A discussão sobre uma mera alteração procedimental na lei dos instrumentos de gestão territorial (a passagem de solo rústico a urbano, que tipicamente é feito em complicados processos burocráticos que duram anos porque temos uma administração discricionária e arbitrária em que cada funcionário faz o que entende, passa a ser feita num processo simplificado totalmente controlado pelas Assembleias Municipais) tem sido exemplar na demonstração do que é a falta de qualidade do processo de decisão público e, mais ainda, de discussão no espaço público, em especial nas redacções dos jornais (nos comentadores encontra-se mais diversidade e bom senso que nos jornalistas, basta ler o que hoje escreve no Expresso Luís Aguiar-Conraria).
Comecemos por uma verdadeira indignidade a que a imprensa não dá importância nenhuma.
O Senhor Presidente da República promulga um diploma que considera uma entorse ao processo de planeamento mas, para justificar o facto de promulgar um diploma que considera errado (tem duas hipóteses, ou veta por ser inconstitucional, ou veta politicamente, se acha que é uma entorse), fundamenta-se numa mentira evidente, a execução do PRR, que não tem nenhuma relação com o diploma (eu não tenho pretensão de ensinar direito ao Senhor Presidente da República, até porque não é por ignorância que esquece a lei, é mesmo por indignidade, e na verdade a sua decisão não é um acto administrativo, portanto não tem de cumprir esta norma, mas seria bom que se exigisse aos mais altos responsáveis institucionais que cumpram o básico dos básicos na relação com as pessoas comuns: "A preterição da fundamentação do ato administrativo (no sentido de falta / ausência ou sua insuficiência) gera a sua invalidade, ainda que se discuta se a mesma se traduz na anulabilidade (artigo 163.º do CPA) ou nulidade (artigos 161.º, n.º 2, alíneas d) ou g) e 162.º do CPA)".
Pois bem, a imprensa primeiro repete esta evidente mentira como se fosse verdade e, quando a oposição resolve pegar nesta mentira para atacar o processo legislativo, negando que ela seja relevante (o que é verdade), a imprensa não se vira para o Senhor Presidente da República pedindo-lhe que explique por que razão resolveu invocar, oficial e formalmente, uma mentira como fundamentação para uma decisão sua, nem faz inflamados artigos de opinião realçando que a degradação das instituições é, em grande parte, a normalização deste tipo de actuações por parte dos responsáveis pelo bom funcionamento das instituições.
Deixemos agora de lado esta chuva dissolvente que Marcelo Rebelo de Sousa tem vindo a aspergir pelas instituições e olhemos para a forma como o jornalismo trata este assunto, partindo da inacreditável peça em que Rafaela Burd Relvas resolve expor a sua ignorância económica hoje, no Público.
De acordo com a grande economista Rafaela Burd Relvas, o jornal Público tem um preço de capa especulativo, porque o preço do Público está acima da mediana do preço dos jornais.
É exactamente isto que a Senhora Rafaela Burd Relvas defende hoje numa peça de duas páginas em que confunde a mediana do mercado com o valor de mercado, em que esquece que a mediana da venda de casas inclui a venda de casas usadas e não é a mediana da venda de casas novas, em que confunde preços de referência com tectos máximos de venda de casas e, sobretudo, acha que o preço das casas reais que são objecto de transações reais é definido pelo tecto máximo de um diploma legal e não pela lei da oferta e da procura.
A ideia de que em Guimarães as casas vão aumentar porque o tecto máximo de venda de casas prevista na lei que permite aumentar a oferta está acima da mediana do mercado real é uma ideia genial, ao mesmo nível da afirmação, peremptória, de Pedro Bingre do Amaral, no debate em que estive na Quarta-feira, de que a terra é o maior monopólio, portanto não se lhe aplica a lei da oferta e da procura.
Vender imóveis novos a preços mais altos que a mediana dos preços de vendas reais, que incluem imóveis usados, de acordo com Rafaela Burd Relvas, uma jornalista de referência de um jornal de referência, é a definição de especulação, não a criação de artificial de escassez para obter preços mais altos, como insistem, erradamente, os manuais de economia.
Com Presidentes da República e jornais assim, como raio se pode pretender que a qualidade das políticas públicas seja elevada?
Faltaram as aspas na frase: «
ResponderEliminarUma activista num "jornal" d activistas...
ResponderEliminar
ResponderEliminar
ResponderEliminarNunca percebi porque, como, ou quem e quando se podem impor preços.
Ou sequer oferta e procura... pessoalmente, sendo filho único, e tendo avós e pais cada um com habitação própria, serei num futuro (não tão próximo) um proprietário em triplicado, cada um no seu poiso. Terei obrigação moral, material ou legal de pô-las no mercado? E se sim, quais? Consoante as minhas necessidades egoístas, ou tenho de analisar qual a oferta global em cada uma?
O imobiliário em Portugal, na prática (ou práctica, como agora alguns eruditos escrevem) não percebo como funciona, não propriamente pelos preços ditos especulativos, mas pelo facto dos imóveis serem vendidos a tais preços, sendo que em Lisboa (que é o que interessa, e todos os péritos estudam) talvez haja os vistos gold, o grande capital e uns oligarcas russo-árabes, mas no país rural provinciano, os compradores são cidadãos da dita classe média. Ou isso dos baixos salários é uma falácia,e realmente a malta aguenta, no verdadeiro sentido (até porque os bancos estão mais restritos nas taxas de esforço), ou anda para aí muito granel e um dia a bolha rebenta.
Como não tenho os fundamentos académicos na área nem da jornalista, nem do blogger, resta-me a dúvida. E tentar pagar a minha, que dizem-me valer o dobro do preço de compra (também eu especulo à minha maneira).
Quem criou escassez, nesse caso, foi o metro ao aumentar a procura sem aumentar, correspondentemente, a oferta.
ResponderEliminar
ResponderEliminarTem toda a razão, hps.
ResponderEliminarMais um anónimo a quem só as penas faltam. Nunca leram um livro de economia, limitam-se a ver o wiki (e duvido que percebam o que lá está), depois põem-se a corrigir quem sabe da poda.
Escassez artificial?
ResponderEliminarMas se com a chegada do metro houve (claro) nova construção, o que tem uma coisa a ver com a outra? Houve um afluxo de interesse de ou zonas do sul sem acesso ao metro, ou de gente que preferia viver a sul agora que não dependia das pontes, claro que os preços dispararam entre o que era um "descampado" (eufemismo) e passou a ser uma zona a 10 minutos do centro do Porto. Não tem nada a ver com ofertas, a zona tornou-se mais desejável, por isso mais cara (atéporque passou a atrair gente com mais dinheiro). Quem tinha casa, ou construiu entretanto, limita-se a deixar o tempo passar até à valorização máxima. Isso é a definição de especulação. Claro que os socialistas defenderiam o proprietário vender o mais cedo e barato possível, mas infelizmente para eles isto ainda é um país mais ou menos livre
No caso não é escassez artificial, é real: a procura aumentou mais rapidamente que a oferta, criando escassez (sim, é um processo comum quando se infraestrutura uma área que não as tinha).
ResponderEliminarQuem achou que isto ia acontecer e tinha capital para isso, comprou, esperou que a escassez se materializasse na subida de preço e vendeu.
Há quem chame a isso especulação, mas em rigor, não é, embora eu compreenda o uso do conceito em casos como este.
Aqui pode ver o valor de uma casa e a sua valorização, 100 mil euros de 2004, p.e., hoje são 140 mil.
ResponderEliminarhttps://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ipc
ResponderEliminarAbuso em área classificada?. Porque será que a Câmara (de Lisboa) se intrometeu, de forma inexplicável, a expropriar/destruir património em zona histórica, (por um valor óbviamente forçado), para construir (mais) uma madrassa islâmica?. Para ganhar alguma uma comissão?.
No meio de uma cidade que até já tem várias (sempre desequilibradoras do tecido social europeu) madrassas?. Ali aonde para mudar um telhado é um ai Jesus?. A Câmara de Lisboa apenas deveria anuir, ou não. E claramente que não.
Porquê essa doentia dupla doentia intromissão numa situação que só agravará o, já frágil, equilíbrio social na cidade?.
Hoje um gueto, amanhã uma fortaleza islâmica, como por essa Europa fora, e com as conhecidas consequências.