quinta-feira, 4 de julho de 2024

A brigada estatista

Sempre que se fala em baixar o IRC (e, de maneira geral, os impostos que as empresas pagam, admitindo que as empresas, e não os consumidores, pagam impostos, claro) aparece a brigada dos estatistas a explicar que isso é mau.


É uma brigada heterogénea, que vai desde os básicos, como eu (como eu, em relação a básico, nem em relação a pertencer à brigada estatista) até aos académicos sofisticados que têm sempre um estudo para citar, para demonstrar que têm razão.


O argumento a que acho mais graça é o que diz que, de acordo com o estudo tal e tal (cada vez me convenço mais que deve haver um conjunto de académicos que arrumam os estudos académicos citáveis em caixinhas, como quem arruma a despensa de casa, etiquetando-as com o argumento a que respondem, de maneira a que facilmente encontrem a citação que lhes serve para apresentar os seus preconceitos como verdades verificáveis) não está demonstrado que baixar os impostos sobre as empresas tem benefícios económicos ou sociais relevantes.


Claro que evitam cuidadosamente levar o argumento até ao fim e dizer que a política fiscal sobre as empresas é neutra do ponto de vista económico e social, mas esqueçamos isso.


De maneira geral, quando há espaço para escreverem isso, acabam sempre a dizer que a diminuição dos impostos sobre as empresas tem pelo menos uma parte que apenas serve para encher os bolsos dos donos das empresas (implicitamente dizendo que quer a dimensão, quer a velocidade, com que as empresas enchem os bolsos dos seus donos são neutras do ponto de vista económico e social), procurando excitar o preconceito social contra o lucro e os ricos.


Esqueçamos todas as dúvidas e admitamos que a baixa do IRC vai integralmente para o bolso dos donos.


Qual é o valor social de tornar os ricos mais ricos (estou, evidentemente, a deixar de lado o facto de que ser dono de uma empresa não significa, forçosamente, ser rico, pode, por exemplo, ser um fundo gestor de pensões, mas esqueçamos isso)?


O efeito dessa baixa, depois de todas as simplificações, é diminuir o dinheiro entregue ao Estado e aumentar o dinheiro nos bolsos dos riscos (a expressão "bolsos dos ricos" é frequentemente usada por razões de manipulação emocional dos leitores que me escuso de explicar).


Há quem ache que o dinheiro do Estado persegue sempre o bem comum, não é usado para financiar uma companhia de aviação, por exemplo, nem tem desperdícios e está sempre optimizado do ponto de vista da eficiência.


Para esses, evidentemente, diminuir o dinheiro à disposição do Estado é sempre uma perda, e vamos admitir que assim é.


Resta saber se essa perda é compensada pelo ganho de pôr esse dinheiro no bolso dos accionistas.


O accionista tem três opções: 1) gastar esse dinheiro, e nesse caso o seu efeito económico é o mesmo de o entregar ao Estado, que à partida também o gasta (eu sei que gastar em Ferraris não é o mesmo que gastar em prestações sociais, mas os trabalhadores da Ferrari também vão acabar por o gastar noutra coisa que não em Ferraris, incluindo impostos); 2) aforrar, aumentando a sua conta bancária, e nesse caso reforça a solidez do sistema financeiro e aumenta a capitalização da economia; 3) investir, nessa ou noutra empresa.


Ou seja, até pode ser má ideia baixar o IRC, mas convinha discutir isso com um bocadinho mais de seriedade que agitando o papão do bolso dos ricos, o nosso problema não é haver dinheiro a mais no bolso dos ricos, o nosso problema é haver dinheiro a menos no bolso dos pobres, e é muito discutível que a melhor maneira de aumentar o dinheiro no bolso dos pobres seja entregando recursos ao Estado em vez de aumentar o funcionamento eficiente da economia.

27 comentários:

  1. Compare-se o IRC nos Países da UE. A Irlanda, sem crude mas com um baixo IRC, mantem um invejável nível de vida.

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  2. se não paga  o lucro em irc ( 21%) , paga os dividendos em irs ( 28%).

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  3. Não é bem assim, por exemplo, a política da Jerónimo Martins é distribuir metade dos lucros como dividendos, a outra metade não

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  4. Boa tarde, Henrique P.
    - Tenho-me por homem de esquerda, nada tenho contra os ricos, mas a acumulação da riqueza em uma minoria, enquanto a imensa maioria, espalhada pela Terra está privada de alimentos (milhões morrem de fome), saúde, habitação, educação, ... Luto contra esta injustiça social. Os ricos apenas são apanhados no meio desta luta para derrubar o sistema económico e social que tais injustiças permite.
    - Distingo-me de uma esquerda que não põe em causa os princípios deste sistema económico, mas que apenas lhe querem dar um rosto humano, apresentável e apaziguador das consciências.
    - Distingo-me de outra Esquerda que se revê neste canto, que transcrevo para português certamente não será a mais fiel, mas creio que transmite a ideia central.
    [...]Mas um dia virá
    Que haja Justiça na Terra
    Em que os pobres comam pão
    E os ricos merda, merda."
    Nunca concordei com os dois últimos versos, e canto-os como acho justo
    - "Em que todos comam pão
    E ninguém coma merda."
    - A minha Esquerda (= justiça social) tem sustenta-se, entre muitas outras, neste trecho de - "Viagens na minha Terra", Almeida Garrett, que viveu o Liberalismo, na sua afirmação plena, em Inglaterra."
    [...] Andai, ganha-pães, andai reduzi a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal; comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. - Que lho digam no Parlamento Inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve andar orçado o número de almas é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se que se tem de entregar ao cemitério antes do tempo para se fazer um tecelão rico e fidalgo como sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro (1), um granjeeiro - seja o que for: cada homem rico abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. [...]
    (in "Viagens na minha Terra, pág 46, Editora Ulisseia, 11ª edição, Lisboa 1999.)
    (1) - Quando os acionistas levam os bancos à falência por má gestão, por falcatruas e quiçá roubo quem paga a conta são os netos daqueles infelizes que os fizeram ricos.
    - Sou um homem de esquerda que não quer branquear a face do sistema económico vigente (= acumulação da riqueza em muitos poucos). Sou de uma Esquerda que quer derrubar este sistema económico em que vivemos para um outro em que todos comam Pão por igual.
    - De mim já disseram muitas coisas:
    . pequeno-burguês reacionário limitado por preconceitos católicos.
    . de fazer o jogo da direita.
    . podes ser o que quiseres, de esquerda não és.
    . serias um perigo ambulante, se convencesses alguém.
    - Algumas coisas sei.
    . Sei de onde venho e que não quero continuar neste caminho.
    . Sei que quero acabar com esta tradição económica (= acumulação da riqueza nuns muito poucos) que remonta a meados do séc. . Que o caminho se fará caminhando.
    Zé Onofre

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  5. sim , mas quando os distribuir tem de pagar.  a não ser que invista os lucros e passa a despesa.
     indecente era o pec , pagamento especial por conta.

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  6. Confesso que não percebi o que quer fazer, só percebi o que quer desfazer

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  7. Não é verdade. Procure bem sobre as aplicações possíveis de resultados líquidos.
    De resto, não há alternativa entre pagar IRC e IRS dos dividendos, há acumulação: só há resultados líquidos depois de pagos os impostos, incluindo IRC. Depois volta a pagar impostos sobre esses resultados se entrarem como rendimento de capital de uma pessoa.

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  8. do catedrático Daniel Oliveira
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  9. a política fiscal sobre as empresas é neutra do ponto de vista económico e social


    Como assim? Não percebo esse conceito da neutralidade...



    Há quem ache que o dinheiro do Estado persegue sempre o bem comum


    Tão válido quanto o oposto, ou qualquer outro dogma.


    O accionista tem três opções:


    E o Panamá, não conta como opção?

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  10. O Daniel Oliveira escreveu o que escreveu apenas para esconder a sua ignorância e para mostrar o seu mau feitio de uma arrogância desmedida.

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  11. Antonio Maria Lamas5 de julho de 2024 às 11:19

    Durante o mandato de Ronald Reagan, o seu Secretário de estado do tesouro, Donald Regan, foi questionado no Senado por um Democrata, se ele sabia que a secretária pagava menos impostos que a Standard Electric, ele respondeu, sim, mas a secretària não empregava 100.000 pessoas.
    É isto que a esquerda fanática não percebe 

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  12. "
    [17] (https://www.sage.com/pt-pt/blog/aplicacao-de-resultados-opcoes-limitacoes-e-beneficios-fiscais/#_ftn17)RFAI (https://www.sage.com/pt-pt/blog/incentivos-financeiros-e-incentivos-fiscais-pt2020-e-rfai/)

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  13. é obrigado por lei a distribuir metade dos lucros.

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  14. Esqueceu-se de citar o que vem depois.
    Em qualquer caso, como vê, pode não distribuir os lucros como dividendos, pelo menos parcialmente.

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  15. Correcto. 
    Nos tempos que correm, existe outra esquerda?

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  16. O principal imposto para as empresas e para o país é a "imposição" que recai sobre uma empresa (ou patrão) de só poder contratar legalmente um trabalhador tendo que lhe pagar no mínimo o salário mínimo para o ano em curso.
    Esse é o principal obstáculo bloqueador para as empresas e para o país e não o IRC. Essa "imposição" (imposto), bloqueia também a criação de milhares de novas empresas que gerariam novas oportunidades para empresário e trabalhadores, produtos e serviços para o mercado e impostos para o Estado.
    O actual salário mínimo para 2024 é o de 820 euros mensais e 11 480 euros anuais.
    Logo o patrão tem como custos com pessoal por trabalhador de 11 480 + 23,75% de 11 480 de descontos por parte da entidade patronal + 11 480 de 1% de seguro laboral, ou seja, 11 480 + 2 726,50 + 114,80 = 14 321,30 euros.
    Ora, como sabemos, as empresas precisam de ter lucro para mais facilmente sobreviver. Sabemos que esse lucro, além de ter de ser superior aos 14 321,30 euros, têm de cobrir os custos variáveis e os custos fixos como os fornecimentos e serviços externos e também os custos financeiros e em situações mais extremas, novos investimentos em activo fixo e, já agora, em I&D e, obviamente, dividendos.
    Admitamos que os empresários não trabalhem para aquecer e exigem uma remuneração mínima do seu investimento de pelo menos 20%.
    Agora, já se pode ter uma pequena ideia do nível de performance que os trabalhadores têm de ter para não só manter o seu emprego como gerar lucros para as suas empresas.

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  17. Peço antecipadas desculpas por fugir ao assunto.
    <i>



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  18. sim , mas passa a investimento...

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  19. e não esqueci , não deixa publicar comentários tão longos , por isso meti o link.

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  20. exactamente. 
    o salário mínimo   é uma aberração , ele há gente que nem 25% do salário mínimo merece. o salário mínimo favorece os maus trabalhadores e prejudica enormemente os bons. e lixa os empregadores.
    e subir o salário mínimo como têm feito , de repente e muito , é de doidos. e o objectivo  é unicamente aumentar a colecta , não tem a ver com o trabalhador , como muitos pensam.
    acresce que as indeminizações por despedimento são calculadas com base no salário do ano do despedimento..

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  21. Boa tarde, Henrique P. Moura
    O que desejo, e pelo que luto, é o fim de uma sociedade assente num sistema económico que leva inevitavelmente à acumulação da riqueza nas mãos de uma minoria da população Mundial, os analistas de todos os quadrantes calculam essa minoria entre o 1 e os 10%. 
    Tem razão isto é por mim explicado claramente.
    O que desejo, e pelo que luto, é por uma sociedade em que todos comam Pão (símbolo do essencial) e que ninguém coma "merda". Ora isto quer dizer, sem dúvidas creio eu, construir uma sociedade em que a riqueza natural e a produzida seja distribuída igualmente por todos os Cidadãos do Mundo, sem acumulação da riqueza nos tais dez por cento e que se acabem de uma vez por todas com as bolsas de miserabilidade e de pobreza e de sobrevivência.
    Esta é a sociedade e sistema económica que desejo, e pela qual luto, para que seja construída.
    Como se organizará essa sociedade, é algo que não se pode predefinir dogmaticamente, mas que irá tomando forma conforme se for construindo.
    Bom fim de semana,
    Zé Onofre

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  22. Confirma, portanto, que não sabe o que quer fazer, só sabe o que quer desfazer.
    Há, sobre isso, dois pequenos factos que convém não esquecer: 1) As sociedades eram assim e as pessoas não viviam melhor, viviam pior, sobretudo os mais frágeis; 2) Sempre que mais tarde se tentou retornar a essas sociedades mais ou menos igualitárias, o resultado foi o mesmo: menos igualdade e mais pobreza para todos, em especial para os mais pobres

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  23. Olá outra vez
    É que a esquerda que entendo não tem um projeto de sociedade idealizado.
    Tem princípios - produzir riqueza, conhecimento, explorar racionalmente as riquezas naturais, deixar de produzir bens em excesso, mas apenas os necessários para se viver com dignidade (alimentação, saúde, habitação, lazer, ...). Estes são os princípios a atingir. Conforme se forem atingindo assim se organizará o sistema económico que lhe dará suporte.
    Não cria, não importa, não segue modelos. A partir de todos que a Humanidade criou (sociedade recolectora, pastoril, agrária, imperialista, fundiária feudal, mercantil, fundiária absolutista, liberal, socialista) algo de novo surgirá.
    E como será uma sociedade dinâmica não estagnará em modelos predefinidos.
    Esquerda utópica? Esquerda realista? Esquerda revolucionária? Talvez tudo isso e mais alguma coisa.
    Seguir em frente não custa. O que custa é marcar passo sem perspetivas de um futuro diferente.
    Como vê não é só desmantelar, é construir um passo mais à frente.
    Zé Onofre

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  24. A questão é que o futuro do passado tem sido muito melhor que o passado do passado, ao contrário do que diz
    Poverty - Our World in Data

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  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...