quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Agir sobre a realidade

Hoje resolvi pegar em dois posts seguidos do blog da Montis para falar de uma das coisas que mais me interessam, a gestão de paisagem.


O primeiro post diz respeito à afectação da propriedade de Vieiro pelos fogos recentes.


O segundo post diz respeito à afectação da propriedade de Costa Bacelo pelos mesmos fogos.


Arderem propriedades geridas pela Montis não é novo, e a gestão adoptada pela associação não perde tempo nem recursos a evitar que isso aconteça, a Montis parte do princípio de que fogo, como a chuva, o vento e o solo, é um dado do problema e gere partindo do princípio de que as coisas arderem não é uma possibilidade, mas uma certeza.


Já em Outubro de 2017, quando dias antes tinham ardido os carvalhais que tínhamos comprado há poucos anos, a Montis publicou um post meu (na altura eu era presidente da Montis) discutindo os fundamentos das opções que gestão que estávamos a fazer (no caso, ficar de braços cruzados à espera da Primavera).


Actualmente não faço parte da direcção da Montis (que tem umas saudáveis normas estatutárias que obrigam à renovação dos orgãos dirigentes, estatutariamente impedidos de receber dinheiro da associação que não corresponda ao eventual pagamento de despesas) mas continuo a achar que os meus 25 euros por ano de quota são muito bem empregues nesta associação.


A Montis não faz aquilo a que agora se chama advocacy, não tem posições sobre políticas, a Montis limita-se a gerir, tendo como objectivo a produção de biodiversidade, terrenos próprios ou que alguém lhe entrega para gerir (nunca se pagam rendas, os terrenos são cedidos sem contrapartidas e a Montis tem de ter carta branca para neles intervir durante um tempo alargado, dificilmente menos de dez anos, pelo menos era essa a política, hoje não sei bem, mas não deve andar longe disto, embora eu defenda que é tempo de concentrar mais recursos na compra de terrenos que na expansão geográfica das áreas de gestão, ao contrário do que defendi e pratiquei enquanto presidente).


Se a Montis tem posições claras sobre o uso do fogo, sendo praticamente a única organização em Portugal que faz fogo controlado com objectivos estritos de gestão de habitat e de paisagem, não é por ter um fascínio especial pelo fogo, mas por o gerir como faz com os outros elementos naturais, a água, o solo, a luz, a disponibilidade de propágulos e coisas que tais.


Ao ler os dois posts com que comecei, sobre os quais não tenho nenhuma responsabilidade, verificando que se mantém a preocupação de não dramatizar o que não é dramático (ardeu, sim, mas para os nossos objectivos isso é o que é, tem vantagens e desvantagens, vai-se tentar potenciar as vantagens e limitar as desvantagens), a preocupação de esperar pela Primavera para se ter informação sobre como está a reagir a vegetação, a preocupação de identificar e conhecer bem a principal ameaça decorrente dos fogos, que é a expansão de invasoras agressivas, sobretudo acácias e háqueas, para a poder conter, a preocupação de desenhar novas medidas de gestão para as novas circunstâncias, não cedendo à tentação de gastar recursos sem fim a tentar evitar o fogo ("que é de todos, e virá", como disse Jorge de Sena da morte), mas em compreender o que se pode fazer para chegar nas melhores condições possíveis ao próximo fogo, confesso que tenho orgulho pessoal no que tem sido feito por esta minúscula associação de conservação da natureza, mesmo que aqui e ali eu possa não estar de acordo com algumas das opções (se, como presidente, executei muitas vezes opções de que discordava, por ter uma opinião minoritária, não será agora, que não tenho responsabilidades, que me vou incomodar com opções que não estão totalmente alinhadas com a minha opinião).


O que sei é que é uma associação em que os 25 euros por ano da quota de cada sócio é muito bem gasto e de forma muito transparente.


Era bom poder gerir mais área, gerir melhor a área que já gere, comunicar melhor, etc.?


Sim, era, mas para isso é preciso mais sócios.

3 comentários:


  1. Tenho lido muitos dos seus textos e ouvido as suas diversas intervenções que acho extremamente pertinentes e úteis. No entanto, e pode ser falha minha, nunca o ouvi referir-se ao programa "Vales Floresta - Projecto Piloto" do fundo ambiental*. Este projecto propôs uma remuneração de 600 €/ha para uma gestão de pequenas áreas florestais com 0,3 a 10 ha durante 5 anos. Daria mais ou menos o valor que tem referido 120 €/ha/ano. Infelizmente passou aproximadamente 1 ano desde a abertura do concurso e nem a avaliação das candidaturas foi feita. De qualquer forma poderia ser um ponto de partida para a discussão de como pode ser feita a implementação de uma medida deste género.


    * https://www.fundoambiental.pt/apoios-2023/floresta-e-gestao-florestal-sustentavel-/vales-floresta-projeto-piloto.aspx

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  2. O programa vales floresta é uma má aplicação da ideia base que defendo.
    O Estado complicou o programa, excluiu muitos dos beneficiários potenciais e inventou excessivamente nas critérios de atribuição, nos tempos de atribuição e nas obrigações.
    Já tinha acontecido o mesmo com a ideia de apoiar os rebanhos.

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  3. É o habitual.
    Sorry por entrar fora da janela, mas para quando um governo que acione meios do Estado, a evitar o rame rame de sempre: a cada ano, o prosperar dos negócios do fogo. 
    Na continuidade de artigo de há dias no Jornal do Fundão em 2010:

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