Rui Ramos, ontem, afirmava peremptoriamente que a actividade da empresa da família Montenegro "O que está em causa é isto: o agora primeiro-ministro, no ano em que se tornou líder do PSD, em 2022, teve uma empresa de consultadoria jurídica na área de protecção de dados, que facturou uma quantia improvável, considerando o tipo de serviços, o mercado português, e a dimensão e experiência da empresa. ... À vista do que sabemos, o agora primeiro-ministro parece ter sido contratado por empresas fora de qualquer racionalidade económica".
João Miguel Tavares, hoje, no Público, publica qualquer coisa que escreveu antes da hora do almoço de ontem (não acredito que João Miguel Tavares seja mentiroso, portanto terá de ter escrito antes do comunicado da empresa da família Montenegro e nas horas seguintes não teve tempo e disponibilidade para alterar o texto de acordo com o que está escrito nesse comunicado): "a Solverde respondeu: a Spinumviva factura todos os meses 4500 euros por um conjunto de "serviços especializados de compliance". Isso é o quê? A empresa não explica. Quem presta esse serviço? S empresa não diz. Não se conhecem funcionários nem gestores à Spinumviva para além do núcleo familiar do primeiro-ministro".
Do alto da mais evidente ignorância de João Miguel Tavares (que não faz a mínima ideia das implicações para as empresas do regulamento geral de protecção de dados) e de Rui Ramos (que não faz a mínima ideia de que não são serviços de consultadoria jurídica que estão em causa), os dois, e muitos outros, constroem um processo de intenções legítimo, mas que os caracteriza mais a eles que a qualquer outra pessoa.
O que se sabe hoje é que Montenegro fez uma pequena empresa familiar baseado nas suas competências profissionais e contactos pessoais (como qualquer pessoa) e, quando decidiu voltar à política activa, podia ter fechado a empresa ou podia fazer o que fez: afastou-se da empresa, contratou competência técnica a terceiros nas áreas em que a sua família não era suficiente, e foi à sua vida.
Eu faria o que fez Montenegro?
Não, não faria, mas não fazer o que fez Montenegro tem uma de duas implicações: 1) desistir de voltar à política activa; 2) prejudicar a mulher e os filhos, retirando-lhes a possibilidade real (provavelmente já estavam envolvidos na empresa, nas tarefas para as quais não era preciso a competência profissional de Montenegro, e tinham um pequeno grupo de clientes, provenientes do círculo social em que se moviam) de ir gerindo a empresa, aspecto tanto mais relevante quanto um dos filhos estava a acabar a sua formação em gestão.
Estes moralistas, com corações cheios de fúria e de amor, acham que prejudicar a mulher (onde andam as feministas?) e os filhos é um preço razoável a pagar para se entrar para a política (eu não acho, e por isso, das poucas oportunidades que tive de me dedicar à política, isso nunca foi uma opção séria) e, para sinalizar a sua virtude, fazem processos de intenções quando lhes faltam argumentos sólidos.
Parece que afinal a racionalidade económica existe e os preços cobrados são normais, afinal a empresa, depois de autorizada pelos clientes, explicou tudo o que tinha a explicar (incluindo a contratação de pessoas para resolver o problema de ter ficado sem o sócio que tinha capacidade para prestar serviços mais especializados), etc., etc., etc..
O que vai acontecer, não sei, mas o argumento de que um primeiro ministro não pode ter empresas é um argumento extraordinário (tão extraordinário que toda a gente acha ridículo falar-se do facto de Mário Soares ser dono de empresas privadas, ou Pedro Nuno Santos ser herdeiro de um grupo económico privado, o que Balsemão nunca poderia ter sido primeiro ministro e depois voltar, tranquilamente, para o seu grupo empresarial): o que um primeiro ministro tem obrigação é de as declarar e de se abster de tomar decisões que de alguma maneira se relacionem, de forma relevante, com os interesses ligados a essas empresas.
O que está em causa, manifestamente, não são conflitos de interesses, mas sim, combate político puro e duro, quer por parte dos adversários políticos (pode ser que os jornalistas tenham vindo a insistentemente a perguntar a toda a gente no PS por que razão não apresentam uma moção de censura, eu é que não dei por isso), quer por parte destes moralistas, com corações cheios de amor e fúria, sempre prontos para sinalizar a sua virtude para demonstrar que estão muito acima da esterqueira que acham que o país é (se calhar, com razão).
Se houvesse dúvidas, cá temos os mestres da intriga que o Observador abriga a levantar mais questões metafísicas sobre um não assunto.
Faça o que fizer Montenegro, isto vai funcionar como funcionou com Passos Coelho ou Cavaco, com as redacções dos jornais a fustigar permanentemente Montenegro, as mesmas redacções que nunca se incomodaram com o facto de um presidente de câmara em exercício (e potencial primeiro ministro) ser pago por uma televisão fortemente dependente do Estado, num valor de sete mil euros por mês (em direitos de autor, para ser formalmente compatível com a dedicação exclusiva camarária), para dizer umas larachas uma vez por semana na televisão, a mesma televisão em que o seu irmão, mais tarde, comentava alegremente casos judiciais que envolviam o irmão, na altura primeiro ministro, sem haver qualquer clamor sobre conflitos de interesses.
Até ver, os processos de intenções que partiam do princípio de que isto tudo era uma forma manhosa de Montenegro receber dinheiro de interesses privados, como Manuel Pinho, parecem estar a envelhecer muito mal.
Excelente texto HPS
ResponderEliminarO que se está a passar leva-me a pensar se este governo fez o mesmo que Passos Coelho fez ao Ricardo Salgado.
Dar um NÃO para salvar o BES.
Aqui seria para salvar grupos de CS, a começa pelo Imprensa, a RTP por causa dos anúncios e os outros por outra coisa qualquer.
É que nisto da política não há teorias de conspirações, há mesmo só conspirações
Concordo a 100%
ResponderEliminarMontenegro tem formação em compliance e protecção de dados.?
ResponderEliminarSe nesta altura ainda não sabe que sim, é mesmo porque não quer saber.
ResponderEliminarNão tenho seguido o caso.
ResponderEliminarNem sabia/sei se a empresa se limita a consultoria jurídica na área, ou técnica.
Excelente texto. A desmontar as narrativas marxistas anti pm
ResponderEliminarPode detalhar estas questões?
Por que razão concorda?
ResponderEliminarknow-howskills
ResponderEliminarO PM tem formação académica em direito de protecção de dados. Ou seja, está apto para dar consulturia jurídica.
ResponderEliminarMas é escrito
ResponderEliminar"Em concreto, através de colaboradores qualificados, a Spinumviva presta os
seguintes serviços:
● Identificação dos responsáveis pelos tratamentos de dados e verificação do
cumprimento das boas práticas;
● Aconselhamento para aplicação de medidas corretivas face a práticas em
desconformidade;
● Acompanhamento da evolução das orientações das autoridades de controlo e da
legislação, doutrina e jurisprudência relativa à proteção de dados pessoais, bem
como atualizar as práticas internas em conformidade com essas alterações;
● Dar resposta aos pedidos de exercício dos direitos e solicitações dos titulares dos
dados;
● Contactos com a autoridade de controlo;
● Elaboração de relatórios de análise e diagnóstico em matéria de tratamento de
dados pessoais relativos às áreas de cada empresa;
● Análise de tratamentos de dados pessoais no contexto laboral;
● Verificação da licitude do tratamento, lealdade e transparência, minimização dos
dados, limitação da conservação e segurança de clientes, alunos e trabalhadores
(consoante os casos);
● Elaboração ou revisão de documentos com vista a cumprir os deveres de
informação, tais como, por exemplo, Termos e Condições de acesso a plataformas
digitais ou espaços físicos;
● Avaliação de serviços de apoio ao cliente, com vista a garantir o cumprimento das
normas relativas à proteção de dados pessoais;
● Elaboração de recomendações quanto à utilização dos sistemas de CCTV;
● Análise de Plataformas e Softwares, tendo por base os princípios orientadores da
proteção de dados e as recomendações da CNPD;
● Identificação de entidades subcontratantes e verificação de responsabilidades em
matéria de proteção de dados;
● Elaboração de recomendações quanto à utilização de testemunhos de conexão
(cookies) e acompanhamento da implementação de ferramentas;
● Análise de questões relativas ao direito de imagem e elaboração de recomendações;
● Avaliação de pedidos recebidos pelo Encarregado da Proteção de Dados e respetivo
tratamento dos mesmos;
● Análise de Incidentes relacionados com a proteção de dados pessoais;
● Acompanhamento da evolução legislativa e adaptação, sempre que necessário, das
operações de tratamento de dados pessoais a novas exigências legais;
● Preparação de procedimentos relativos à criação de fichas de cliente, quer em loja
física e loja online, a avaliação do serviço de apoio ao cliente e as atividades
relacionadas com o marketing;
● Realização de auditorias, com vista a acompanhar o processo de conformidade dos
tratamentos com a legislação em vigor;
● Realização de ações de formação, presenciais e online;
● Análise de procedimentos relacionados com o tratamento de dados em contexto
laboral, tais como o controlo de assiduidade, seguros de saúde, imagem em
eventos, dados biométricos dos trabalhadores;
● Auxílio dos departamentos de informática, de publicações e edições;
● Elaboração e análise de Códigos de Conduta e Regulamentos Internos;
● Avaliação de implementação de Inteligência Artificial do ponto de vista da proteção
de dados;"
Finalmente temos PM.
ResponderEliminarEm vez de um político de carreira com zero conhecimento técnico, temos alguém com conhecimentos desde protecção de dados até AI.
Se realmente o grupo Solverde, com a sua dimensão, procura a empresa do PM para esta consultoria, 4.5k é preço de amigo.
Mais que Marxistas, isto é bem mais vasto que o ódio Marxista.
ResponderEliminarJá agora o nível de alienação do discurso publicado é tal que o apoio dos sucessivos governos á comunicação social - de diversas formas inclusive contratos - não é considerado conflito de interesses.
ResponderEliminarAcho sempre útil que se escrutine os detentores de cargos públicos. Até notei que se fizeram capas de jornais com a recente compra de duas casas pela família de Montenegro. Gostava de ter visto a mesma atenção, por exemplo, quando o então primeiro-ministro António Costa comprou, em planta, um apartamento de luxo num empreendimento cuja construção foi desbloqueada, anos antes, após a construtora queixar-se directamente ao então presidente de Câmara - que era António Costa.
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