Apesar da antiguidade do título deste post, da insistência com que é repetida a frase e do facto de praticamente toda a gente já a ter ouvido, nós resistimos a reconhê-la como uma verdade útil para o nosso quotidiano, raciocinando a partir do pressuposto que encerra.
Na área da conservação da natureza há muitos anos que uso esta frase nas discussões - outra coisa é usá-la para mim, que é mais complicado - para tentar contrariar a ideia de que são as nossas acções conscientes que levam o mundo neste ou naquele sentido.
De resto, cito frequentemente uma frase que me dizem que Jorge Palmeirim dizia aos seus alunos, mas que nunca confirmei com ele se era verdade: a natureza não existe para que a estudemos, nós é que insistimos em estudá-la.
Três temas recentes de conservação motivam a introdução deste post.
O primeiro, os linces, que recentemente saíram do estatuto de ameaça que tinham para serem colocados noutro que sugere um risco menor de extinção (para quem queira saber o que penso dessa matéria, livros vermelhos, estatutos de ameaça, o mais prático é ler isto).
Logo apareceram não sei quantas pessoas e instituições a congratular-se pelo êxito dos esforços de conservação que levaram a população de lince ibérico da pré-extinção para a poderosa expansão actual.
Acontece que a população de lince, e a sua dinâmica, depende da dinâmica do coelho selvagem e a dinâmica dos coelhos selvagens tem flutações brutais por causa das epidemias que, de tempos a tempos, dizimam as populações de coelho (por exemplo, a mixomatose terá liquidado 90 a 95% da população europeia de coelhos).
O corolário disto é que a população de lince se expande quando se expande a população de coelho, e cai bruscamente quando uma epidemia arrasa as populações de coelho.
Nessa altura, como já aconteceu nos ciclos anteriores de aumento e diminuição da população de lince, veremos quase toda a gente a atribuir aos esforços de conservação as subidas da população de lince, e às doenças dos coelhos as descidas, é da nossa natureza não reconhecer as nossas limitações.
O segundo tema diz respeito aos ursos e à presença de animais divagantes longe das populações reprodutoras reconhecidas.
Inevitavelmente, porque as populações de ursos da Península Ibérica também estão em rápida expansão, alguns destes animais divagantes irão entrar em Portugal, progressivamente com mais frequência, e logo se verá se e quando poderá haver uma população reprodutora.
Há muitos anos que escrevo sobre a possibilidade de haver ursos em Portugal (ver aqui e aqui, das coisas que encontro mais facilmente, embora a segunda não possa ler porque o Público me quer cobrar para eu ler o que escrevi e dei de borla ao Público).
Não porque seja especialista de ursos, mas porque estudei a evolução da paisagem e a sua relação com a dinâmica das espécies e, ao contrário do que pensa grande parte do mundo da conservação, é a evolução da paisagem, o que significa a alteração dos recursos disponíveis para aumentar a produtividade das fêmeas e a viabilidade das crias, que comanda essa evolução, e não tanto os aspectos relacionados com a perseguição directa ou as políticas de conservação.
Mais uma vez, ao contrário do que pensamos frequentemente, há uma mão invisível a comandar a evolução dos sistemas muito mais poderosa que as políticas públicas que possamos desenhar.
O terceiro tema é a colagem do WWF aos incêndios para pressionar a agenda do restauro ecológico.
O relatório que está nesta ligação (se a ligação funcionar bem, o que nem sempre acontece) é um relatório interessante, bastante sólido no diagnóstico, mas que depois, como é costume nesta matéria, faz uma pirueta argumentativa para chegar ao que interessa à organização que o produz.
Depois de, muito bem, identificar o abandono como o problema que é preciso resolver, as propostas do WWF voltam-se para o restauro, em vez de se voltarem para a gestão e para as razões que levam os proprietários a fazer as suas opções de gestão.
Os sistemas naturais estão a ser restaurados pelo abandono, o que tem vantagens e desvantagens, não precisam de lei nenhuma nem que gastemos recursos infindos nesse processo.
A gestão do processo deveria ter como objectivo potenciar as vantagens e limitar as desvantagens, reconhecendo que somos pó e ao pó voltaremos.
Mas é mais forte que nós, não acreditamos que o mundo continua a girar depois de nós, como já girava antes de nós, e portanto investimos tudo na demonstração que que aqui ao leme somos mais do que nós, somos um povo que quer os ecossistemas naturais que não compreendemos especialmente bem.
E nessa demanda inútil, nesse vôo cego a nada, desperdiçamos recursos sem fim a tentar fazer com que o mundo rode de maneira diferente.
Oh! vã cobiça e vaidade a que chamamos fama.
Defender o Ambiente e os Recursos Naturais (especialmente aqueles que servem para a produção de energia) passa por implementar, rapidamente e em força, reformas estruturais, a começar, repito, a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos.
ResponderEliminarNão há como discordar.
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