terça-feira, 6 de agosto de 2019

Os últimos cartuxos

cartuxo.jpg


Claro que me incomoda profundamente o encerramento do Convento da Cartuxa em Évora, o último mosteiro contemplativo masculino existente Portugal. Hoje, um espasmo de gozo aliviou momentaneamente o tormento de Afonso Costa a arder no inferno dos déspotas. Vem nas notícias: com idades entre os 80 e os 90 anos, os quatro monges que lá resistem em clausura, em "silêncio, oração e absoluta entrega a Deus", em Outubro vão ser transferidos para outro mosteiro, em Barcelona. A questão que me aflige não tem tanto que ver com o destino a que irá ser dado àquele precioso património monumental e arquitectónico, mas ao facto da ordem em Évora, nas últimas frívolas décadas, não ter sido capaz de se renovar. Um sinistro sinal dos tempos. Quem não acredita que a oração (e o silêncio, meu Deus, o que fizeram ao silêncio?!) seja vital para a nossa harmonia como pessoas e sociedade, talvez perceba que estas ancestrais comunidades ao se extinguirem, na mesma medida em que vão perdendo corpo as velhas paróquias e rareando as famílias com laços sólidos, deixam expostos os indivíduos, cada vez mais solitários e vulneráveis, ao controlo e voracidade do cada vez mais desmesurado Leviatã, e à sua sagrada Ordem - aparentemente só querem os nossos impostos mas estamos bem domesticados. Não quero ser desmancha-prazeres, mas suspeito que isto, antes de um dia se voltar a humanizar, ainda vai piorar muito.


Fotografia daqui

6 comentários:

  1. O António, como eles ainda são muito novos e estavam a incomodar muito, manda-os também emigrar… era um assunto de primeira necessidade!

    ResponderEliminar
  2. Caro João Távora,
    No século passado, ou seja, há muito tempo, tive a oportunidade, graças a uma longa amizade de meu pai por um monge cartuxo, de lá ter entrado. Foi um momento único - eu seria incapaz de seguir os seus passos - de fé, mas mais do que isso de um silêncio dialogante com o Senhor, que ma marcou profundamente! 

    ResponderEliminar
  3. estas ancestrais comunidades ao se extinguirem deixam expostos os indivíduos, cada vez mais solitários e vulneráveis

    Não vejo como, uma vez que estas comunidades de monges, por serem solitárias, confinadas, e sem interação com o mundo exterior, só aproveitam aos próprios membros da comunidade, e não a todos os outros indivíduos.

    ResponderEliminar

  4. J. Távora,
    Um dos mais belos, tranquilos e elevados posts da Net em Portugal. Sobretudo quando se vai ver o link para a pastoral da cultura.
    Num país de tontos, há sempre tontos a escrever tonterias.


    Obrigado,
    ao

    ResponderEliminar
  5. Caro Lavoura
    O sentido do texto é mais profundo que isso.
    Efectuou umas amputações estratégicas que parecem tirar sentido a palavras que fazem sentido, fazem muito sentido.
    Não sei se alguma vez efectuou um retiro espiritual, se não, recomendo a experiência.
    Um dia, dois dias, sem falar, sem comentar, compulsivamente, tudo o que se escreve na "internet".
    Disse comentar mas poderia, aliás deveria ter escrito: contrariar. Está sempre contra tudo, ninguém escreve nada que se aproveite.
    "Relax, don't do it".
    Descanse homem, se não tem nada e útil para dizer faça como os monges da Cartuxa, fique em silêncio.

    ResponderEliminar

  6. O nosso venerado Papa Francisco devia cismar, deitar um olhinho dos dele aqui para este caso…
    Há demasiada comunicação lá pelo Vaticano com o Mundo cá de fora.Há muita liberdade , muito acesso a tecnologias demasiado vanguardistas, a toda a hora, e que deve proporcionar-lhe muitas vezes a Ele ter os dissabores que tem tido. Um pouco mais de recato , de "retiro espiritual" seria muito mais benfazejo e criativo àquele Lugar que também é um tanto místico e sagrado…, um pouco mais de silêncio até.

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...