terça-feira, 5 de maio de 2020

Estado de sítio (26 e último)

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Coronavírus hoje em Portugal – 25.702 casos, 1.074 vítimas mortais


Ontem retomei o trabalho no meu escritório em Cascais, agora que em casa as rotinas do novo normal estão estabilizadas. Os miúdos têm aulas virtuais com horários e a nossa empregada voltou ao serviço, que significa um considerável alívio nos afazeres domésticos.


Esta manhã à porta do meu escritório fui intimado a manter distância por uma senhora descabelada que passava na rua (bastante afastada diga-se) e que me tirou do sério. Desconfio que haverá muita gente que, sugestionada pelo disparatado cartaz da câmara municipal, não só "perdeu o medo de ter medo", como está a adorar a experiência. Outra impressão que me fica da vila de Cascais por estes dias é que, na ausência de turistas, e estando ainda encerrados ou a meio-gás a maior parte dos organismos públicos, o perfil da população com que nos cruzamos nas ruas é maioritariamente composto por imigrantes, gente que não se pode dar ao luxo do teletrabalho e menos ainda ao confinamento. Será esta pobre gente a maior vítima do coronavírus, suspeito. Nota-se que a maior parte das lojas, tirando os bares e restaurantes, já abriram as portas mas desconfio que os clientes ainda serão poucos. Cascais sem forasteiros não tem economia que lhe valha.


Uma nota ainda sobre o escândalo das celebrações do 1º de Maio na Fonte Luminosa, por decreto presidencial e votado quase unanimemente no parlamento, enquanto as autoridades expulsavam algum afoito cidadão que se atrevesse a ler um livro num banco do jardim: trata-se quanto a mim um paradigmático acontecimento, muito mais grave do que nos querem fazer crer. Aquele circo diz muito sobre a irrelevância da nossa sociedade civil e da tibieza das nossas instituições, que com demasiada facilidade se ajoelham às oligarquias do costume que nos toureiam e tomam por parvos. As desculpas esfarrapadas de Marcelo Rebelo de Sousa são confrangedoras e uma metáfora do país que somos – temos aquilo que merecemos. Sintomática é também a complacência da maior parte da comunicação social “de referência” e das suas principais personalidades que se submetem sem pudor à subterrânea lei dos donos disto tudo. Expulsaram eles os nossos saudosos reis para suportarmos, mansos e venerandos, esta porca miséria. Às vezes tenho vergonha de fazer parte desta charada a que chamam país. Que aguenta tudo, bem sei.


Com esta crónica termino esta série que intitulei “Estado de Sítio”, a modos que o meu testemunho destes tempos estranhos em que um vírus de medo nos contagiou a todos e que nos fez viver confinados nas nossas casas durante quase dois meses. Aqui chegados, sobrevivemos. Espero que os danos sofridos tenham valido a pena, porque suspeito que a mais assustadora peste é o que vem a seguir.

8 comentários:

  1. por decreto presidencial e votado quase unanimemente no parlamento

    O decreto presidencial não foi votado no parlamento. O parlamento dá autorização ao presidente para decretar estado de emergência, mas não discute nem vota o decreto que o institui. Esse decreto é da exclusiva responsabilidade do presidente. Foi exclusivamente o presidente quem decidiu autorizar as celebrações do primeiro de maio.

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  2. Cascais sem forasteiros não tem economia que lhe valha.

    Cascais e, de facto, grande parte do Sul do país. A economia do Sul do país irá na maior parte por água abaixo devido à ausência de turismo.

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  3. à porta do meu escritório fui intimado a manter distância por uma senhora descabelada que passava na rua (bastante afastada diga-se) e que me tirou do sério

    Não saia do sério por causa disso, João Távora, porque de facto há muita gente assim, e é preciso ter muita paciência e caridade com ela.
    Até porque não têm muita culpa, dado que as autoridades ensinaram cuidadosamente, e erradamente, a população que o vírus se transmite por partilharmos o ar que respiramos.

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  4. Os cães ladram...e a caravana passa.
    Aquele sorriso « irritante » expressando abertamente o deslumbramento sobre si próprio  é o emblema deste grupo de amigos e familiares que se apoderou do poder. Com 15% dos votos dos eleitores, é preciso não esquecer. Embora ninguém mas ninguém se atreva a chamar a atenção para esta perversao do regime saído do acordo mfa/partidos.

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  5. Já que o João Távora está de volta a Cascais, esclareça-me por favor uma coisa: o paredão e os acessos às praias do centro (Pescadores e Rainha) já estão reabertos? Ou ainda permanecem bloqueados?

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  6. As passagens para o paredão (e portanto para as praias) estão vedadas com um uma fita, assim como os jardins e parques infantis. A policia está bastante activa a dissuadir os mais afoitos.

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  7. Obrigado. Já calculava que ainda estivesse assim. Provavelmente só abrirão em junho... se abrirem.

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