terça-feira, 3 de junho de 2025

"Eu não entrei pela porta dos fundos"

José Sócrates é dos poucos políticos que acho que vale a pena ouvir, quase sempre (quando não é sobre as minudências dos seu processo judicial e sobre a injustiça que sofre todos os dias, bem entendido), de maneira geral interessa-me muito mais o que fazem os políticos que o que dizem mas, no caso de Sócrates, vale a pena também ouvi-lo.


Por isso fui ouvir a entrevista que deu à CNN um dia destes, uma entrevista muito interessante (apesar das minhas objecções à explícita combinação do âmbito da entrevista, que é uma entorse grave às boas práticas do jornalismo político, apesar de ser uma prática comum).


Com certeza Sócrates continua a ser Sócrates e nada do que diz pode ser tomado pelo seu valor facial, portanto, tudo o que diz respeito a factos, tem de ser confrontado com fontes independentes (por exemplo, é extraordinário que durante o tempo todo que fala sobre investimento público, não tenha surgido uma oportunidade para perguntar se o pedido de ajuda externa não teria resultado dessa opção, mas enfim) e toda a entrevista tem de ser ouvida em função dos seus objectivos políticos que, no caso, passam muito por responsabilizar António Costa pelo estado actual do PS.


Reconhecido o contexto, é uma entrevista notável, digo eu, que desde o tempo em que era conhecido como o "Zé das sobras", por Elisa Ferreira o ter como Secretário de Estado Adjunto e segunda figura formal do ministério, dentro daquilo que eram as regras do primeiro governo de Guterres, um governo de coligação PS/ Independentes que tinha como figura tutelar Jorge Coelho, mas não lhe ter entregado nenhuma das competências mais relevantes do ministério, sou um feroz e consistente crítico dos métodos políticos de Sócrates.


A corrupção é uma questão que deixo para os tribunais, embora me pareça o resultado lógico das opções de gestão política de Sócrates, aquilo que desde esse longínquo anos de 1996 me separa de Sócrates são mesmo as suas opções políticas e de gestão.


Isto dito, é evidente que Sócrates, como político, está muito, muito acima da generalidade dos políticos seus contemporâneos, sobretudo no Partido Socialista (em grande parte, porque ninguém será capaz de, justamente, o acusar de cobardia política, como ele não se cansa de lembrar aos outros que é aquilo que os caracteriza), tendo cometido o grande erro de subestimar Passos Coelho, um político do mesmo nível de coragem política, com a vantagem de ser um tipo decente.

13 comentários:





  1. Isto não se aplica somente a Sócrates, aplica-se à generalidade das pessoas.


    As pessoas mentem, e cada vez mais na atual era das redes sociais, onde toda a gente quer transmitir de si uma falsa imagem aos outros.

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  2. disse dos políticos do PS, principalmente Costa «

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  3. Duarte Nuno Ribeiro Pessoa3 de junho de 2025 às 12:52

    Por mais brilhante, interessante , acutilante , etc.,etc., que o discurso de Sócrates possa ser não o consigo ouvir ou ver. Enquanto não for julgado , seja então  condenado ou absolvido , o que ele diz não me interessa absolutamente nada. 
    Mal comparado , era como se estivesse a ouvir um brilhante cientista , daqueles com ideias invulgares e 'fora da caixa'  , mas fortemente suspeito de estupro de um menor

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  4. Confesso que não percebo em que medida Caetano Veloso, aos 40 anos, ter começado o seu relacionamento com a actual mulher, na altura com 13 anos, altera a qualidade da sua música.

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  5. Duarte Nuno Ribeiro Pessoa3 de junho de 2025 às 14:29

    Desconhecia esse relacionamento de CV que, presumo , deva ter sido consentido , não 'forçado'. CVeloso , 'roubou' um corpo e um coração . Não roubou - alegadamente- dinheiro que não lhe pertencia. Também não defraudou as pessoas que confiavam nele. Tão pouco as suas funções dependeram do voto popular. Qto muito dependeram e dependem do gosto popular. Depois , por mais que a Música possa alterar o destino dos seres humanos não o tem feito, ao que eu saiba , como o exercício da política o faz , que afecta directa e materialmente a vida de outras pessoas

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  6. Pena Socrates ser um estatista, foi o último pm com espírito reformista

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  7. Passos Coelho estava de mãos e pés atados pelos burocratas europeus e sindicatos de esquerda. 
    Mas falhou, por exemplo disse que ia acabar com institutos e não o fez. 

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  8. Como ele sabe fazer, qualquer um sabe.
    É muito fácil.
    É cortar a direito e não se importar com os "danos colaterais".
    Quem não puder, "arreia".
    Jamais irei perceber o fascinio por Passos Coelho.

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  9. E eu a julgar que o fácil é gastar o que não se produz oferecer tudo a todos despejar dinheiro que não há sobre os problemas sem os resolver fazer obras a crédito das gerações futuras enfim endividar o país e depois quando os credores dizem chega agora paguem o que devem, chamar o Passos Coelho que houver na altura para tirar o país do  buraco onde o enfiaram que é coisa afinal "muito fácil"...
    Estamos sempre a aprender ...

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  10. Sócrates e todos os outros são a imagem deste país quase milenar......Sem perdão

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