domingo, 11 de agosto de 2024

O erro é seu, caro Provedor

Ontem, na página do Provedor do leitor do Público (de vez em quando é bom lembrar que o Provedor é Provedor do leitor, não do bom jornalismo), há um retrato impiedoso do jornal.


Um leitor resolveu protestar com o facto de um jornalista ter feito uma peça bastante objectiva sobre este livro.


Trata-se de um livro de Luciano Amaral, com um excelente prefácio de Vítor Bento, que avalia e discute o peso e impacto do grupo CUF em 1973, colocando oa discussão no contexto empresarial que existia na altura.


O leitor do Público, que duvido que tenha lido o livro, achou que a peça do jornalista era um "um panegírico da ditadura disfarçado de história económica".


Para fundamentar, recorre à vulgata habitual "É impossível analisar os grupos económicos do salazarismo, como a CUF, sem o enquadramento de que a economia funcionava com condicionamento industrial e na base de monopólios e concessões do Estado aos grupos económicos como a CUF e o grupo Champalimaud, e que cada grupo económico tinha um ou mais bancos para se financiar".


Se o leitor tivesse lido o livro (incluindo o seu prefácio) teria percebido que os grupos económicos principais que existiam em 1973 representariam qualquer coisa como 10% do PIB (até poderia ter reparado que as empresas controladas pelo Estado representavam uma percentagem ligeiramente superior do PIB que o conjunto dos grupos económicos) e que dizer que a economia funcionava com base em monopólios e concessões que, mesmo que existissem nesses termos, eram cerca de 10% da economia, é um grande disparate.


Uma coisa é criticar o conteúdo do livro dizendo que as contas estão erradas, para o que é preciso fazer contas que se consiga demonstrar que são melhores, outra coisa é mandar bitaites para o ar que ignoram a informação existente.


Pois bem, a sub-editora de economia do Público (Isabel Areias) acha que era mesmo isso que se deveria fazer, auto-criticando-se por o não ter feito, por falta de tempo: "O artigo deveria ter tido mais contexto, de facto, sobre a situação empresarial, económica e política de Portugal que levou à ascensão e desenvolvimento do grupo CUF antes do 25 de Abril", aparentemente ignorando que o livro é só, só, só sobre isso mesmo.


O Provedor conclui na mesma linha, a de que o jornal, quando não gosta das conclusões do "honesto estudo com longa experiência misturado", deve ignorar a realidade dos factos, para não estragar uma boa história.


"Teria sido útil ... acrescentar ...[que tudo o descrito] não evitaram que o país continuasse a ter alguns dos piores índices mundiais em questões-chave como a esperança de vida, a mortalidade infantil, o analfabetismo, a pobreza, a subnutrição, a fome, a taxa de cobertura do saneamento, electricidade e água canalizada, etc.. E mais importante ainda neste contexto, a débil criação de emprego e a volumosa e persistente emigração".


E aceita como boa a argumentação do leitor que transcrevi acima, não sei com que base, para além do divino Espírito Santo, já que com base nos factos não é com certeza, como o livro e o seu prefácio demonstram de forma bastante consistente.


Vamos esquecer o entusiasmo retórico que faz o Provedor do Público confundir piores índices do mundo mais desenvolvido com "piores índices mundiais" e centremo-nos em algumas coisas que diz.


Esperança de vida: aumentou cerca de 10 anos entre 1950 e 1975.


Mortalidade infantil: diminuiu de valores em torno dos 80 por mil em 1960 para 25 por mil em 1975


Analfabetismo: Diminuiu dos cerca de 52% em 1940 para cerca de metade na altura do 25 de Abril


Poderia continuar, mas os outros dados são mais complexos de obter em séries longas, e é claro o argumento de que é preciso olhar para a evolução, não apenas para o ponto de chegada.


Se o Provedor tivesse lido o prefácio do livro teria tido a oportunidade de ver os dados que dizem respeito ao emprego, verificando que na "década longa" que acabara em 1973, o peso do sector agrícola no emprego baixou uns 17 a 18 pontos percentuais, o sector dos serviços aumentou uns 15 pontos percentuais e o país aumentou uns vinte pontos percentuais a sua posição em relação ao grupo de países mais ricos do mundo.


Também poderia ter reparado que os salários reais, nos treze anos que vão de 1960 a 1973, aumentaram ao ritmo impressionante de 7% ao ano (ou seja, multiplicaram-se por duas vezes e meia em treze anos, alguém que ganhasse mil euros em 1960 estaria a ganhar, em temos reais, portanto já descontando a inflação, 2500 em 1973).


De resto, o Provedor do Público, apesar de preocupado com a emigração de milhão e meio de pessoas (os números variam de fonte para fonte, mas grosso modo podemos falar em milhão e meio de emigrantes nessa altura), não reparou que a população do país apenas baixou 300 mil pessoas, o que quer dizer que a criação de emprego foi fortíssima (seria estranho ter um crescimento da dimensão do que existiu nessa época, sem criação de emprego), mesmo que não tivesse sido suficiente para absorver toda a mão de obra pouco qualificada que a derrocada do mundo rural atirou para longe da terra.


O meu problema, como leitor diário do jornal, é perceber que o excelente artigo feito sobre o livro de Luciano Amaral resultou de uma falha do controlo ideológico do jornal, o mesmo controlo ideológico que, que eu tenha dado por isso, tem feito o jornal ignorar o livro de Nuno Palma (posso estar enganado, o que digo é que não me lembro de ter notado alguma atenção do Público ao livro), um fenómeno editorial raro em Portugal, com cinco ou seis edições, e que, aparentemente, o Público boicota porque as suas conclusões não encaixam no que o jornal, dos seus editores ao seu Provedor, acham que é a sua missão civilizadora.


Senhor Provedor, a crítica à ditadura não precisa de histórias da carochinha sobre a economia dos últimos vinte anos do regime, a ditadura é ilegítima porque é ilegítima a sua fonte do poder (a força e não a vontade das pessoas).


Não me parece que ter um leitor, e uma sb-editora de economia, e um Provedor, a fazer um esforço enorme para impedir que os factos influenciem o que pensam seja a missão de qualquer jornal, evitando abrir o espaço de debate aos que, com "honesto estudo e longa experiência misturada", dizem coisas diferentes da ortodoxia ideológica que o jornal insiste em procurar vender aos seus leitores.

18 comentários:

  1. Se o jornal é assim, deixe de o ler!
    Um jornal que não se rege por factos, é um folhetim de propaganda. 

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  2. E como saberiamos que o dito "jornal" é um folhetim de propaganda se ninguém (fora da bolha dos convictos leitores da dita ortodoxia) fizesse a análise/ diagnostico depois de o ler??

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  3. “Conhece o teu inimigo”.

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  4. Já deixei de ler o Publico há muitos anos, mesmo subsidiado pelo capitalismo (SONAE), mantém uma linha ideológica muito esquerdista, a roçar a extrema-esquerda. Nem sei porque se perde tempo a ler um jornal despojado de qualquer interesse, parece uma cartilha diária sempre a bater no ceguinho.

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  5. Falem mal mas falem de mim.
    By Publico

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  6. O escriba, quando confrontado com alguns comentários depreciativos, pergunta aos visados por quê o lêem, se nao levam a sério o que escreve. 
    Não é esta a relação com o Público?

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  7. Sim, normalmente é depois de ler. Tal como sabemos que um filme é mau depois de o ver. Ou afinal os educadores do povo são bons?

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  8. Edward Louis Bernays (1891-1995), o austro-americano pioneiro no campo das relações públicas, publicidade e propaganda (o seu livro "Propaganda" devia ser de leitura obrigatória), fundamentou todo o seu trabalho em princípios segundo os quais as pessoas são irracionais e as suas decisões, comportamentos e percepção da realidade são facilmente manipuláveis. Tão longe e tão perto dos nossos ancestrais hominídeos, não tendo a generalidade das pessoas consciência disso, de tal forma que têm sido e continuam a ser vítimas da propaganda enquanto outros a usam conscienciosa e implacavelmente. 


    "Through clever and constant application of propaganda, people can be made to see paradise as hell, and also the other way round, to consider the most wretched sort of life as paradise." (A. Hitler)


    “The people can always be brought to the bidding of the leaders….All you have to do is tell them they are being attacked and denounce the pacifists for lack of patriotism and for exposing the country to danger. It works the same in any country.” (J. Goebbels)


    Aqui o ataque, a ameaça, pode não ser de carácter estritamente militar: um vírus, alegadas alterações climáticas servem o mesmo propósito. Perante a ameaça, mesmo que subjectiva, os pacifistas, os "covidiotas", os "negacionistas", os "trumpistas", os "putinistas" e outros são todos incluídos na classe dos dissidentes e freneticamente queimados em auto de fé por essa net fora, à falta de fogueiras reais. 


    "Our job Is to control exactly what people think" (Mika Brzezinski, jornalista, autora e comentadora em directo na TV americana - https://www.youtube.com/watch?v=quU_Tbv96Wk)


    Esta última é a confissão macabra daquilo que é a missão da indústria noticiosa: controlar exactamente aquilo que as pessoas pensam. A realidade é esta.


    Causas, motivações? Essas são questões a que nem sempre é fácil responder, embora se vá sabendo alguma coisa.


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  9. E atenção que já se anunciam medidas supostamente anti-fakenews nas escolas do Reino  Unido. 

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  10. Os liberais globalistas(que ,entre outras estratégias ditas estranhas,financiam jornais e tvs esquerdistas)e a agenda cultural da esquerda ( atenção: apontar os factos não faz de mim apoiante de nenhuma  facção política) - 

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  11. E antes de sair essa "novidade"(a qual  visa também,supostamente,o racismo)  o cronista Alberto Gonçalves escrevia o seguinte na sua crónica semanal que é publicada aos sábados no  Observador:






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  12. Deixei de ler foi passando de jornal de notícias a jornal de crónicas. E quando as reportagens passaram a ser escritas por crianças para crianças. 

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  13. Talvez fosse útil olhar-se também para as teorias da Tolerância Repressiva e da Ditadura das Minorias, ambas da autoria de Marcuse (recordar o cartaz do Maio de 1968, onde se lia "Marx, Mao, Marcuse"), o alemão da Escola de Frankfurt que emigrou para os EUA onde foi professor. 


    E também para a filosofia/ideologia de Leo Strauss, o americano que foi professor da Universidade de Chicago, consubstanciada nos seguintes princípios que os "bons" straussianos seguem:


    1. The Few Must Rule The Many.
    2. Virtue Is Defined By The Elite.
    3. The Strong Must Rule The Weak
    4. There Is Only One Natural Right: The Right Of The Wise Few To Rule Over The Vulgar Many.
    5. “The Rule Of The Wise” Is Unquestionable, Authoritarian, Absolute and Covert.
    6. There Are Three Classes: The Wise-Few, The Vulgar-Many And The Gentlemen.
    7. Religion Is Essential In Order To Impose Moral Law On The Masses.
    8. The State Maintains Omnipotence Through Militaristic Nationalism.
    9. Order And Security Are To Be Insured By A State Of Perpetual War.
    10. The Wise Must Maintain A Culture Of Deception And Carry On A Perpetual Confusion Campaign.
    11. The Many Are Told What They Need To Know And No More.
    12. Lies Are Held To Be Necessary And Noble.

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  14. Do tempo,2016, em que o Público ainda publicava artigos decentes e pertinentes:


    O europeu / ocidental já adquiriu uma saudável dose de cepticismo e de espírito crítico sobre a ideologia do progresso no campo científico-tecnológico (e também no económico). As tragédias das duas guerras mundiais e os problemas ecológicos levantados pela economia capitalista foram um necessário choque de realidade — e um grito da consciência crítica e ética. Não adquiriu ainda essa consciência face à ideologia progressista no campo social e ao seu culto ‘movimentista‘— e experimentalista — da transformação social permanente. É o seu “admirável mundo novo”. Assenta na desconstrução dos valores estabelecidos inspirada em Jacques Derrida e na resistência anti-poder de Michel Foucault. Ironicamente, a analogia com as ideias liberais / (neo)liberais de direita, de um progresso pela “destruição criadora”, é grande.homo economicusartigo de José Pedro Fernandes no jornal Público em Abril 2016)

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