terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Mais memórias para esta campanha eleitoral

Numas arrumações, encontrei o Público de 19 de Julho de 2017.


Já antes tinha encontrado o de um mês antes, onde tinha o artigo que fiz que talvez seja o cúmulo da minha influência na discussão pública, não porque seja o melhor, mas porque quando os que sabem muito mais de fogos se recusaram a escrever ou falar sobre Pedrogão em cima da tragédia, por respeito pelas mortes ocorridas, eu desalinhei e escrevi, por respeito pelos potenciais mortos do futuro (no Chile, por estes dias, morrem mais de 100 pessoas em fogos, é bom lembrar, para não se pensar que o que aconteceu em 2017 não volta a acontecer).


E no meio de tanta gente, a começar por Marcelo Rebelo de Sousa, insistia na tecla de que tinha sido uma tragédia apesar de se ter feito tudo o que era possível fazer, o que escrevi na altura desalinhava e dizia que não, não era verdade que fosse imprevisível (como continua a não ser verdade que não estejamos a caminhar para outra tragédia, lá por 2030, mais ano, menos ano, esperando-se que dessa vez morra menos gente, ou mesmo não morra ninguém, apesar da dimensão dos fogos que irão ocorrer, não sabemos quando).


Mas é do Público de 19 de julho de 2017 que quero falar.


Uma das manchetes da capa diz, em letras bem gordas: "Portugal vai ter menos eucaliptos após cedência do Governo à esquerda". Em subtítulo, ainda na primeira página "Parlamento aprova hoje parte da reforma da floresta. Maratona negocial seguiu noite dentro. Destaque, 2 a 5".


Comecemos por fazer notar que os jornalistas do Público, os que escrevem sobre o assunto, mas também os responsáveis editoriais, acharam mais relevante afirmar que Portugal ia ter menos eucaliptos depois da cedência à esquerda, que dar informação consistente sobre que reforma da floresta era essa que ia ser aprovada.


Logo na tal página 2, a grande fotografia do destaque é o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, com Catarina Martins a intervir no parlamento, o título é peremptório "Está decidida a redução do eucalipto - plantação só com autorização prévia" e no lead finalmente alguma informação relevante: "Governo só fechou acordo sobre a floresta com o PCP e Bloco minutos antes da votação. Ao primeiro cedeu no cadastro retirando do banco de terras os terrenos sem dono, e ao segundo na diminuição do eucalipto".


Aparentemente os jornalistas do Público acreditam no pensamento mágico de que uma alteração de uso do solo, como o eucaliptal, aumenta ou diminui em função de decisões administrativas e não em função das decisões concretas dos gestores de terras, legais ou ilegais.


A realidade bem demonstra que a área de eucalipto continua, paulatinamente a aumentar, que nem por isso os jornalistas do Público, os deputados do Bloco de Esquerda e os muitos que apoiaram essas decisões políticas e administrativas irracionais, alguma vez vão admitir que realmente mais valia decidir mais racionalmente e com menos confiança no pensamento mágico.


Na página 5 encontro a razão de eu ter este jornal num monte de papeis velhos: um artigo de página inteira escrito por mim.


Depois de uma longa explicação sobre o que me parecem ser as raízes do problema, sugerindo um conjunto de respostas aos problemas que identifico, pergunto-me se o governo nesta reforma tinha decidido deixar de capturar os recursos existentes para a gestão do sector, transferindo parte do dinheiro disponível para o mundo rural do apoio à produção para pagar os serviços de ecossistema.


E acabo a responder a mim próprio.


"Não, o Governo resolveu inventar um problema de propriedade, como se não fosse a falta de competitividade que conduz à ausência de dono, e não a inversa, resolveu inventar um problema com uma das fileiras mais competitivas, a pretexto da sua relevância para a existência de fogos (o eucalipto representa 13% da área ardida, portanto 1% menos que as áreas agrícolas, que representam 14%), resolveu embrulhar-se em discussões bizantinas sobre planos e competências administrativas, bancos de terras cuja viabilidade económica ninguém discute, repisar o problema da dimensão da propriedade quando a maior parte do valor acrescentado da floresta é produzido na região de minifúndio, etc., etc., etc..


Como ao Estado não lhe convinha fazer o que estava perfeitamente ao seu alcance, em matérias que lhe dizem respeito, resolveu mandar os proprietários fazer o que convinha ao Estado, dizendo que estava a fazer a reforma de uma floresta que não lhe pertence.


A probabilidade disto tudo ter qualquer utilidade deve ser mais pequena que a de eu ganhar o Euromilhões, mesmo sabendo que eu não jogo".


Seis anos e meio depois, a jornalista que assina a peça ainda escreve no Público, portanto poderia perfeitamente avaliar se a razão era sua quando resolveu dizer que Portugal ia ter menos eucalipto graças ao Bloco de Esquerda, ou se realmente a chamada reforma da floresta foi "um esforço inútil, um vôo cego a nada", como diria o Reinaldo Ferreira e como previa eu nesse artigo de opinião.


Mas não, a jornalista, o jornal, os outros jornalistas, e todos os que os apoiarem neste fronda, raramente se dedicam a esta tarefa de avaliação do seu trabalho, para ganharem experiência e não se deixarem enganar facilmente porque qualquer demagogo.


E não precisam de ir tão longe nesta análise como eu fui neste post, poderiam fazer o que fiz um destes dias, por mera curiosidade pessoal.


Tenho evitado fazer comentários sobre a Iniciativa Liberal antes das eleições, para além dos que já fiz, mas fui verificar se o que eu tinha influenciado fortemente no programa anterior do partido tinha ficado no actual programa para estas eleições o que me serve para ilustrar o potencial informativo que advém do respeito pela história.


Sem surpresa, parte foi ficando, parte desapareceu e o sentido geral tem coisas que ficaram (a ideia de uma política de conservação mais contratual e menos regulamentar) e coisas que ou desapareceram, ou foram fortemente limitadas, como o pagamento dos serviços de ecossistema, dos quais, aliás, eu falava nesse artigo, ainda anterior à Iniciativa Liberal.


De trave mestra do programa anterior - o pagamento de serviços de ecossistema - em matéria de conservação da natureza e floresta, passou a nota de rodapé em que depois de se dizer que o que compete ao Estado é produzir indicadores e acompanhar a execução de planos de áreas protegidas, até se concede que "Nas circunstâncias onde o justifiquem, pode ser o próprio Estado a pagar diretamente aos proprietários pelos seus serviços de ecossistema" (e nem falo da ideia anti-liberal de permitir "às entidades de gestão cobrar serviços de ecossistema pelo seu usufruto", que atribuo à opção de pôr a garotagem, sem experiência concreta dos assuntos, a fazer programas eleitorais).


O relevante aqui não é a evolução da Iniciativa Liberal, mas o potencial informativo que existe na comparação dos diferentes programas políticos que são apresentados, pelos partidos, a diferentes eleições, bem como a avaliação dos resultados concretos de políticas executadas, neste caso da putativa reforma florestal.


Sem memória, todo o discurso sobre o futuro é vazio e, aparentemente, o jornalismo tem estado mais focado em prevêr o futuro a partir de borras de café que em o discutir a partir dos resultados concretos das políticas executadas.

6 comentários:

  1. Bem visivel há dias com as marchas dos policias, hoje os bombeiros.
    Faltam archotes na procissão.
    com o 10 M da recuperação nacional.
    A ver pelos vendedores de ilusões, o paraíso ao virar da esquina.
    Revisitando o Verão 75.
    A bem do Regime.

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  2. Eu diria que o jornalismo é um grande produtor de demagogia com convicção por isso a premissa que sequer estão a ser enganados tem fortes probabilidades de ser falsa e na verdade estão de acordo com engano.

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  3. Para poder usar no futuro.

    Na remota União Soviética, a professora primária, membro do partido, perguntara ao menino Ivan:


    - "Menino Ivan, qual é a diferença entre Capitalismo e Comunismo"? 


    Responde o menino: 


    - "Sra professora, o Capitalismo é a exploração do Homem pelo Homem, e o Comunismo é exactamente o contrário".

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