Fui finalmente ver, sem grande profundidade, mas com um enquadramento feito por uma das pessoas que colaboraram na exposição, uma coisa chamada "Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário. O Colonialismo Português em África: Mitos e Realidades".
A exposição vai estar no Museu de Etnologia até Novembro deste ano, portanto é natural que lá volte.
O problema começa com o objectivo da exposição: "desconstruir os mitos criados pela ideologia colonial, descolonizar os imaginários portugueses e contribuir, de forma pedagógica e acessível, para uma renovação do conhecimento sobre a questão colonial portuguesa".
É muito comum, nesta área da discussão sobre o colonialismo (a que, erradamente, se mistura frequentemente a discussão sobre a escravidão, coisas que nem temporalmente se sobrepõem assim tanto), que os investigadores abandonem a posição clássica de quem se interroga para compreender o mundo (o manifesto domínio da academia), para adoptar a posição de quem pretende contribuir para mudar a sociedade (o manifesto domínio da política).
É pacífica a ideia de que compreender o mundo pressupõe uma ideologia (por uma daquelas coincidências improváveis, o ex-marido da coordenadora da exposição era meu colega e antropólogo, conheço-o bastante bem, e lembro-me bem de ele citar um dos seus professores, penso que na Sorbonne, que insistia que não valia a pena ir para o campo sem uma boa teoria), e que a forma como tentamos compreender o mundo não é imune à ideologia que carregamos, mas reconhecer isto não é o mesmo que legitimar a interpretação ideológica do mundo que é característica da actual investigação sobre o colonialismo.
O que mais me impressiona é a simplificação da realidade a partir da chave interpretativa com que se parte, em vez de usar a chave interpretativa como reconhecimento de uma complexidade difícil de apreender sem ideias que nos permitam estabelecer padrões que possam ser discutidos racionalmente.
Um dos exemplos é a forma como tem sido usado o luso-tropicalismo na discussão académica sobre o colonialismo e os seus legados.
A mera existência do choque entre Silva Porto e Livingstone, muito antes de qualquer ideia de luso-tropicalismo (encontram-se em mil oitocentos e troca o passo, Gilberto Freyre nasce em 1900), incluindo a crítica do império britânico à ausência de ocupação real das áreas que os portugueses reclamavam como suas em África e a resposta portuguesa baseada nas suas alianças com os poderes locais, deveria ser suficiente para que a academia se deixasse de simplificações sobre uma realidade demasiado complexa para se meter numa quadro binário de interpretação colonial em que praticamente só existem colonizadores e colonizados, como se do lado dos colonizadores e do lado dos colonizados a realidade não fosse imensamente diversa e contraditória, ao ponto de invalidar qualquer chave interpretativa binária.
Se dúvidas houvesse, comparar a colonização do Congo Belga com a lenta percolação de comerciantes portugueses para o interior de Angola, com rara ou nenhuma protecção do Estado português, seria suficiente para que o discurso académico sobre a colonização europeia de África fosse um bocadinho mais complexo, para descrever realidades muito mais diversas que o esquema dominante baseado na rigidez da homogeneidade de colonizadores e colonizados.
O mesmo se pode dizer do lado dos colonizados, que estavam longe, muito longe, de ser uma mole imensa de explorados que mais tarde os movimentos anti-coloniais representaram legitimamente, pelo contrário, eram um enorme mosaico de sociedades e culturas em permanente relação, quer pacífica, quer violentamente confrontacional, que uma boa parte da investigação sobre o colonialismo trata como uma mera fonte de fornecimento de pessoas escravizadas pela violência branca.
A exposição vale a pena (não discuto a pertinência da relação entre as peças expostas, algumas muitíssimo bonitas, e os textos e ideias expressas, porque não sei o suficiente do assunto), o museu vale a pena, mas a historiografia de base (se é que se pode chamar historiografia a alguma da actividade associada à exposição, a julgar pelos resultados) é melancolicamente esquemática e encharcada pelo ar do tempo woke em que estamos.
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ResponderEliminarMuito bem!
ResponderEliminarSobre o que diz o Henrique, com quem concordo plenamente, acrescento e aconselho a todos os interessados e aos muitos desinformados, a leitura de um excelente livro que explica de modo isento, muita coisa: "Nos caminhos de África - serventia e posse" de Maria Emília Madeira Santos.
ResponderEliminarO papel dos "sertanejos" sendo fundamental. É um precioso livro de consulta.
ResponderEliminarO Chega a gradece a máxima difusão do "evento#" e, sobretudo martelar "ad infinitum" a fraseologia que o acompanha e "enquadra"...
ResponderEliminarJuromenha
Ex-marido?
ResponderEliminarOu companheiro à data do falecimento?
Provavelmente é confusão minha e não estamos a falar da mesma pessoa
https://www.publico.pt/2010/10/26/culturaipsilon/noticia/alfredo-margarido-um-homem-dificil-268080
É mesmo ex-marido que quero dizer
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