sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Populista, disse ele

Parece que há dúvidas sobre o significado que atribuo a "populista".


Para mim, é uma definição simples: sempre que alguém pretende que para melhorarmos o desempenho social dos sistemas que temos, a solução é escolher os melhores, eu qualifico como populista.


A explicação para isto é igualmente simples: a ideia de que os resultados dos sistemas que temos são maus porque há grupos de pessoas intrinsecamente piores que outras leva, forçosamente, à distinção de um "nós" superior a um "eles" inferior, quando grupos suficientemente grandes de pessoas são essencialmente iguais.


Ainda recentemente tive uma discussão no post qualquer com uma senhora investigadora que se ofendeu com o facto de eu pôr os políticos no mesmo pé que os investigadores, os privados no mesmo pé que os servidores públicos e coisas que tais, argumentando que há uns grupos mais atreitos a comportamentos moralmente indignos que outros.


Por mais eficientes que sejam os mecanismos de decisão, como os que dominam na ciência, que se baseia na avaliação por pares, nada impede a possibilidade de haver pessoas venais nesses grupos, apenas as regras e a repressão podem dificultar, ou facilitar, o desenvolvimento de culturas onde a venalidade é pouco sancionada e, por isso, ter maior expressão (pretender que a avaliação por pares, necessariamente menos aberta e democrática, é instrinsecamente mais íntegra que a avaliação por eleições abertas, não faz qualquer sentido para mim).


Acresce que os mecanismos que dominam na investigação e na academia são feitos para garantir a integridade científica dos resultados, mas não dão garantias nenhumas de integridade em questãos não científicas, como a alocação de recursos, por exemplo.


Se as sociedades fossem formadas por anjos, os governos não eram precisos, e os governos são feitos pelas mesmas pessoas que existem na sociedade.


O grau de controlo e escutínio deve crescer à medida que o poder de afectar a vida dos outros cresce também.


Do que precisamos é de melhores regras e de mais transparência, à medida que o poder de uma pessoa sobre terceiros aumenta, não precisamos de melhores pessoas (até porque toda a gente, com excepção dos santos e anjos, é melhor ou pior consoante as circunstâncias).


Como me fizeram notar, a propósito do meu último post: "“If we insist that public life be reserved for those whose personal history is pristine, we are not going to get paragons of virtue running our affairs. We will get the very rich, who contract out the messy things in life the very dull, who have nothing to hide and nothing to show and the very devious, expert at covering their tracks and ambitious enough to risk their discovery.”.


Populismo, para mim, é achar que o que é preciso é escolher gente melhor, em vez de achar que o que é preciso é melhorar os processos de decisão e o contexto em que são tomadas as decisões.

11 comentários:

  1. Discordo que o actual governo dos EUA seja populista.

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  2. Tem razão. Talvez por isso, em Portugal, escolhe-se a ralé e o refugo em vez dos melhores, para gerir a coisa pública; dos jornais, aos políticos e funcionários...  Bem, pelo menos caiu-lhe a boca para a verdade. É positivo reconhecer o que se é. Parabéns. 

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  3. A aristocracia era devido á familia de onde nascias, não devido ao mérito.

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  4. A competição divide o mundo em bons e maus? Sempre a aprender

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  5. Divide entre vencedores e perdedores.
    No fim, os primeiros acabam a sustentar os segundos.

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  6. Sempre houve quem tivesse mérito de alcançar a aristocracia, matando, roubando ou comprando. Não é restrito aos genes.

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  7. há dúvidas sobre o significado que atribuo a "populista"


    Há um livro bastante bom sobre o significado desse termo: "Populismo, Lá fora e cá dentro" de José Pedro Zúquete (um cientista político).

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  8. Tenho-o, ainda não li, da vista de olhos que eu dei, duvido que esclareça o significado que eu dou à palavra quando a uso.

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