sexta-feira, 15 de novembro de 2024

A estranha natureza humana

Fiz um post pequenino só porque fico mesmo contente que a parte do IRS que as pessoas podem aplicar directamente em organizações de que gostam passou de 0,5% para 1%.


Ou seja, o Estado deixou de dar destino a 99,5% do IRS, para passar a dar destino a 99% do IRS.


Ainda assim, o Estado tem uma larga influência em quem pode ser o destinatário dos anteriores 0,5% e actuais 1%, porque só organizações reconhecidas pelo Estado como merecedoras desse dinheiro o podem receber (o Estado reconhece a sua utilidade pública).


Com esta medida, uma organização que em Castanheira de Pera conseguia angariar 50 euros por ano com o IRS de pessoas que a escolhiam, passa a receber 100 euros, e uma organização semelhante em Cascais, que conseguia angariar 5 mil euros, passa a angariar 10 mil.


Não pode ser, talvez a organização de Castanheira de Pera seja muito melhor que a de Cascais, mas a de Cascais conhece gente muito mais rica, e portanto é muito mais beneficiada, o que é injusto, diz-se nos comentários ao meu post rejubilatório.


A medida tomada não tem como objectivo premiar a perfeição, a medida tomada só tem como objectivo transferir um bocadinho mais de poder na definição do destino dos impostos (calcula-se que cerca de 40 milhões de euros, mais coisa, menos coisa) do Estado para as pessoas concretas.


Ou seja, a opção feita atomiza as decisões (em vez de uma decisão de afectação de 40 milhões por parte do Estado, existem milhares de pequenas decisões individuais sobre o destino a dar a esses 40 milhões) e daí resulta que as instituições que consigam convencer mais gente da bondade do que fazem, conseguem depender menos do Estado e mais das comunidades com que trabalham.


No exemplo dado, duas organizações passam a ter mais dinheiro menos dependente do Estado e o Estado tem de diminuir a sua despesa para se adaptar à perda de receita.


Claro que uma diminuição de impostos seria muito melhor que isto, porque corresponde a deixar mais dinheiro das pessoas no seu bolso, que usam para o que realmente quiserem, só as pessoas que achem que o Estado sabe melhor que cada pessoa como gastar dinheiro é que ficam incomodadas com o facto do Estado prescindir de receitas para que as pessoas tenham mais recursos disponíveis (o que é o mesmo que ter mais liberdade, convém lembrar os distraídos).


"Já se olhassem de perto o que tais beneméritos fazem provavelmente apanhavam um susto. Transparência então é tanta como uma manta de Monsaraz".


Este é o outro argumento contra a medida, o de que as pessoas terem o poder de usar os recursos que são seus, em vez de os entregar ao Estado para cuidar melhor de todos nós, é uma coisa horrível porque talvez haja quem abuse da situação.


O argumento da transparência é um argumento verdadeiro, mas é o Estado que, tendo tutela sobre o reconhecimento da "utilidade pública" das instituições destinatárias, se perde em burocracias idiotas no reconhecimento dessa "utilidade pública" e não cumpre o seu papel de garantir e escrutinar a transparência das instituições.


Acresce que por serem as pessoas a decidir onde aplicar o dinheiro, tem, cada pessoa, a possibilidade de avaliar essa transparência e decidir de acordo com a sua opinião sobre essa transparência, sendo natural que as organizações mais transparentes sejam as que conseguem criar mais confiança nas pessoas.


Ao contrário do que aconteceria se os mesmos 0,5% do IRS permanecessem no Estado, conhecido e reconhecido pela sua falta de transparência na afectação de recursos.


O que está em causa é simples: ou se confia nas pessoas e se acha que é bom que as sociedades e instituições sejam livres e dependam das relações de confiança que conseguem estabelecer com as comunidades que servem, ou se considera que o só o Estado garante o bem comum.


Eu estou contente por haver um governo que achou melhor diminuir a sua percentagem de controlo do IRS de 99,5% para 99%, com certeza por entender que há vantagem em que as pessoas comuns se organizem de forma autónoma para garantir a "utilidade pública" na aplicação dos impostos.

8 comentários:


  1. Muito bem escrito. Assertivo e factual, não há como discordar.
    Pena é que em vez de 1% não sejam 10%, e entregues às comunidades (não Câmaras nem ONG ou Institutos, mas às pessoas), que decidiriam o destino a dar.

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  2. Claro.


    Da mesma forma que, por exemplo, nas deduções fiscais de gastos para tratamentos de saúde o Estado pode decidir que um tratamento de medicina tradicional chinesa é um gasto em saúde, mas um tratamento de medicina ayurvédica ou a compra de um frasco de banha de cobra não é.

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  3. No geral, infelizmente, os portugueses lidam mal com a liberdade de escolha e com a responsabilidade pessoal que lhe está associada. Preferem que seja o Estado a decidir por eles. Esta atitude revela infantilidade e até cobardia perante a vida...

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  4. Basicamente isso. 
    É também o que me leva a crer que a democracia em Portugal está a prazo e totalmente dependente do "l´air du temps". 

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  5. Não consigo perceber a generalização. Nos supermercados o que não falta é liberdade de escolha, e não conheço casos de gente a ter esgotamentos nervosos perante a liberdade de escolher o tipo de pão. O mesmo se pode dizer quando é para escolher o restaurante para almoçar, a roupa que vestir, o carro ou a casa que compram.



    O Estado português, esse sim tenta limitar ao máximo a escolha do cidadão. Onde os filhos vão à escola, a que hospital vai (quando pode), quantas licenças precisa para fazer obras em casa. Ou quais as profissões que pode ou não exercer em função dos canudos que têm (e.g. treinador de futebol).

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  6. Tem razão. 
    O Estado escolheu por mim a universidade para onde ir, o curso a tirar, os empregos a candidatar, onde morar, não sei que faria sem o Estado 

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  7. O  Estado Português é também produto da nossa cultura e da história do nosso poder politico e da nossa história legal.

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  8. Os EUA com este novo executivo têm tudo para se libertar das crescentes amarras do Governo e voltar a ser o país liberal que foi. Prevejo muito woke marxista a atravessar o lago, e europeus não socialistas estatistas a fazer o caminho inverso.

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