sexta-feira, 20 de agosto de 2021

O desassossego de sermos livres

"Para terminar, volto à ideia da “Atlantic”: porque é que tanta gente não quer sair do confinamento? Porque é que tanta gente prefere a segurança e a ilusão do risco zero em relação à liberdade? Paradoxalmente, o medo dá segurança conceptual e, acima de tudo, dá uma receita moralista que garante uma alegada superioridade moral àqueles que erguem bem alto o estandarte do medo enquanto única saída.


Do ponto de vista epistemológico, nada dá tanta segurança conceptual como o medo em relação a um único inimigo: só há uma coisa, esse inimigo, para percecionar. O resto da realidade, a imensidão de fenómenos e factos da vida, desaparece. Acompanhar cinco, dez ou quinze fenómenos de uma realidade pluralista exige um esforço mental permanente e colossal. Ao reduzir a realidade a um único item, o medo torna a vida intelectual mais simples e isso tranquiliza, dá segurança, temos a sensação de que controlamos tudo. Neste caso, só interessa ver o Excel diário da covid. (...) Já não interessa a cultura da liberdade e a banalização do estado de emergência, tal como a banalização dos pedidos de censura e silenciamento daqueles que ousam questionar a realidade reduzida a um único item. Fazer perguntas torna-se num ato imoral, repulsivo. Pois bem, se a realidade está reduzida a um único problema, o medo também é um calmante moral, porque acaba com os dilemas da escolha. Se tudo é covid, então não há escolhas e equilíbrios a fazer nas nossas escolhas. "


A ler na integra este estimulante ensaio do Henrique Raposo no Expresso de hoje


* Fernado Pessoa em “O Banqueiro Anarquista”

1 comentário:

  1. https://observador.pt/opiniao/e-urgente-a-catastrofe/


    (Muito bom também.)

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