sábado, 23 de novembro de 2024

Um jornalismo militantemente irrelevante

Esta peça do Observador sobre o que eles chamam uma "guerra de números" entre o PS e o Governo é exemplar como ilustração da responsabilidade dos jornalismo na desvalorização do jornalismo.


Não, não é um problema de incompetência ou militância desta jornalista em concreto (que não conheço), é uma opção de desvalorização do papel de editor, isto é, de verificação independente de aplicação dos critérios jornalístico definidos pelo jornal antes de publicar alguma coisa.


A história é simples de contar: o Governo apresenta uns números sobre uma coisa, a oposição não gosta dos números e diz que são manipulações, o Governo diz quais são as suas fontes e sugere aos jornalistas que perguntem à oposição quais são as suas fontes e os jornalistas limitam-se a transmitir este ping-pong sem se dar ao trabalho de fazer aquilo que as pessoas esperam que o jornalista faça: avaliar as declarações de uns e outros, perguntar-lhes onde estão as fontes verificáveis do que dizem, consultar essas fontes, e concluir o que há de verdadeiro e obscuro em cada um dos lados.


A menos que eu tenha acesso fácil às fontes de uns e outros (e que perceba o que estão a dizer), eu, leitor, não tenho grande maneira de saber, com alguma segurança, quem anda a brincar com os números e quem está a ser sério.


Formei uma convicção: se o Governo diz estes são os números, a fonte é esta e podem verificar, e o que o PS diz não se percebe, acha que não é assim, que o governo está a aldrabar, mas não diz exactamente o que está certo ou errado nos números, o mais natural é que o Governo esteja a ser sério e o PS esteja a ser fiel a uma escola de mistificação da realidade que tem uma longa tradição no partido.


O problema é que esta minha convicção está fortemente influenciada pelo facto de conhecer Fernando Alexandre e Alexandre Homem Cristo há muitos anos e nunca os ter visto a fazer manipulações grosseiras de números, e também conhecer Alexandra Leitão há anos suficientes para não acreditar numa única palavra do que diz, sem confirmação prévia por fontes independentes.


Só que isso não garante nada, numa situação concreta os primeiros podem estar errados e a segunda estar certa, é por isso que preciso do jornalismo, para que, por mim, porque tem melhores instrumentos que eu para isso, vá validar o que é dito por uns e outros no caso em concreto.


A jornalista não o faz, não percebo porquê, e não há um editor no jornal que lhe diga que esse é o seu trabalho, ouvir uns e outros é apenas um passo intermédio para melhor poder fazer esse escrutínio, não substitui o escrutínio.


Ou seja, uma peça comprida, cheia de diligências mas que, no essencial, é inútil, ou pelo menos, muito menos útil do que poderia ser se a jornalista estivesse perfeitamente consciente de que o papel do jornalista não é ouvir pessoas, é escrutinar o que ouve das pessoas.

20 comentários:

  1. Frase ouvida "en passant" :  "...em Portugal vendem-se mais jornalistas que jornais..."
    Juromenha

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  2. Todos temos convicções. 
    Aka, a nossa verdade

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  3. Mas percebeu que o post diz que é exactamente por isso que é preciso que o jornalismo faça o seu trabalho, ou o comentário é só mesmo para não estar calado?

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  4. O post está longe de dizer isso.
    O jornalismo só faz o seu trabalho quando confirma as convicções. Ao contrário,  é de desconfiar. Até porque 

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  5. O jornalista poderia dizer que x diz y e basea-se em...  e que @ diz % e basea-se em ...
    Não dizem porque já há muito não fazem jornalismo, a maioria provavelmente nunca o fez.

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  6. Com poucas excepções, de um modo geral temos um jornalismo que não busca a Verdade nem faz uma avaliação criteriosa dos factos, porque não quer pôr em causa a esquerda. O problema é que temos um jornalismo militantemente de esquerda e este coro uniforme barra e impede o contraditório     «

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  7. Recentemente tive oportunidade de confirmar o esforço que está a ser feito para assegurar professores no ensino público. Jovens licenciados estão a ser colocados sem a preparação minima, na minha modesta opinião, em turmas de 5º e 6º ano sem terem adquirido ainda qualquer competência pedagógica. Provavelmente já se fez no passado, ou sempre se fez, mas pela primeira vez me deparei com um caso concreto. O docente foi entregue aos miudos sem ter passado sequer por uma "formação de formadores" e a nova licenciatura que está a fazer para a área do ensino ainda não lhe deu as ferramentas pedagógicas (para além do manual do professor da disciplina), que virão numas cadeiras mais à frente do curso, disse ele, justificação essa que o limitou às turmas de 5º e 6º ano.
    Como este existem vários, jovens que se licenciaram em áreas onde não encontraram colocação ou não viram na sua área a satisfação laboral que esperavam, algo perfeitamente normal, eu próprio passei por isso até estabilizar na atual função.

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  8. Evidente que o jornalismo actual não investiga, não contacta todas as partes interessadas, não é isento ou factual, limita-se a servir de repetição para a narrativa vigente. Qualquer pessoa com espírito crítico e um browser de internet percebe o que são. Felizmente a classe intelectual não acéfala e nao vendida aos interesses do marxismo ainda se faz ouvir através de blogs e podcasts

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  9. Se cada um com a sua verdade, então não há verdade nenhuma, porque ela tem mil formas moldáveis que se adaptam a cada um. e a todos conforme o gosto. Então a verdade, em si mesma, é uma inexistência, uma ausência, o que configura a negação da Verdade e do seu valor Moral. Estamos, pois, a pisar no território perigoso do "Relativismo Moral", da amoralidade que conduz ao nihilismo das sociedades abúlicas que em nada crêem,  indiferentes junto ao precipício.   

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  10. O texto que se segue _sobre o estado do nosso jornalismo luso (mas não só) _ devia ser de leitura obrigatória:


    https://observador.pt/opiniao/so-santos-na-esquerda-e-diabos-na-direita-nao-sejas-iliberal-sem-saber-amplia-a-alianca/

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  11. É o que eu digo sempre nos seus comentários. Só lhe faltam mesmo as penas para ser ... BURRO; e/ou, então, tem má fé, que é pior ainda que ser BURRO ...

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  12. Claro que sim. Só pode ter um problema cognitivo. 
    Não perceber o compromisso para com o leitor só advém de acefalia profunda, que pode ter causa biológica ou sociológica, fruto de uma doutrinação forte e prolongada.
    Os jornalistas falham em não colocar,  mas também quando colocam falta a análise de credibilidade. 
    Felizmente o jornalismo popular, que o legacy media tanto tem feito por descredibilizar,  veio para ficar.

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  13. A situação de hoje é preocupante e tende a agravar-se, pela falta de professores que se prevê no futuro próximo. E como em tempo de guerra não se limpam armas,  torna-se urgente resolver o problema a nível imediato, com as soluções possíveis. É uma situação quase de emergência.  Há muitos jovens com licenciaturas com salários muito baixos ou desempregados e que podiam ser aproveitados e aliciados para o ensino, com uma remuneração atractiva e progressão na careira. Por exemplo, os de Jornalismo, de Comunicação ou afins teriam preparação técnica para dar aulas de Português. Os de Arquitectura para Geometria, etc. Era uma questão de se ver as correspondências possíveis .entre os vários Cursos existentes e as disciplinas a leccionar nas escolas. 
    Nada disto é inédito, pois foi assim que se fez no passado, logo a seguir ao 25/ Abril. Hoje, bastaria uma formação pedagógica e o precioso acompanhamento inicial (apoio directo em sala de aula) dos professores da disciplina que estivessem em pré-reforma. Julgo que em pouco tempo estes jovens licenciados estariam aptos. A competência pedagógica advém também da experiência que se vai acumulando, como em tudo. É preciso ser-se criativo para se encontrar soluções. Esta seria uma solução possível de emergência que inclusive  contribuiria  para o rejuvenescimento da classe docente.
      

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  14. Sem tirar nem pôr.  Haja quem diga a verdade 

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  15. Isso já existia. E Já agora não é só na escola, nas universidades também. 


    Há pouca materia prima com qualidade só importando professores de outras paragens.  O regime não está interessado em qualidade, está interessado em comprar votos.

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  16. O 25 de Novembro será pela primeira vez celebrado na Assembleia e continua a dividir os partidos. Muitos nem saberão bem o que se passou nesse dia e qual a sua importância. Um triste sinal dos tempos.


    Rádio Observador - Contra Corrente entre as 9,15 e as 11h
    25 nov. 2024, 08:12

    https://observador.pt/2024/11/25/porque-faz-sentido-comemorar-o-25-de-novembro-ligue-910024185-e-entre-em-direto-no-contra-corrente/

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  17. Todos formatados pelas Tvs,rádios e jornais--------  Exactamente, na semana passada os programas de rádio da antena1 e tsf sobre o 25 de Novembro confirma(se tal fosse preciso) isso mesmo. 

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