"em lugar de contrariar pedagogicamente um ruído, escolheu alimentá-lo, lançando achas para a fogueira da polarização. Só que o ruído não é irrelevante e provoca danos. É o que está a acontecer."
Eu sei, eu sei que Pedro Adão e Silva não estava a pensar no discurso que a esquerda faz sobre a extrema-direita quando escreveu o que cito acima, mas é sempre útil aplicar-nos a nós as grelhas de análise que usamos para os outros.
Tinha pensado escrever qualquer coisa sobre a não eleição de Maria João Vaz Tomé, não sobre os seus méritos ou deméritos, mas sobre a capacidade da extrema-esquerda definir os termos do debate, quando lhe interessa.
Em qualquer caso, Nuno Gonçalo Poças disse o essencial, e muito bem dito, aqui neste artigo, portanto só quero reforçar a ideia do condicionamento da discussão, usando o aborto, talvez o melhor exemplo de como a alteração dos termos da discussão conseguiu fazer com que a esquerda impusesse interditos onde eles não fazem falta nenhuma. (depois de escrever e publicar este post, li este outro artigo do Observador que vai no mesmo sentido, incluindo o seu PS que mostra bem o longo braço da censura)
A discussão sobre o aborto começa por ser uma discussão social (é esse o ponto de vista da célebre tese de Álvaro Cunhal sobre o assunto) sobre os riscos do aborto clandestino, sendo uma discussão sobre o mal menor: o aborto, em si, era mau, o aborto clandestino poderia ser ainda pior.
Aos poucos a discussão passou da gestão de riscos sociais para uma discussão de direitos, ao ponto de hoje, uma opinião perfeitamente banal, a de que existe um conflito entre dois direitos, o direito da mulher dispor do seu corpo e os direitos referentes à vida intra-uterina (os direitos dos pais nunca entraram na discussão), ser considerada de tal forma inaceitável, que deu origem a uma campanha, bem sucedida, contra a eleição da juíza para o tribunal constitucional.
Note-se que é a lei que reconhece esse conflito, de outra forma, o aborto seria livre até ao dia do parto.
Mas a extrema-esquerda, alimentando o ruído que polariza, e a covardia da esquerda moderada, conseguem transformar os termos da discussão de tal forma que uma mera opinião, não só legítima, como alinhada com a lei, é considerada indizível por pessoas que aspirem ser juízes do tribunal constitucional.
É a mesma extrema esquerda que diz que o país é seguro, portanto discutir segurança é de extrema-direita, que diz que não há problemas a discutir sobre imigração, portanto discutir imigração é de extrema-direita, que argumenta que usar casos isolados e pontuais é populismo de extrema-direita, ao mesmo tempo que usa uma morte pela polícia para alimentar discursos que polarizam (ver o comunicado do SOS racismo de ontem), apesar dos números que Miguel Alçada Baptista apresenta e que demonstram que a polícia portuguesa é muito moderada.
O padrão é sempre o mesmo: definir os termos da discussão, ao ponto de ser possível ostracizar qualquer pessoa que ouse dizer-lhes que o rei vai nu e que o discurso dominante da esquerda tem, actualmente, escassas amarras à realidade.
Polarizar para calar, dir-se-ia.
A esquerda tem sido tão bem sucedida neste processo, que há muito pouca gente que pergunte: mas qual é o problema da extrema-direita?
Há milícias armadas nos partidos de extrema-direita? Há secções militarizadas nos partidos de extrema-direita? Há jornais destruídos à bomba pelos partidos de extrema-direita? Há chapeladas a favor dos partidos de extrema-direita nas eleições? A democracia foi suspensa na Itália? Etc., etc., etc..
Não faço segredo da pouca consideração que tenho pelo Chega e pelo que defende (veja-se o comportamento indecoroso na eleição da juíza de que falei acima), mas não me parece que seja um partido que mereça menos consideração ou que seja um risco maior para a democracia que o Bloco de Esquerda ou o PC.
Em rigor, em rigor, quando alguém diz que reduzir um grupo parlamentar do Chega de 50 para 5 deputados é um objectivo patriótico que todos deveríamos apoiar (Aná Sá Lopes dixit, mas longe de ser a única), está a fundamentar essa afirmação em quê?
Qual é o problema do Chega ter 50 deputados? Se consegue convencer 18% dos eleitores que a melhor forma de serem representados no parlamento é por esse grupo parlamentar, é com certeza porque responde melhor que os outros ao que pretendem esses eleitores, que não é muito diferente do que querem os outros eleitores todos, esses 18% não são todos perigosos anti-democratas que pretendem substituir governos cuja legitimidade provém dos votos por governos cuja legitimidade provém da força.
E quem não gosta de ter um grupo parlamentar do Chega com 50 deputados, tem muito bom remédio: convencer os eleitores de que as suas escolhas são melhores que as do Chega.
Agora pretender esmagar a discussão com argumentos da treta sobre os perigos da extrema-direita, francamente, já me parece preguiça a mais.
Não podia estar mais de acordo.
ResponderEliminarA esquerda de hoje e mais enfaticamente a extrema-esquerda de sempre, segue a velha máxima de acusar os outros daquilo que eles são.
ResponderEliminarTodos nos lembramos, pelo menos os mais velhos, os "gloriosos" tempos do PREC e onde estavam situados estas puritanas almas que destilam ódio, enquanto pingam virtude, como já alguém disse.
A mesma extrema-esquerda, corporizada no Calhau, perdão, Bloco de Esquerda e num certo PS hoje, mais do que encostado a ela, completamente ao colo da mesma sendo que os primeiros, não faz muito tempo tinham em listas eleitorais e mesmo eleitos, elementos com passado ligado ás FP 25, condenados a pena efectiva de prisão( e de mais de 12 anos, na sua maioria) e que, alguns deles, ainda hoje se gabam e orgulham do que fizeram.
Votei no Chega nas últimas 2 eleições. Porquê? Não posso? Sou um perigoso "fascista"? Tenho lepra? Que eu saiba(e o Estado também), cumpro a lei, pago os meus impostos, trabalho, defendo a liberdade individual e o livre discurso e pensamento, etc. Dão-me licença? Agradecido...
Votei, não por convicção, mas sim por oportunidade e mal menor e, como eu, muitos dos 1.2 milhões de portugueses que votaram nesse partido, fartos de um país a definhar, entregue a uma casta que se governa e não que governa, que mete em causa valores estruturantes da sociedade com wokismos da moda, profundamente incompetentes, analfabetos, meninos mimados e escroques de toda a especie. 50 anos de socialismo resultaram no que se vê: um país adiado, entregue a invejosos e preguiçosos( o poder é sempre reflexo de quem o elege), onde a meritocracia é espezinhada e foge, deixando no seu lugar laparotos inchados na sua triste figura.
Temos apenas o que merecemos enquanto povo. Nada mais.
A César o que é de César.
ResponderEliminarSubscrevo-o na íntegra.
JSP
Essa é pouco ambiciosa, uma comentadeira defendia que o Chega devia ser ilegalizado. Nem a eleições iria.
ResponderEliminarA esquerda, toda (já não há extremos, joga tudo por dentro), fez um bom trabalho em captar para si as "causas", algumas relacionadas com direitos de cidadãos, ao longo dos anos. Não sei bem como, mas eles estavam do lado do desenvolvimento e progresso, e a direita do lado do conservadorismo. E de repente, quem não fosse de esquerda, era contra os direitos, a igualdade. Até o pcp, que adorou e adora regimes de segregação racial e orientação sexual se tornou um partido das minorias.
A intolerância perante a diferença (a ironia...) e o desacordo é o auge da cultura religiosa que emana das redes, o denominado wokismo, de dta ou esq
Subscrevo com aplauso. Mas não é só a extrema esquerda que me preocupa. Todos sabemos que o ministério da Educação está minado pela esquerda com predominância da extrema esquerda o que já vem dos tempos do regime anterior.
ResponderEliminarMontenegro anunciou que vai retirar a carga ideológica à disciplina Educação para a Cidadania (um pequeníssimo passo, pois as fichas pedagógicas e a escolha de manuais depende de conselhos pedagógicos dominados pela extrema esquerda com os conhecidos métodos de, como minorias organizadas, neutralizarem as maiorias, pouco interessadas ou com medo de problemas, o que afecta também outras cadeiras a começar pela História). Logo começaram os protestos da esquerda incluindo PS o que seria o "normal". Mas o que não é normal é o ministro da Educação declarar no dia seguinte que essa (a Educação para a Cidadania) não era a prioridade do ministério.
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ResponderEliminarnão é normal o ministro da Educação declarar que a Educação para a Cidadania não era a prioridade do ministério
Eu diria que sim, que é normal. Para o PSD e o CDS o prioritário sempre foi o Português e a Matemática, não a Educação para a Cidadania. O PSD e o CDS prioritizam a apredizagem das duas primeiras cadeiras; o que se aprenda ou deixe de aprender nas restantes é de somenos.
(Eu diria que a atitude dos encarregados de educação responsáveis é mais ou menos a mesma: o que importa é que o educando tire boas notas em Português e Matemática; lá se em Educação Física, Educação Visual, Música, e Educação para a Cidadania ele aprende ou deixa de aprender, isso não interessa.)
a) O primeiro ministro e presidente do partido, em congresso, enuncia sete prioridades para a governação, uma delas, retirar a carga ideológica à Educação para a Cidadania.
ResponderEliminarb) No dia seguinte o ministro da Educação afirma que a Educação para a Cidadania não é a prioridade do ministério.
Ficamos com duas hipótese e uma certeza.
1. O primeiro ministro e o ministro da educação têm divergências sobre as prioridades para a Educação;
2. O primeiro ministra falava para militantes e/ou para eleitores, enquanto o ministro falava para professores e quadros do ministério, ou seja, um ou os dois não são para levar a sério
Sendo certo que o ministro corrigiu ou desautorizou publicamente o primeiro ministro.
Como nota final, sendo igualmente certo que, mesmo como ligeireza ou precipitação do ministro, é evidentemente um facto politicamente grave, achar que é normal leva a suspeitar que a falta de nome acompanhe a falta de neurónios.
ResponderEliminarÉ para mim evidente que o ministro da Educação, doutor Fernando Alexandre, é uma pessoa de gabarito intelectual muitíssimo superior ao do primeiro-ministro, licenciado Luís Montenegro. (Os títulos académicos, neste caso e usualmente, dizem muita coisa.) O doutor Alexandre percebe que ensinar Matemática, Português e Físico-Químicas é muito importante, já o que se ensina ou deixa de ensinar em Educação para a Cidadania é de somenos. Já para o licenciado Montenegro, aparentemente, as prioridades são as opostas.
Felizmente, eu diria que a imensa maioria dos encarregados de educação deste país, sobretudo os de tendência política direitista, tem as suas prioridades mais alinhadas com as do ministro do que com as do primeiro-ministro.
Não percebo porque insiste em mostrar falta de entendimento. Não está em causa o valor curricular ou pedagógico das cadeiras. O que está em causa é uma forte carga ideológica na cadeira de Educação para a Cidadania que, além do mais, viola flagrantemente a Constituição (Artº 43 Nº 2).
ResponderEliminarE, ao contrário do que diz, a maioria das pessoas de direita preocupam-se mais com o viés ideológico de extrema-esquerda imposto no ensino obrigatório. Basta ter acompanhado as reacções de apoio à família de Famalicão.
Quanto à - suponho eu - sabujice inicial, apenas comento que se o doutor Fernando Alexandre tem tão elevado gabarito, talvez não devesse ter aceite ser ministro do limitado licenciado Montenegro.
E desconfio que o problema é mesmo esse. O doutor Fernando Alexandre é economista e parece centrado na gestão, Na resolução dos problemas de professores, instalações e auxiliares. Mas não se lhe vê preocupação nem com política nem com ideologia. E corrigir ou contrariar publicamente o seu primeiro ministro, é politicamente um erro de palmatória. É certo que tecnocratas, têm o seu lugar em governos democráticos mas não podem abrir a boca quando lhes apetece.
ResponderEliminarEsqueceu-se é de explicar qual é o problema de dizer coisas erradas
ResponderEliminarCaros Senhores
ResponderEliminarMuito bem posto, Senhor , doutor?!