quarta-feira, 3 de julho de 2024

“Entrada proibida a pretos e a cães”

Na parte académica do meu doutoramento, cruzei-me com Carl Steinitz, judeu, professor em Harvard, com quem conversei longas horas.


Nessas conversas, a questão da avaliação de paisagens aparecia bastante, naturalmente, bem como a sua profunda subjectividade, dentro de grandes tendências (por exemplo, a presença de água numa fotografia fazia subir imediatamente o valor que as pessoas atribuíam a essa paisagem, mais ou menos em qualquer cultura em que tivessem sido feitos inquéritos sobre o que as pessoas valorizavam no que viam à sua volta).


Um bocado inevitavelmente, acabámos por conversar sobre os estranhos caminhos da memória, usando quer o exemplo do próprio Steinitz, quer o meu, sobre o regresso a paisagens que tínhamos abandonado há décadas.


Steinitz saiu de Berlim em 1942 quando tinha três ou quatro anos (quando comentei que tinha tido uma grande sorte em ter conseguido sair de Berlim em 1942 e estar vivo, respondeu-me que nem eu poderia imaginar a sorte que tinha tido na vida, porque a família tinha apanhado o último barco de refugiados judeus de Lisboa para os Estados Unidos), eu saí do Lobito quando tinha cinco anos, e os dois tínhamos voltado a esses sítios, décadas depois.


Os dois tínhamos a mesma experiência, que já vários dos meus amigos que tinham saído cedo de África me tinham relatado: não tendo memória consciente de muitos sítios, uma vez postos nesses locais, vindas não se sabe de que profundezas, apareciam memórias claríssimas que nos permitiam saber o que iríamos encontrar ao virar a esquina para uma rua de que, durante décadas, não tínhamos a menor memória consciente.


Steinitz comentou que na cultura judaica a memória era claramente exercitada de forma consciente, de tal forma que, à mesa das refeições, o pai ia regularmente pedindo aos filhos para descrever a Berlim em que tinham vivido, corrigindo e avivando memórias para todos.


Lembrei-me disto por causa de um comentário aqui no Corta-fitas, sugerindo uma visita a este post no Delagoa Bay, onde se fala do facto de Helena Cabeçadas se lembrar de ver, na então Lourenço Marques, vários letreiros com o escrito que dá título ao post "Entrada proibida a pretos e a cães".


Não vou dizer que está a mentir, mentiria se não tivesse essa memória e dissesse que a tinha, mas uma memória não é um documento (ler com atenção este post com que me cruzei na sequência das leituras desencadeadas por essa visita ao Delagoa Bay, independentemente de ter sido escrito em 2010 e, já agora, este também, de que me tinha esquecido de fazer a ligação) e não controlamos assim tanto as nossas memórias, o nosso passado muda todos os dias, mesmo que não nos demos conta disso.


O que posso dizer é que não tenho memória nenhuma de alguma de haver letreiros desse tipo - muito menos de serem normais ou frequentes -, não conheço ninguém que tenha essa memória, não conheço nenhuma fotografia ou documento que comprove o uso desse tipo de letreiros e nem sequer me parece minimamente consistente com o ambiente social que a minha memória consciente retém.


De há uns anos a esta parte (por exemplo, ver este post sobre um livro de memórias de Isabella Figueiredo, sobre quem tenho ouvido críticas literárias favoráveis), passou a ser normal ver memórias de pessoas que viveram em África e que contam histórias do tipo da dos letreiros, ou a história ainda mais estranha de se mandar os criados ser castigados pelas autoridades administrativas quando se portavam mal, que têm um padrão comum: não se conhecem sinais contemporâneos que as documentem, mas encaixam que nem uma luva no discurso woke sobre a responsabilidade do homem branco no estado pouco abonatório em que vivem as pessoas comuns nos novos países nascidos da descolonização.


Volto a insistir, dizer que se podia matar pretos por atropelamento e brincadeira pode ser uma memória verdadeira, no sentido em que a pessoa que diz isso está realmente convencida do que está a dizer, mas é potencialmente uma estupidez sem qualquer relação com a realidade (até por razões práticas, atropelar pessoas estraga os carros) que deve ser lida como aquilo que é: uma afirmação que precisa de confirmação com documentação existente, memórias de outros, que serão forçosamente diferentes, e confronto com o contexto social dominante e documentável.


O inverso, que consiste em tirar conclusões sobre o contexto de uma comunidade e uma sociedade, a partir de afirmações de memórias isoladas, sem verificação, pode ser muito bom para a literatura, mas para compreender o mundo, vale de muito pouco.


Eu não escrevo memórias sobre a minha vida em África, seguramente, por duas razões: a minha memória é péssima e uma infância feliz é uma coisa sem interesse (no meu caso, para além dessas duas circunstâncias, tenho uma grande tendência para não falar de coisas minhas que acho que são mesmo minhas, excepto em registos puramente descritivos, como descrever como no Lobito, de que eu pensava que não tinha memória praticamente nenhuma, de repente, sem nenhum suporte de informação prévia, a mera imersão na cidade me permitia saber o que ia ver à medida que andava nas ruas e que hoje, quase trinta anos depois dessa experiência, voltei à primeira forma, praticamente sem memória da cidade, o que aconteceu quase imediatamente depois de sair de lá), mas insisto frequentemente com toda a gente que ainda está viva e suficientemente lúcida, e que tem boa memória, para o fazer, é uma das formas mais eficientes (e, frequentemente, prazeirosas para terceiros) para que no futuro seja possível ter um quadro relativamente equilibrado de compreensão do que foi esse mundo.

14 comentários:

  1. "Quando os factos desmentem a teoria, nega-se a realidade aos factos."
    Regra básica de todo o " bom " comunista ( e seus "derivados"...)
    Juromenha

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  2. UM ex-combatente com 80 anos conta -me que um militar da sua companhia em Moçambique não regressou com a companhia no Navio NIASSA por ter dado uns sopapos num Nativo e ficou detido a cumprir a sua detenção.
    Tendo isto acontecido em 1969, portanto há 54 anos na era de Marcelo Caetano, o que prova que o regime vigente dava grande protecção aos naturais.

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  3. Pode ou não ter acontecido em África, mas este tipo de coisas aconteceu na Europa com trabalhadores italianos:
    https://en.wikipedia.org/wiki/Massacre_of_Italians_at_Aigues-Mortes (1893)


    E é conhecido na Bélgica os cartazes, nos anos 50 com a Itália já na CEE da altura, que diziam "não são permitidos cães nem italianos". (única referencia que encontro de acesso livre https://www.lavenir.net/opinions/2021/06/21/ni-chiens-ni-italiens-XWNB2CWRI5EZPBFFMMSXGHS2UM/) 

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  4. devo pertencer aos Pardos por desconhecer a origem étnica.
    na raia há Pessoas com estes nomes:
    Preto, Louro, Branco, Castanho, Moreno, Mouro ....

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  5. Exatamente!
    Manipular o passado com vista a controlar o presente é recorrente. Mas, ninguém, como os comunistas, aprimorou esta arte a níveis orwellianos. Existe, inclusive, uma piada russa, onde se diz que a Rússia é um país com um passado imprevisível...

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  6. familiar conheceu combatente que depois foi militante do Pcp o qual exibia com orgulho «colar com orelhas de preto obtidas na caça ao Minão nas picadas»

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  7. Sim, sim, há sempre um primo da cunhada do sobrinho do sogro da ex-mulher que tem histórias dessas para contar, mas até hoje mais ninguém consegue confirmar a história.

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  8. Referências do mesmo tipo: alguém diz que isso existiu, mas encontrar referências concretas, zero.
    Pode existir um parvo qualquer que tenha uma parvoíce dessas à porta seja do que for, mas o simples facto desse mito existir, de forma exactamente igual, em diferentes contextos, sem que seja demonstrado em lado nenhum, é um bom indício de que não passa mesmo de um mito.

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  9. Talvez, a história dos cartazes foi-me contada por um filho de emigrantes italianos, cujo pai trabalhou mas minas de carvão na Bélgica. O trabalho nas minas era absolutamente horrível mas bem pago. O pai dele trocou as minas pelos escritórios da UE em Schuman e foi ganhar menos (!).


    Mas não penso que seja mito urbano, já o vi repetido em mais lados: https://www.rtbf.be/article/cqfd-il-n-y-a-pas-une-seule-communaute-italienne-en-belgique-mais-plusieurs-10774681


    e aqui: https://www.agirparlaculture.be/immigration-je-t-aime-moi-non-plus/


    Aliás, cito do artigo que "os cartazes chocaram a sociedade da altura". Possivelmente os cartazes era uma demonstração de idiotismo de alguns, e não um sentimento generalizado da população. E ficaram na memória colectiva como representando a sociedade da época, quando na verdade era só uma meia-dúzia ruidosa.

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  10. Basta lembrarmo-nos do filme "A vida é bela". Há um cartaz que diz: "proibida a entrada a cães e judeus" e depois o diálogo entre pai e filho à volta desse tema. Proibida a entrada a cavalos e espanhóis, proibida a entrada a cangurus e chineses e, finalmente, a escolhida pelo filho que tinha medo de aranhas e por Roberto Benigni que não apreciava visigodos: "proibida a entrada a aranhas e visigodos".

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  11. Confundir a situação dos judeus, que legalmente eram discriminados (tal como os não brancos na África do Sul) com situações como as descritas, parece-me muito pouco útil

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  12. Não me expliquei bem, estava a fazer um comentário a isto: "Pode existir um parvo qualquer que tenho uma parvoíce dessas à porta, seja do for" e dei vários exemplos de parvoíces (cangurus e chineses, cavalos e espanhóis, aranhas e visigodos) retiradas do filme referido.
    Percebo bem o contexto do filme e as diferenças para o contexto de Moçambique, daquilo que estudei (História das Relações Afro-Portuguesas) parece-me impossível que tenha existido um cartaz a dizer: "Proibida a entrada a pretos e cães" de forma legal ou colocado pela administração portuguesa, o que não impede que um "maluco" qualquer tenha afixado um cartaz desse teor à porta de um estabelecimento comercial privado.

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