Já li, sem nunca ter vontade de parar, as mais de 850 páginas de “M – O Filho do Século”, de Antonio Scurati, a “biografia ficcionada” ou “romance documental” sobre Mussolini, que incide sobre os anos que vão de 1919 a 1924, quando conquista o poder. É um excelente livro e aprendi imenso sobre um período e uma personagem a que nunca tinha dedicado grande atenção. A primeira coisa que mais impressiona é o grau de selvageria com que os fascistas actuam, com execuções sumárias de adversários, muitas vezes com requintes de crueldade - como, por exemplo, matar pais em frente aos filhos - batalhas de rua, queima de edifícios, fazendo da apologia da violência um programa político. É certo que, do outro lado, estavam socialistas radicais (a cisão que daria origem ao Partido Comunista Italiano ocorreria em 1921) que davam vivas a Lenine e agiam muitas vezes com igual violência sobre quem consideravam adversários, incluindo os militares regressados da Primeira Guerra, que acusavam de ter lutado numa “guerra burguesa”. Uma época de barbárie.
A segunda coisa que mais me surpreendeu no livro foi precisamente a proximidade que há entre os primeiros fascistas e os socialistas/comunistas. Achava que a passagem de Mussolini pelo Partido Socialista Italiano tinha sido episódica, um “desvio de juventude” como tantos tiveram. Qual o quê. O futuro Duce nasceu em 1883 e desde 1902 - então emigrante na Suíça - que militava pelo socialismo (aliás, o seu pai era um operário socialista) e, quando voltou a Itália, continuou a defender a revolução socialista e o derrube do capitalismo, à boa maneira bolchevique, chegando a director do “Avant!”, o jornal oficial do partido. Só em 1914 foi expulso, não por grandes divergências ideológicas, mas sim porque defendeu a intervenção de Itália na Primeira Guerra, contrariando a direcção socialista.
Para se ter uma ideia, em 1919, o programa dos “Fasci di Combattimento”, conforme o livro revela, inclui muitos temas caros aos socialistas revolucionários: jornada laboral de oito horas, salário mínimo, representação sindical nos conselhos de administração, gestão operária das indústrias, distribuição aos camponeses das terras não cultivadas, impostos extraordinários de carácter progressivo sobre o capital, confiscação de todos os bens das congregações religiosas, entre várias outras medidas de que nenhum bolchevique desdenharia. Aliás, não era só Mussolini, também outros dos principais dirigentes fascistas vinham das fileiras do socialismo revolucionário, caso dos influentes Cesare Rossi, Michele Bianchi, Giovanni Marinelli, Roberto Farinacci ou Mario Giampaoli. Já no poder, Mussolini funda a sua polícia política, a Ceka, inspirado na Tcheka de Lenine. Só mais tarde, precisamente por darem combate violento aos “vermelhos”, os fascistas - que tiveram resultados ínfimos nas eleições - passariam a ser oportunisticamente apoiados por latifundiários e industriais, iniciando-se a viragem à direita.
Devo ainda referir outro facto que me impressionou no livro, tanto mais que sou monárquico. A inacção quase cúmplice com que o rei de Itália permite a “marcha sobre Roma” (na fotografia) e a ascenção e consolidação no poder de Mussolini, não se fazendo valer dos seus poderes constitucionais para defender o regime democrático. Tenho a impressão que é um dos piores exemplos da actuação de um monarca europeu no século XX e devíamos estudar mais o caso e aprender com ele.
Parece que Antonio Scurati está a preparar, ou já tem preparados, dois novos volumes sobre Mussolini que dão continuidade a este. Mal posso esperar. É bom ver confirmadas em obras destas as razões porque sou alérgico a “movimentos de massas”, sejam de esquerda sejam de direita.
ResponderEliminarA primeira coisa que mais impressiona é o grau de selvageria com que os fascistas actuam
Nesse tempo, a política em diversos países civilizados foi uma coisa muito violenta. É por isso que as análises de Rui Ramos, que condenam a Primeira República portuguesa por ter sido muito violenta e desordeira, estão erradas: Rui Ramos deveria comparar a Primeira República com o que era usual noutros países no tempo dela, e não com aquilo que é usual atualmente em Portugal.
Para além da violência na Itália, houve também imensa violência na Alemanha em 1919, e na Rússia (e Polónia) houve uma guerra civil de brutal violência.
ResponderEliminarA inacção quase cúmplice com que o rei de Itália permite a “marcha sobre Roma”
Não entendo. Então os monárquicos querem que o rei se limite a ser um símbolo, que não tenha intervenção prática na vida política, ou querem pelo contrário que ele seja interventivo? Querem um rei tipo D. Carlos, ou tipo rainha de Inglaterra?
estaline, mao, hitler, mussolini todos socialistas
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ResponderEliminarPrimeiros Fascistas?
Fascistas Italianos são Socialistas e sempre tiveram proximidade com a ideias da esquerda Marxista, a única coisa que rejeitam é a necessidade de luta de classes que substituíram pelo corporativismo. Vários membros do Fascismo defendiam a aliança com a União Soviética mesmo em pleno "compromisso" com a Monarquia. Aliás a Itália de Mussolini foi dos primeiras potências Europeias a reconhecer a URSS.
Quem escreveu, ou melhor de qual foi o partido quem escreveu em 1936 um apelo que começa assim: "Ai Fratelli in Camicia Nera" "Aos irmãos em Camisa Negra"?
Quem Mussolini colocou como todo poderoso líder do IRI- Instituto de Reconstrução Industrial em 1933 ?: Alberto Beneduce
Um socialista que chamou a duas das suas filhas Idea Nuova Socialista e Vittoria Proletaria.
Quem fornecia tecnologia naval e navios para a Marinha Soviética e patrulhas para NKVD? quem entregou o destroyer Taskhent em 1939?
Quem iniciou assim que se viu livre do compromisso com a Monarquia que ficou no sul com os Aliados a "socializzazione dell'economia" em 1943? https://it.wikipedia.org/wiki/Socializzazione_dell%27economia
O programa que tentava acabar com a "exploração do homem pelo homem"...
Com Niccola Bombacci ao leme, um Socialista/Comunista tratou directamente com Lenine e foi assassinado junto com Mussolini.
Isto não foi o inicio.