto à Suécia, o tempo de espera para obter uma casa, em Estocolmo, tem cerca de 12 anos, se não me engano, pelo que existe um pujante mercado de subarrendamentos e esquemas manhosos que tal que prejudicam os mesmos de sempre: quem não tem dinheiro, nem contactos sociais adequados.
ResponderEliminarNovela é nos jornais e televisões. Crise da habitação. Só falta ser crise humanitária.
ResponderEliminarO autor não tenta convencer, limita-se a expor factos objectivos, sem preconceito ideológico.
Que países tão anti esquerda são esses e que medidas são essas? Mais factos, menos insinuações vagas, para isso já temos a SIC e o Público
O prédio dos meus pais, 28 fogos, terá menos de 50% de alocação. Migrantes, emigrantes... uns ainda alugam, outros fica a casa fechada.
ResponderEliminarNa república portuguesa o Estado é responsável por 100% da construção.
ResponderEliminarTudo tem de ser licenciado, permitido e pago (e "pago em envelopes") às câmaras municipais para poder existir construção legal.
Se eu tenho um terreno qual a razão para não poder construir nele? Qual a razão para o Estádio ter de vir chafurdar na minha propriedade privada e cobrar-me impostos?
Pelo contrário se eu for um okupa tenho todos os direitos e zero deveres.
Construo uma barraca no terreno do vizinho e aí, aí, aí, que o Estado tem de me dar uma casa porque o direito à habitação está na constituição.
Se a Suécia não fosse profundamente socialista (comunista rosado), assim com a Áustria, não tinham descido ao nível que deceram. E o seus amigos socialistas (comunistas rosados) não rinham sido corridos do poder como foram em ambos os países ...
ResponderEliminarQuando postar tenha em atenção a ortografia.
ResponderEliminarO problema está na lei, como sempre. Nos EUA, 90 dias sem pagar renda é despejo automático, não é preciso juiz nem tribunal, excepto se existirem danos patrimoniais.
ResponderEliminarNão percebo porque em Portugal tem que ser tudo lento, burocrata, um sem fim de problemas.
Aposto que se houvesse a liberalização total das rendas e justiça ágil para despejos em 2/3 dias, não faltavam senhorios a arrendarem casas.
De facto há muita coisa a considerar, no rol certissimo que elaborou, penso eu que faltou a justiça. Se calhar algumas casas até seriam postas no mercado de arrendamento se a justiça fosse célere e as leis não "obrigassem" os senhorios a arcar com as contingências da vida alheia.
ResponderEliminarO problema que foquei é a falta de capacidade dos salários suportarem os custos da habitação. Claro que será mais notório na gama baixa, como refere. O valor que apresenta implica ambos os membros do casal a usufruirem do salário médio de 2024. Tal significa que metade está abaixo desse valor. Voltando aos cálculos, temos uma renda de 660.
Não fiz uma pesquisa de mercado, e o que ouvi na televisão na sequência do caso de Loures é que 30 ou 40 m2, portanto um T1 a renda seria de 750, e eram casos singulares.
Quanto ao Estado por, ou não a mão, também acho que a mão invisivel que refere, resolve, mas para isso os dois "mercados" Salários e Habitação tem que estar compatibilizados, e o que se vê, é que não estão.
Se não sabe é porque as suas "fontes" são muito melhores do que as que referiu, se bem que as noticias dessas informações não se cingiram apenas às mesmas.
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ResponderEliminarTem toda a razão. Obrigado pela nota.
ResponderEliminarEra também bom que, quando postar, tenha em consideração os factos.
É necessário eliminar regulação. Taxas licenciamento, e energia a b e c, mais vistorias várias, só serve para encarecer.
ResponderEliminarLembra a boa e velha marquise.
ResponderEliminarNão pode fazer porque estraga a estética do prédio... agora não posso fazer no meu apartamento, pago por mim, por causa da estética.
Ou pintar ou alterar um edifício sem autorização do arquitecto. Porque ele "desenhou", portanto é dele eternamente.
Ou manter a fachada porque no seculo xvii alguem se lembrou que assim é que se fazia.
ResponderEliminarO prédio em que vivo, em dez fogos habitacionais, tem seis deles arrendados. (De onde concluo que, apesar de tudo, o arrendamento não é tão terrível assim para os senhorios.) Desses, cinco são de portugueses que vivem alhures (alguns dos quais compraram já só com a intenção de arrendar, sem nunca terem pretendido habitar o imóvel que compravam) em Portugal, e um de um diplomata que em tempos esteve colocado em Portugal, comprou a sua casa e agora, estando do outro lado do mundo, a arrenda.
Dos quatro fogos não arrendados, um é de uma pessoa que só o ocupa de vez em quando, pois passa metade da vida em Coimbra. O outro é de um reformado que, entendo eu, não teria necessidade nenhuma de viver em Lisboa, até porque tem casa nas Caldas da Rainha, que não é propriamente parvónia nenhuma.