Sim, sem o menor problema, desde que me garantam que se lhes paga o preço justo pelo seu trabalho.
Não consigo entender por que razão, por exemplo, há um conjunto largo de profissionais que recebem subsídio de penosidade, mas aos pastores se pretende pagar apenas o ordenado mínimo apesar da dureza do seu trabalho.
Não consigo entender por que razão, por exemplo, se pagam horas extraordinárias a um valor mais alto a qualquer trabalhador, mas aos pastores se pretende pagar apenas o ordenado mínimo mesmo que façam bem mais de sessenta horas semanais.
Não consigo entender por que razão o trabalho aos Sábados gera o charivari que gera na Autoeuropa, mas aos pastores se pretende pagar apenas o ordenado mínimo, trabalhando sete dias na semana, 365 dias no ano.
Poderia, naturalmente, continuar por aqui fora, mas não vale a pena, penso que já fui suficientemente claro e até já sei a resposta: é que o rebanho não gera rendimentos suficientes para pagar melhor.
Ora aqui é que voltamos ao ponto base da pergunta do título, uma das perguntas que mais ouço quando defendo a revalorização dos animais na gestão das terra marginais que hoje não tem utilidade social e cuja ausência de gestão está na base dos mais de cem milhões de euros que gastamos anualmente com os fogos, com os resultados que temos.
O rebanho gera muito mais riqueza que a que é paga ao dono do rebanho, o problema é que o mercado não a valoriza o suficiente porque o mercado tem dificuldade em remunerar serviços difusos de interesse geral, como é o caso da gestão de fogo.
Pode argumentar-se que é errado usar animais na gestão do fogo em Portugal, eu acho que quem o diz está errado mas não tenho a pretensão de ser dono da verdade, o que não faz sentido é argumentar que isso não é possível por não haver pastores: paguem-lhes o valor do que efectivamente produzem, contabilizando os serviços de ecossistema, tratem esse trabalho com a dignidade que merece, e seguramente existirão pastores para o fazer.
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