(...) É um problema difícil, e a líder parlamentar do PS, Alexandra Leitão, deu na semana passada um contributo importante para a sua solução aqui mesmo, no Expresso. Foi num texto chamado, precisamente, ‘O paradoxo da tolerância’. Bibliografia: um meme. A leitura do texto deixa claro que Alexandra Leitão estudou atentamente uma banda desenhada que circula na internet, e que faz um resumo de uma ideia do filósofo Karl Popper. O artigo de Alexandra Leitão termina citando: “Como defendeu Karl Popper na sua obra ‘A Sociedade Aberta e os seus Inimigos’, a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles.” É verdade. De facto, a citação encontra-se no livro “A Sociedade Aberta e os seus Inimigos”. Alexandra Leitão identifica bem a origem da frase, até porque isso também é referido no meme. O que o meme não refere é, por exemplo, que a frase figura numa nota de rodapé. Nada contra as notas de rodapé nem contra a expressão de ideias importantes em notas de rodapé. Sucede apenas que as notas de rodapé têm letras mais miudinhas, e talvez isso provoque algum cansaço no leitor. Pode ser que isso explique a razão pela qual o meme também não refere que a frase que se segue àquela que Alexandra Leitão cita é esta: “Com esta formulação não pretendo, por exemplo, dizer que devemos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes.” Reparem que não é uma ideia que surge num capítulo diferente daquele em que está a frase colhida por Alexandra Leitão, nem noutro ponto da vasta obra de Karl Popper. É mesmo a frase seguinte. Ou seja, Alexandra Leitão foi muito pedagógica. Mostrou às crianças e jovens que não se deve tentar estudar obras complexas através da leitura da sua versão em banda desenhada.
Que queria, então, dizer Karl Popper? Proponho que continuemos a ler o texto, lamentando embora que ele, na versão original, não seja acompanhado de bonecos. Diz assim: “Contanto que possamos contrariar [os discursos intolerantes] com argumentos racionais e mantê-los sob o escrutínio da opinião pública, a sua supressão seria extremamente insensata.” É possível que a expressão “extremamente insensata” seja demasiado grande, ou demasiado aborrecida, para caber num quadradinho, e fosse perturbar a admirável brevidade do meme. Mas é pena, porque assim estamos perante o fenómeno estranho e, creio, inédito de haver uma coisa a circular na internet que apresenta a realidade de forma imprecisa e meio distorcida. Espero que seja uma vez sem exemplo.
Mas afinal, em que ocasião defende Popper a intolerância com os intolerantes? Continuemos: “No entanto, devemos reclamar o direito a suprimi-lo [o discurso intolerante], se necessário através da força; pois pode facilmente acontecer que eles [os intolerantes] não estejam preparados para nos enfrentar ao nível do debate racional, mas comecem a renunciar ao próprio debate; podem proibir os seus seguidores de ouvir argumentação racional, por ser esta enganadora, e ensiná-los a responder a argumentos com a força de punhos ou de pistolas.” É quando isso acontece, isto é, quando os intolerantes recorrem à violência, que, diz Popper, “devemos reclamar o direito a, em nome da tolerância, não tolerar os intolerantes”. E conclui dizendo: “Devemos proclamar que qualquer movimento que pregue a intolerância”, ou seja, que defenda a substituição do debate pelas armas, “está fora da lei, e considerar criminoso o incitamento à intolerância e à perseguição, do mesmo modo que consideramos criminoso o incitamento ao homicídio, ao sequestro ou à reinstauração da escravatura”. É uma ideia bastante simples e sensata. Mas Alexandra Leitão não parece percebê-la — nem que lhe façam um desenho.
Ricardo Araújo Pereira na revista do Expresso aqui na integra
Este Araújo também é um grande Popper. Felizmente não pesco nada de filosofia. Nem da barata.
ResponderEliminarFeliz dia da criança é o que eu desejo.
A.L.com raciocínio difícil de encaixar
ResponderEliminarO livro A Sociedade Aberta e os seus Inimigos de Karl Popper, é uma obra de leitura obrigatória para se entender a tirania, extremismo, e a intolerância, que os liberais/maçonaria pretendem impor nos Países que dominam de forma ilegítima.
ResponderEliminarOu se é liberal, pelo liberalismo/maçonaria, ou então deve ser submetido ao silenciamento e até eliminado; todo o pensamento e ideias diferentes da narrativa oficial ou que colocam em causa e desmascaram a agenda política, económica, e de engenharia do social que o liberalismo pretende impor, não podem ser aceites.
O liberalismo serve-se da palavra liberdade para encobrir a tirania e o despotismo. - Roberto Woodhouse
ResponderEliminarNesta democraciazita de pacotes partidários A. Leitão viveu, com granda afã, o seu microsegundo de emprestada glória nacional. Feliz.
Agora de volta à sua miopia, sim, nem percebeu o que se estava a dizer. Ironia do orador forte demais para tanta fé clubística?. O que é que os turcos têm a ver com o que orador dizia?. Não reparou que se ironizava sobre "construir aeroportos"?.
Aliás gabando comparativamente chefes e operários turcos?.
Ficou-se pela epiderme da preleção. "
Isto é crueldade com os animais
ResponderEliminarDevemos ser intolerantes para quem obriga as mulheres a taparem-se todas, é isso?
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