Montenegro disse qualquer coisa sobre o facto do aumento estatístico dos casos de violência doméstica poder resultar mais de um maior reporte que de um aumento do problema.
É uma afirmação perfeitamente banal, pode estar certa ou errada, mas em qualquer domínio da produção de informação se pode admitir que as alterações aos números reportados se podem dever a alterações de substância ou a alterações de reporte (e, por isso, é fundamental manter registos com a mesma base, sempre que é possível, para que possam serr comparáveis).
Os profissionais da indignação, por exemplo, Pedro Nuno Santos e Mariana Mortágua, rasgaram as vestes, que era inaceitável dizer isto e uma falta de respeito pelas vítimas (como se os problemas das vítimas de violência doméstica fossem o que dizem os políticos).
O que acho extraordinário é que Pedro Nuno Santos e Mariana Mortágua, cada um à sua maneira, são responsáveis políticos há tempo suficiente para terem uma quota parte de responsabilidade no governo do país, o que significa que se acreditam que o fenómeno da violência doméstica está a aumentar, isso não é da responsabilidade do governo mais recente, nem dos governos anteriores (os governos não determinam a evolução da sociedade, é a evolução da sociedade que determina os limites do poder dos governos), mas seguramente todas as políticas de combate ao fenómeno, pelas quais eles são parcialmente responsáveis, falharam no seu objectivo de limitar e, se possível, diminuir o problema.
Felizmente, o número de mortes relacionadas com violência doméstica, um indicador menos dependente da percepção do problema e das queixas, não parece dar razão aos profissionais da indignação.

E que tal se ganhassem juízo e preocupassem mais com a realidade que com os discursos?
ResponderEliminarExatamente.
Atualmente o número de mortes anda na ordem das 20 por ano. Aqui há uma dezena ou duas de anos era da ordem do dobro (coisa que infelizmente não se vê no gráfico apresentado neste post, mas que é minha perfeita recordação).
É como as mortes em desastres rodoviários, que todos lamentamos mas que, felizmente, são hoje um quarto das que eram há cinquenta anos.
Como foi referido numa crónica no Observador, por um temerário advogado (temerário porque o tema é delicado, e se expõe a este tipo de respostas demagógicas), grande parte do incremento nos casos reportados de violência doméstica deve-se ao facto de essa alegação (mesmo sem quaisquer indícios, para lá das declarações da alegada vítima) ser um método muito comum nos processo de regulação de responsabilidades parentais subsequentes a divórcios e separações para evitar a regra (imposta, e bem, pelo legislador) da residência alternada - e eu acrescento, para ficar com o uso da casa de morada de família (e, infelizmente, ainda se alega pior).
ResponderEliminarConcordando com o comentário anterior de JPT, as denúncias às autoridades dependem muito de vantagem ou desvantagem que se espera obter. Pela negativa, tenho mais de 50 anos de experiência de fogos postos, pequenos furtos e acampamentos ilegais. Depois da 5ª ou 6ª queixa que tinha de confirmar por escrito com a respectiva perda de tempo, para depois ser convocado ao posto da GNR para tomar conhecimento que "apesar das diligências efectuadas não fôra possível identificar os alegados prevaricadores" e uns meses depois ser convocado à delegação do ministério público junto do tribunal da comarca para tomar conhecimento de que o processo ia ser arquivado, é claro que nunca mais apresentei uma queixa nem em caso de fogos nem de furtos.
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