
Gonçalo Elias resumiu bem a simplicidade que é usada na discussão sobre fogos e, na verdade, o modelo pode ser aplicado em muitas outras situações.
Vem isto a propósito de uma ideia que Miguel Sousa Tavares terá difundido e que muita gente, incluindo uma série de jornalistas, repetem frequentemente a propósito do fogo de Monchique: aquilo arde tudo porque 70% (nas versões aproximadas), 73% (nas versóes rigorosas), do concelho é eucalipto.
Não é preciso conhecer Monchique para saber que esta percentagem de ocupação por um tipo de povoamento florestal é, com certeza, fantasiosa.
Mas ainda assim, repete-se, repete-se, repete-se, como se fosse um facto.
O estranho disto tudo não é Miguel Sousa Tavares dizer isto, a sua relação aberta com os factos é do domínio público e traz bastante sal e pimenta para o seu comentário político, sempre muito saboroso.
O estranho é a quantidade de pessoas razoáveis e preocupadas em manter-se dentro dos limites da realidade nas discussões, bem como a quantidade de jornalistas e afins que repetem isto sem fazer o que me parece mais evidente: verificar os números.
Eu recorri o Nuno Gracinhas Guiomar (uma fonte inesgotável de informação fiável em matéria de ocupação do solo, fogos florestais e outras coisas mais) porque era mais fácil para mim, mas qualquer pessoa facilmente encontra dos dados da ocupação do solo do país, incluindo análises de transição que permitem saber como tem evoluído essa ocupação do solo, o que aumentou e diminuiu, e esses pormenores que permitem discussões um bocadinho mais rigorosas sobre o assunto, evitando a enorme surpresa que vejo frequentemente quando explico que o eucalipto ocupa menos de 10% da área de Portugal.
Para Monchique temos então, de acordo com o COS 2015, 44,47% de eucalipto, 17,36% de sobreiro, 1,55% de outras folhosas e castanheiros e 26,88% de matos, ou seja, uma ocupação mano a mano entre eucalipto e a famosa vegetação autóctone cuja suposta falta é responsável por estes fogos (a soma do sobreiro e matos é 44,28%).
É claro que não se pode pedir às pessoas que deixem os factos influenciar as suas ideias, mas ao menos aos profissionais da comunicação seria razoável exigir que confirmem os dados que os especialistas que escolhem ouvir vos querem impingir para sustentar as suas agendas políticas, sociais e económicas.
Mas reconheço que escolher a ignorância é uma escolha perfeitamente legítima.
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