sábado, 20 de julho de 2024

Talvez repensar

Jaime Nogueira Pinto tem hoje, no Observador, um artigo muito interessante, também sobre a revolução que estará a ocorrer no Partido Republicano, nos Estados Unidos.


"O processo é tão velho como o mundo: para se criar um clima de ódio em relação a um inimigo a eliminar é necessário retirar-lhe a humanidade, despojá-lo de afectos, pintá-lo como infra-humano ou supra-humano, como animal inferior ou demónio todo-poderoso, como alguém que não é “nós”. Isto pode fazer-se em relação a um indivíduo ou a um colectivo – os judeus, os cristãos, os muçulmanos, os asiáticos, os negros, os brancos; ou a outras categorias nacionais, tribais ou mesmo político-sociais, como os comunistas, os fascistas, os revolucionários, os reaccionários, os burgueses. ... “La Vertu, sans laquelle la Terreur est funeste; La Terreur, sans laquelle la Vertu est impuissante.”"


Li o artigo quando já estava a pensar escrever um post sobre a quase única coisa de que discordo a sério de Carlos Guimarães Pinto, o peso que atribui à corrupção no seu discurso.


Eu compreendo que, politicamente, é muito mais eficaz falar de corrupção que falar da simplificação de processos de decisão, que é onde acaba a desaguar o discurso racional sobre corrupção (a versão abrutalhada do discurso sobre corrupção acaba em discussões sobre penas, perseguições, justiça e essas coisas todas que, essencialmente, podem servir para assinalar a virtude superior de quem fala, mas são largamente inúteis para limitar a corrupção).


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Este boneco produzido pelo Instituto + Liberdade é bem ilustrativo das dificuldades associadas ao combate à corrupção por via judicial (e mais dificuldades ainda existiriam se alguém resolvesse dar ouvidos aos fantasmas de António Barreto que, do alto da sua torre de marfim envolta em nevoeiro, acha que as escutas deveriam simplesmente ser proibidas para evitar eventuais abusos no seu uso).


Pretender acabar com a corrupção é o mesmo que pretender acabar com a pobreza, com a maldade, com o oportunismo, com o abuso, em resumo, está na linha da substituição dos maus pelos bons que historicamente justificam todas as arbitrariedades e perseguições de grandes grupos sociais.


A corrupção é uma resposta social a regras dominantes, tal como o roubo, o assassinato, e todos os outros crimes e, tal como o resto da criminalidade deve ser limitada por via judicial, com certeza, mas sobretudo por melhores regras, isto é, regras que são feitas para as pessoas concretas que existem, e não para criar melhores pessoas.


Criar pessoas melhores é uma tarefa das famílias e dos pequenos grupos sociais de proximidade, não é uma tarefa que caiba ao Estado, a esse já lhe chegam as tarefas de manter a violência em níveis aceitáveis, reequilibrando o poder discricionário dos mais fortes sobre os mais fracos, de tal forma que a generalidade das pessoas consiga considerar minimamente justa.


O que Jaime Nogueira Pinto sugere, neste artigo, é que as coisas estão a mudar em muito lado porque há demasiada gente a achar que a forma como o bem nos está a ser imposto está para lá do que é justo.


Talvez valha a pena olhar para este ponto de vista com alguma atenção.

16 comentários:

  1. necessário criar o HOMEM NOVO

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  2. Muitos cemitérios se encheram de HOMENS VELHOS para dar lugar ao HOMEM NOVO que nunca apareceu...

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  3. Os republicanos apoiam o cavalo que mais hipótese lhes dava e dá de vencerem. Trump é desprezado pelo "establishment", mas tem uma legião de fãs,  e era o republicano com mais probabilidades de bater qualquer democrata que lhe aparecesse pela frente (sim, agora será uma formalidade, estando Biden como está, e sendo Trump um sobrevivente divino). E Trump tem outra vantagem,  sendo um narcisista
    que se acha o ser mais inteligente da sala, é facilmente manipulável pelas Karis Lakes lá do sitio. 

    Tanto o PDem como o Rep foram tomados de assalto por wokes, os virtuosos intolerantes que não conseguem idealizar um mundo diferente daquele que professam. Ganhe quem ganhar, aquilo vai ficar pior antes de melhorar.

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  4. Criar melhores regras...


    Os partidos são constituídos por gatos: gatos, gatinhos e gatarrões. Os gatos elegem gatos colocando-os nos lugares eligíveis, mas isso nem era necessário uma vez que as listas são apenas compostas por gatos. 


    Os ratos votam nos gatos, recorrentemente, porque os gatos sempre prometeram proteger os ratos e porque só há partidos de gatos, os únicos que prometem proteger os ratos e transformá-los em gatos.


    Lá fora - fora da bolha do "Truman Show" onde os ratos são os protagonistas iludidos - os gatos continuam a alimentar-se dos ratos e não se mostram dispostos a criar melhores regras para que isso deixe de acontecer. 

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  5. Tem que se pagar não é? Eu até tenho acesso por meio de um vizinho que é assinante do Observador. Outro artigo bastante pertinente no Observador esta semana é o de Margarida Bentes Penedo sobre as policias e a questão da "fruta podre" segundo a ministra do Igae ...perdão,da administração Interna. 

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  6. Há partidos de ratos(os tais que querem comer o queijo de borla)mas ultimamente só conseguem eleger meia duzia de gatos...perdão,de deputados. 

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  7. Ninguém quer acabar com a corrupção. Já puni-la...

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  8. Discordar ou, pelo menos, desvalorizar simultaneamente Jaime Nogueira Pinto e Henrique Pereira dos Santos é, no mínimo, atrevimento E sei bem que a ignorância é atrevida. Contudo recorro a Aristóteles que, nas ciências utilitárias, escreveu três livros: Ética, Economia e Política. Não será sequer preciso ler Aristóteles nem reler lições de filosofia, para diagnosticar o que está em falta nas sociedades ocidentais em geral e em Portugal em particular. E, desculpem-me os citados autores, mas nada ou muito pouco tem a ver com a procuradoria-geral da República.
    Na administração da justiça, a percepção de "demasiada gente" não é apenas que a "imposição do bem" está "para lá do que é justo". Diria que não é tanto a restrição de direitos e garantias mas mais o enorme desequilíbrio entre meios utilizados e resultados obtidos.
    Algo de semelhante se passa "mutatis mutandis" nas administrações da saúde, escolar e dos transportes que só não têm a visibilidade que é dada à justiça, porque a comunicação social , sabe-se lá porquê, não está para aí virada. E, recentemente, o problema "explodiu" onde é mais sensível, a segurança. Finalmente tornou-se impossível escamotear o que vinha sendo ocultado, até em em relatórios oficiais, para já nas cidades do Porto e de Lisboa.
    Desde sempre, pelo menos desde o contrato feudal que a história regista uma permanente tensão entre segurança e liberdade. Durante quanto tempo mais, será possível manter a actual situação em que as liberdades de minorias retiram a segurança às maiorias? E já ninguém, fora da bolha e até alguns dentro desta, acreditam que o sistema possa ser corrigido pela via judicial. Esta última, diferentemente do que parecem acreditar Jaime Nogueira Pinto e HPS, tende a tornar-se marginal.

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  9. O que se passa nos EUA é com os americano, mas ocorre-me perguntar se numa democracia adulta isto pode acontecer: 
    O ainda presidente desiste de se recandidatar a um novo mandato, por razões notoriamente publicas,  mas nessa condição não deixa de fazer duas exigências manifestamente desproporcionadas, que quer concluir o mandato, e querendo que uma candidata do seu agrado  lhe suceda manifesta-lhe desde já o seu apoio. 
    O que é isto?

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  10. Pragmatismo, puro e duro. Não conheço, obviamente, as conversas que leveram o Biden a sair da corrida eleitoral. Mas suspeito que ninguém, no campo dos democratas, quer ver uma novela de um presidente que se recusa a sair ou pior, que tem de ser submetido a testes cognitivos para o poder demitir.


    E sejamos honestos, existe uma catrefada de gente na administração que faz 99% do trabalho, o Presidente só aparece para a fotografia. E depois existe o Congresso, o Senado, os tribunais e os estados para garantir que a Casa Branca não faz (muita) asneira.


    Se não fosse a disputa eleitoral, o público não se teria apercebido, ou focado, no estado de saúde do Biden.

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  11. Aquele debate foi demasiado mau para ignorar.
    E ter um demente (já o Reagan teve acesso ao botão com capacidades diminuídas, dizem) na Casa Branca não é bom , pelo facto de não ter capacidade de diagnosticar quem está em seu redor, que é quem de facto "decide". Diga-.se que isso vale para o Donald, que se acha muito esperto, mas esses são os mais fáceis de enganar.

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  12. Acha mesmo que o Presidente dos EUA pode acionar as bombas nucleares se lhe der na gana ? Nem os EUA não são a Rússia/China/Coreia do Norte, nem nestes países os ditadores fazem o que lhes apetece. Fazem o que a clique que os rodeia lhes deixa fazer enquanto existe equilíbrio de poder.

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  13. Quem disse que o fazem sozinhos? Mas têm acesso ao botão.


    "pelo facto de não ter capacidade de diagnosticar quem está em seu redor, que é quem de facto "decide"."

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