sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Seis milhões de euros

Este é o valor mínimo que o Público diz que foi gasto pelas Câmaras Municipais no Natal.


Só o almoço de Natal dos funcionários da Câmara de Oeiras custou 100 mil euros, mas há muito mais coisas nestes seis milhões, com destaque para as iluminações de Natal.


Se o Público fizer a mesma investigação para as festas de fim de ano, facilmente este valor duplica (só a festa das cartolas, em Lisboa, custa 650 mil euros, se se preferir, 450 mil euros de dinheiro público mas 200 mil de uma marca de cerveja, e o Funchal gasta seguramente mais de um milhão de euros).


Se a isto se juntar os carnavais, se se juntar as festas concelhias, se se juntar as festas das freguesias e aldeias, facilmente se percebe o valor astronómico que gastamos em festas e festarolas.


Não me preocupa o dinheiro privado envolvido, os donativos que os mordomos das festas da aldeia recolhem na comunidade para celebrar os dias que a comunidade entende serem importantes, o que me interessa discutir é o dinheiro público envolvido.


Fiz um comentário ligeiro sobre a elevada exigência ética que forçosamente está associada ao gasto de dinheiro público na medida em que, por mais pequena que seja a percentagem daí resultante, a verdade é que todo o dinheiro público tem uma parte que foi tirada coercivamente a pessoas que recebem o RSI, o ordenado mínimo ou pensões de sobrevivência de poucas centenas de euros.


As respostas a comentários deste tipo são desarmantes, desvalorizando o critério base que deveria estar associado a qualquer gasto público: a aplicação deste dinheiro nesta despesa justifica que tenhamos retirado dinheiro a quem recebe o RSI?


Se houver dúvidas na resposta, a despesa deve ser simplesmente eliminada porque é uma aberração ética retirar coercivamente dinheiro aos muito pobres para pagar almoços de Natal aos funcionários da Câmara Municipal de Oeiras.


Que esta aberração ética não provoque a mínima sombra de dúvida sobre a legitimidade deste tipo de despesas, e todos achemos normal gastar milhões de dinheiro público em festas, é um bom sintoma da forma como normalizámos a captura do Estado pelos grupos de interesse, mesmo nas coisas mais pequeninas como um simples almoço, uma distribuição de bolo rei ou uma cartolada.

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